Não sei se caso ou se aceito a máquina de costura

November 25th, 2009

Que diacho que eu tô fazendo aqui? Ah, o nome disso é brogue, é? Tem até brogue depois que meu dinheiro se acaba!E quem é que vai contar essas histórias bunitas? Sei. Num tenho muita segurança nisso não, viu?Já vou dizendo. E então minha vida vai ser púbrica, é? E o povo vai ler, botar o dedo e dizer baboseria?Arriégua! Isso é que é coisa de outro mundo. Como é que faz pra sair daqui? Como é que diz? Com um cric? Já prestou!

E o povo vai ler tudo de mim? Deus é mais! E se num gostarem, vão sair por aí dizendo tudo que é palavra mau de mim? Sei não, tô meio desconfiada… E tem o tal de interneute, que tem um monte de coisa que não presta, vai espalhar conversa sobre minha vida…

Num sei não…a menina até explicou tudo diretinho, mas deu vontade de chorar, quanto mais ela falava mais sentia um nó na garganta. Não dá pra entender essas coisas não, rapaz! Cê besta! Mas cá entre nós, essa moça disse que eu tenho muita história pra contar. Cismou que é pra eu contar tudo, de bocadinho em bocadinho. Me apresentou esse tal de brogue e disse que num se preocupe que vai ficar bom. Sei não, tô achando que ela nem sabe o que faz direito.

Certa vez gravou um monte de história minha, diz ela que era pra um trabaio, sei não… Me pintei, me vesti cor de vinho, batom vermeio na boca, e era só pra falar de mim…Falei um pouco acabrunhada porque quem não tem vergonha de falar da própria vida? Só os sem-vergonha mesmo.E agora ela quer saber tudo de novo, a bunitinha. Sei não se vai dar certo. O povo dos brogues pode num gostar. Mas eu vou começar, não tem essa não, por apreço que tenho por ela, Janaína menina.

O probrema é que nem sei por onde começar, ela que é letrada que vai aparar minhas idéias, né? Então, vou falando que nem papagaio pra ver se aclara na lembrança alguma coisa de valor. Ela disse “comece falando da sua vida de casada”. Arriégua, pra quê? Deu uma amargura no peito. E minha vida de casada vai prestar pra esse mundo? Pois já prestou. Ela disse que sim, então eu comecei. Primeiro eu disse assim olhando pra câmera, né, com meu cabelo arrumado, eu disse meu nome, Luiza. Mas tava sem um pingo de graça na cara. Tava meio boba, não é fácil falar assim da gente mesmo não, rapaz. Mas, ela disse que o importante era contar uma história. Ai,ai,ai,a coisa já teve boa!

cruz

Pois eu disse que casei com uma criatura que Deus é mais, que me maltratou muito. Antes de casar mãe perguntou “cê quer casar ou quer uma máquina de costura?”Acho que já sabia que uma máquina de costura ia me fazer mais feliz que essa desgraça de marido que apareceu na minha vida. Pois eu tava cega, disse que não. Na época eu pensei que era melhor casar com um marido do que com uma máquina,né?

Mas, se hoje tivesse com a máquina ia ser costureira, né? Não ia ser ter sido mulher de coisa ruim. Casei virgem, na igreja, enamorada.Mas, olhe, o casamento num teve jeito. O homem era brabo demais, me batia, era um cão evenenado de ódio. Bebia que nem a besta fubana, e saia desbestado passando por cima de todo mundo. Eu não aguentei não,fiquei infeliz no amor,porque muié que aguenta essas barabaridades de um homem é porque tá doida ou tá precisada mesmo. Precisada de um macho. Mas quem quer apanhar a vida toda?

No dia que fiquei viúva eu abri as portas da casa, pra entrar um vento, refrescar o juízo.Levei a cama pro meio da rua, a cama que a gente dormia, e quebrei a ela todinha com uma pauladas sufocadas, tac,tac, tac. Queimei o colchão, marcado com as feridas daquele amor bandido,fiz fogo, fogueira e cinzas daquela história. Ai, mas me deu um alívio tão grande, que cês nem sabem, viu? Vortei pra dentro de casa sem cama e sem colchão, e sem amor, onde já se viu? E onde ia dormir aquela noite só Deus sabia. Olhei pro retrato da minha mãe santinha, no cantinho da parede e pensei, que sabedoria que uma mãe tem. A coitada parecia saber da minha infelicidade, que casamento é coisa que preste, rapaz! É por isso que muitas muiés se tornam costureira, logo entendi. Pra se livrar dessas desgraças da vida.

Acendi uma vela,olhei mais uma vez pra minha mãe, com seu rosto de papel, seu sorriso fraco na foto, e fiquei pensando nela a noite toda. Dormi um sono de bêbado, trocando umas palavras no meio da noite,sabe lá Deus com quem. Acordei no outro dia toda mambulada, fraca das idéias. A minha desgraça era ser viúva de marido ruim, sem colchão pra esquentar,sem nem ter uma máquina pra costurar as feridas daquele amor.

Para os amigos que virão…

November 18th, 2009

Amizade é...se assemelhar ao outro, sem deixar de ser diferente...

Amizade é...se assemelhar ao outro, sem deixar de ser diferente...

Sábado passado eu fui a um café em Headingley, bairro jovem de Leeds, onde a maioria dos estudantes se concentra.Pedi um café, que veio com cara de chuva, aguado, sem aroma - e como um café sem graça me faz perder a esperança…Mas, o importante naquele dia era sair de casa, ver gente na rua, me sentir menos bicho…

Ao meu lado duas mulheres jovens – uma delas com um bebê no colo – conversavam de um jeito manso que as pessoas adquirem no frio.Falavam um espanhol macio, que demorei a entender pela mistura de sons, máquina de café, os passos da chuva na calçada e a música de fundo embalando a tarde daquela petite cafe-gallery.

Sentei num sofá em frente a elas, de um jeito que podia observá-las fingindo vigiar o movimento na rua.Poderiam ser irmãs ou primas,pensei, pela semelhança física: as duas tinham pele clara, cabelo escuro,sorrisos de gengivas.Talvez nem parecessem tanto,repensei, mas podiam ser exemplos desses tipos de amizade onde um se assemelha a custa da outro.

Eram duas amigas que se encontraram para aproveitar uma tarde de chuva aquecidas por um café. Existe algo mais simples que dividir uma tarde dessas com uma amiga? Para mim, que ainda não encontrei essa metade apesar de morar aqui há mais de um ano,era tão simples quanto piegas. Olhava de relance, disfarçando uma minha ligeira comoção, folheando um livro que alcancei na estante ao meu lado - não podia passar a tarde contemplando duas amigas na chuva.

Houve um momento de silêncio, interrompido em seguida pelo choro do bebê, sendo consolado não pelos braços maternos, mas pelos da amiga, dona de uma confiança exalada. A outra, com olhos de intuição, parecia saber que diante dela havia uma grande mulher, uma confidente e protetora que podia acalmar não apenas o seus choros, mas o choro da sua própria cria.

De repente,a criança parou de chorar e voltou para os braços da mãe.

É tão forte essa relação entre amor e amizade. Ter um amigo é provar uma das experiências que o amor oferece.Todos os amigos verdadeiros mereciam uma carta de amor, uma revelação sincera do que significam nas nossas vidas.

Eu sinto falta das companhias sinceras, uma falta que me faz emudecer diante de desconhecidos que andam lado a lado e se olham com gosto de não se soltarem nunca; dos que riem com a graça do mundo, que se abraçam e se misturam em carne e osso, sem medo de apertar; ou diante de um simples encontro cara a cara, um mexer devagar na xícara, adoçar o café, olhar pela janela e sentir ao lado uma testemunha da sua vida.

Confesso que com um pouco de preocupação, admirei a calma e cumplicidade entre as duas mulheres. Não queria ser uma delas, queria ser amiga das minhas amigas, as que se assemelharam a mim pela convivência.

Entre um gole e outro de café, me senti tão ingênua na minha esperança, folheando páginas de sonho, acalmada por uma idéia de falsa comunhão.Quem sabe eu até me se senti uma amiga de tantas outras que entravam e saiam donas dos seus segredos?..

Sem querer deixar o lugar antes da dupla de amigas,passava as páginas com mãos de caramujo, devagar e profunda, mas pronta para voltar à realidade.Chovia como sempre e decidi ir embora. Não queria me sentir evasiva,viver num mundo de ilusoes cansa…É mais consolador ser sentimental, mas o mundo não está pra poesia ultimamente.

Me recompus, ajeitando a realidade como se fosse uma moldura torta, e me vi sinceramente com uma nova esperança.Os amigos distantes seguem eternos e frequentes, sei que posso contar com eles. Os futuros amigos surgirão de alguma parte como se tivessem cansados de me esperar. E vai existir pelo menos um, que eu possa contar de verdade, e que acredite em mim com uma confiança uterina, como quem acha na multidão um correspondente consanguíneo.

Nossso destino é a Muralha da China

November 11th, 2009

No dia que eles se conheceram ela estava decidida a viver uma história de amor. Ele nem parecia o tipo de homem que ela buscava, tinha cara de aventureiro, sem predisposição para amar, tinha cara de quem nunca se apaixonou. Mas, no dia que se conheceram ela havia decidido viver a sua história.

Dois anos se passaram, entre brigas, promessas de vingança, voltas turbulentas. Ela não sabe o que aconteceu. Mas que espécie de relação era aquela? Nunca se sentia confortável consigo mesma, nem pra dizer o que pensava, ou como se sentia.

Separaram-se no dia que ela descobriu que ele tinha outra, “mas logo ele que não tem aptidão pro amor”, agora surgia entregue a uma outra paixão, e o que mais doía, parecia haver descoberto o amor.

“Quantas vezes implorei pro sacana me escrever uma carta de amor”, jogou sua decepção pra fora. Ele sempre respondia com uma palavras amassadas, sem nem pronunciá-las direito, que não precisava declarar seu amor, nem escrever carta nenhuma, seu coração era um livro aberto.

“Uma mulher pode ser romântica, mas um homem, nossa, consegue ser de um jeito tão brega”, esbravejou.

Rasgou aquela carta, que ela encontrou foçando nos papéis dele. Uma carta de amor feita por ele, com sua própria letra, com seu próprio sentimento.

Não demorou para que caísse uma chuva de gritos no telefone.

“Você não podia ter feito isso, mexer nas minhas coisas”.

“É uma carta de amor. E não deve ser para mim porque eu não tenho um sorriso doce.Quem usa aparelho tem um sorriso acre, de grampo mesmo”,disse irônica.

“Sei. Seu sorriso é diferente mesmo”, ele rebateu num tom de deboche.

“É, acabou-se o tempo dos sorrisos poéticos entre nós dois”, falou sem medo de ser ridícula. E completou: “Mas, sabe o que me deixou mesmo intrigada?”.

“O quê?”

“Fiquei preocupada com você. Onde você conheceu essa garota.Olha, pelo nome dela, Aretuza, se eu fosse você dava uma conferida antes de se envolver…isso é nome de pu”…

Ele desligou o telefone. Ela ela saiu correndo da casa dele, se desmanchando na multidão, sentindo uma dor plácida crescer dentro dela até se transformar num sofrimento tão febril que lhe desbotava a cara.

Se sentia tão violenta,dona do seu sofrimento, não tinha sossego. Entrou no ônibus e passou a encarar todas as pessoas,ao seu redor, com um olho grosso de raiva, mostrando seu abandono. Olhava para as pessoas com tanto desprezo, como se no meio delas tivesse encontrado a responsável pela seu dissabor.

Picasso

“Ele fez uma carta de amor”, rangeu os dentes, se tremendo toda. E seguiu:“quem diria depois de dois anos o que eu ia receber? Uma carta de amor!”, riu desgarrada no meio de tantos rostos cansados.

Desceu do ônibus complacente, já dona do seu próprio desconsolo.Caminhou com seu corpo desossado, molengo, se arrastando pelas paredes, levando um pouco do mundo consigo, pra não chegar em casa tão vazia…

Parou um momento no meio da rua e falou sozinha, enrolando os fios de cabelo demoradamente, com dois olhos perdidos na calçada, como já num estado avançado de aflição, desbotou-se e chorou derramada na própria agonia.

Como é que se cura uma dor dessas? Porque dói tanto?, pensava.

“Filho de todas as mães, por isso que ele estava assim todo estranho…”, pensou azeda. “Bem que minha mãe dizia, quando um homem anda meio calado, pensativo…se não quiser se magoar, não faça nenhuma pergunta”, repetiu com o tom de voz de alguém mais velho.

Mas, ela fez. E ele disse que não a queria mais. Não me quer? E ela murchou, como uma flor tirada no asfalto. Mas uma flor sem poesia. Ele não queria mais se envolver. Por que?

“Porque você é muito simples, quer casar, ter filhos. Como você existem muitos por aí. E você vai encontrar outra pessoa logo,logo, porque você é tão docemente fácil”, ele falou sem piedade.

“E você?”, ela perguntou sofrida.

“Eu quero outra vida. E recebi uma proposta. Viajo no próximo mês”.

“Pra onde? Com quem?”, perguntou já sem medo de se magoar.

“Viajo pra China, sozinho,e vou passar um ano”.

Foi aí que ela se apagou de vez, o que restava de mulher diante dele se desvaneceu. Sua voz foi afinando até se atracar com um nó na garganta, que ele segurou até que chegar em casa…

Chorou tanto, um choro ardido, que  seu rosto brilhava. Ligou várias vezes, para o celular, para casa, mas ele não atendeu.

Até que horas depois bateu na porta dele, com uma voz rouca, e uma pele manchada de choro, com placas vermelhas…

Naquela noite discutiram mais uma vez, e sem ter encontrado ainda nenhuma carta, fez a pergunta que todas as mulheres fazem nessa hora: “é outra?”. E ele como se já esperasse negou, como um homem de verdade negaria, e mudou de assunto.

Ele teve que sair para trabalhar. Deixou– a dormir na sua casa aquela noite, sem problemas.

Já era tarde, ele tinha que cumprir o turno da noite e não tinha pena. Que ela dormisse seu sono infeliz, com tanto que não ficasse no outro dia pro café da manhã.

Nessa noite ela encontrou a carta e voltamos ao começo. Além disso, encontrou a foto da dona da carta. Uma mulher mais nova, loira, “sem graça, de cabelo lambido”. Na foto os dois estavam abraçados, e o mais triste foi constatar que eles pareciam donos de uma felicidade que ela nunca experimentou ao lado dele. Era uma abraço de quem esqueceu da solidão.

Ela leu a carta, e achou a letra dele infantil,de quem nunca se aventurou muito no amor. Mas,não era uma simples carta de amor, era uma declaração a si mesmo, como se agora sim,ele houvesse constatado, que o amor, o verdadeiro amor, existia.

Ela ligou pra ele em seguida. Depois de discutirem durante uns quinze minutos, ele a expulsou de casa.

Quem disse que ela saiu? Passou a noite como um bicho estranho, se rastejando pelos cantos da casa. No dia seguinte, cedinho, se levantou como embriagada pela noite de excesso que passara e saiu como se tivesse invadido aquele apartamento, sem deixar rastro. Não deixou recado na geladeira, nem cama desfeita.

Ajeitou a cozinha, o sofá, trocou a toalha suja do banheiro, exercendo sua última função de companheira daquele homem, um pouco de mãe,dona do lar, mamífera, mulher.

Quando saiu à rua, disparou uma revolta grande, corpulenta. Saiu atirando tudo que via pela frente, chutando lata, garrafa, parecia um furacão humano, perturbando as primeiras horas do dia. Eram quase seis e meia da manhã e ela teve que enfrentar um ônibus lotado.

“Ah, eu mereço descobrir uma traição e ver tanta gente de uma vez só!”, gritou como que esfomeada. Tinha fome de que a notassem.

E foi sem pudor que disse a si mesma, “não quero saber de amar ninguém, homem gosta de vagabunda mesmo!”

Entrou no ônibus chutando o ar. Teve raiva de ver o cobrador contando dinheiro, “aí, todo sentado, tranquilo”, da velhinha que se equilibrava nas curvas, “aí, essa toda desequilibrada”, gritava como se quisesse arrumar confusão.

Talvez ela até tenha recebido uma carta de amor alguma vez, mas não lembra de ter sido amada. Amada do jeito que ela queria ser, como uma maneira de se aceitar. “Ninguém nunca me amou, nunca”, falou com uma criança ao seu lado.

Estava de um jeito que era mais fácil consolar uma pedra. Muda de raiva, não podia lembrar daquela foto, das palavras de açúcar, da paixão de cachorra louca que sentia por ele.

“Quero matar aquele safado!”, rosnou com um bafo de fera.

O ônibus parecia mais apertado e ela se encolhia de dor. Mas de repente, se deu conta que a dor  mais aguda era recordar que ele ia pra China, com amor, com carta– era a ida à China e todas as esperanças estavam mortas.

Minutos depois, uma idéia pareceu iluminar seu rosto. “Quando os amigos perguntarem eu vou dizer que a gente acabou por uma carta de amor”,pensou.

“Uma carta de amor? Mas eu pensei que toda mulher gostasse de receber uma”, perguntou uma amiga, intrigada.

“Pois é.As mulheres estão cada vez mais exigentes, né? O cara chega citando  Camoes, e a gente não tolera mais, né?”, disse irônica e um pouco louca, depois da quarta taça de vinho.

Ela sabia que alguns relacionamentos vão se acabando aos poucos, tão lentamente como se cada um construísse pedra por pedra esse fim.

E é que existem finais que parecem mais extensos que todo o caminho que um casal percorre junto, “alguns finais não têm atalho, são longos…e o destino do nosso fim, cá entre nós, era uma Muralha da China”, disse com sua voz ébria, com essa mania que tinha de falar quando já ninguém mais a escutava…

** Pintura : o beijo,Picasso.

Bono, o cachorro com alma…

November 3rd, 2009

Eu sempre gostei de cachorros por eles serem espontâneos, dispostos e positivos. Já com gatos  eu nunca simpatizei muito. Gato se assemelha muito à nossa raça, atua como leão dominando o seu território; é curvado, imprevisto, rodeia muito para dizer o que quer, é introvertido, anguloso e tem uma fisionomia impassível, que a gente encontra em certas pessoas, com dois olhos que não dormem.

Acho que não confio nos gatos porque eles guardam esse ar de mistério, são interesseiros e não sabem agradecer um carinho. Os cachorros, não, têm olhos de doar. Se aproximam mesmo quando não são chamados e sorriem, sorriem sempre.

Eu nunca tinha me dado conta, até o dia que uma amiga me mostrou que seu cachorro pequeno sorria. Eu olhei pra ele com o sorriso lá dentro de mim e constatei mais tarde: não é que ele sorria como quem ri pra se esconder da tristeza?

Um dia meu pai inventou de arrumar um novo cachorro para fazer companhia ao mais velho que tínhamos, Puppie. No dia que Beethoven, como assim era chamado, chegou lá em casa, eu esperava ansiosa por um dálmata, quem sabe um labrador…

Mas, que nada! Aquele cão, batizado no Campo da Vila, no interior de Sergipe,não tinha nada que lembrasse a elegância desses cachorros que passeiam com seus donos pelos parques. Ele chegou afobado, com nâuseas que o deixaram com um aspecto torpe de pessoa embriagada, com um pêlo sujo e afiado, um cachorro-espinho.

Tinha um pêlo meio grisalho,apesar de ser muito novinho, e aparência de um homem de barba mal feita entregue à sorte. Andava com suas patas cambaleantes e equilibrando o sorriso no rosto. Ele nos olhou, balançou o rabo lento, como se nos cumprimentasse por educação, parecia cansado, de um cansaço triste, pela viagem longa demais, pelo vômito, pela mudança de lar…

A gente o levou até o jardim, se me lembro bem,a contragosto.Ele parecia feio demais, magro demais, cinza demais, cachorro demais. Vinha um, vinha outro,olhava para ele com um olhar de gato e o depreciava…”ai, tadinho…feio, né?” Mas, ele como que já recuperado da sua ressaca, não se intimidava. Pelo contrário, sentou-se no chão de pedra seca, se esticou e balançou o rabo, feliz, como se ignorasse o que dizíamos. Depois fez um pouco de graça, se levantou, lambeu, chegou mais perto, parecia uma pessoa que, cansada de sofrer, decidiu transformar ofensas em carinho.

ME LEVA PRA CASA?

ME LEVA PRA CASA?

Nessa mesma noite eu o batizei Bono e ele aceitou o seu nome como se soubesse que era bom de verdade, um cachorro com alma.

Com o tempo eu passei a amar aquele vira-lata de pêlo amassado, um feroz exíguo, meio atrapalhado, que dava saltos treinados no ar, malabarista, e eu passei a chamá-lo de cachorro de circo.

Um dia eu descobri que Bono não era apenas um cachorro que ria estático, que corria atrás de quem passasse na rua, guadião da nossa casa; ou aquele que cativou nossos coraçoes. Ele era tão confiante e audaz (se atreveu a fazer xixi nas minhas costas duas vezes!) que tinha certeza daquela conquista…e devia debochar das nossas visitas ao passado:“Ah, não, eu nunca disse que ele era feio.Mas, em compensação, todo mundo disse”…

Bono tinha uma alma em segredo, que vigiava os sentimentos de quem frequentasse aquela casa. Eu tinha mania de  ficar no banco do jardim pensando na vida. Um dia eu sentei ali, mas não pensava em nada. Iluminada por uma tristeza, me sentia sozinha e chorava de dores que já nem lembro.

Foi quando Bono se aproximou e como se me perguntasse o que aconteceu, subiu no banco e ficou ao meu lado, respirando o mesmo ar triste, com seus dois olhos de consolo. Só saiu de perto quando me viu sorrir, já mais animada, e agarrar o seu pêlo, do jeito que eu fazia, como se segurasse duas bochechas macias.

E assim ele era com todo mundo. Sensível, não suportava o peso de uma lágrima no chão, parecia saber o que era dor, dono de um coração de pétalas..quantas vezes Bono se aproximou, colou seu rostinho na minha perna, se enroscando até encontrar uma posição confortável, geralmente no meu colo… Ah, quantas vezes ele consolou coraçoes decepcionados, cansados da vida, por não suportar ver uma ausência no rosto do outro.

No dia da sua morte ele parecia haver ensaiado suas últimas horas sem esquecer de nenhum detalhe: acordou feliz, brincou, deu seus últimos pulos, já a um passo das nuvens, fez sua última refeição.

Depois foi dormir, e dentro do sonho ele saiu da sua vida ileso, em silêncio, sem dor.

Eu não o via há um ano, e a notícia da sua morte  foi tão violenta que chorei desaguando uma dor nova dentro de mim, a da perda, sentada numa cadeira,murcha e amparada pelo homem que leva a sério minhas dores infinitas, pelo homem que Bono confiaria deixar no seu lugar como o mais novo companheiro das minhas lágrimas.

(E alegrias também, meu cachorro de circo)

P.S.  O cachorrinho da foto não é o Boneco ( eu também o chamava assim). Mas é fofo, né?

Encontros e contratos

October 27th, 2009

Sempre imaginei como seria um encontro com um escritor famoso. Não me refiro a um encontro formal, por detrás de páginas de livros autografados, ou de frases soltas roubadas numa entrevista. Mas, um encontro de ombros lado a lado, com pausas na caminhada, com pétalas e páginas, numa tarde de outono vendo as folhas que caem do céu e voam como pássaros quebrantados.

Já tive o sonho de conhecer Clarice Lispector, de abraçar Drummond,ou de recitar um poema com Manuel Bandeira, “Parságada, meu caro, é para lá que todos irão”. Já desejei,de verdade,tomar uma dose de haikai com Paulo Leminski, entrar na cabeça de Lewis Carroll, dar um passeio no submundo de Dostoyevsky, ler bem alto Um amigo de Kafka,de Isaac Singer, e recuperar a esperança na vida, com as páginas de uma nova história ondulando na palma da minha mão, como um corpo avançando o mar, desafiando as ondas, sua força insípida.

Ah, sim, todo leitor tem um sonho de salvação, um desejo de encontrar a verdade. Todo leitor se arrepia com a intimidade que se estabelece, às vezes promiscuamente, com o seu escritor favorito. Que leitor não leu Nelson Rodrigues e se olhou no espelho, com aquele olhar sem pudor que prevê uma fatalidade? Que leitor nunca criou uma ligação infinita com o seu escritor preferido,já se sentiu entendido, enfeitiçado por uma verdade que às vezes só existe na imaginação do próprio criador? Quem nunca se envolveu e se deixou seduzir por uma história? Eu mesma chorei de raiva quando o escritor misterioso do A noite do oráculo, de Paul Auster, decide trair sua mulher.

A ilusão é o contrato entre leitor e escritor; no momento em que o leitor abre o livro, lê a primeira página, ele se entrelaça no mistério da vida, é como dar as mãos a um estranho que parece nos conhecer tão a fundo, daquela maneira de se conhecer alguém escancarando as portas.

Eu já aceitei esse convite tantas vezes. E até já ouvi histórias de leitores que deram mais que um pedaço de carne, venderam a alma. O meu primeiro encontro violento aconteceu há muito tempo, com Clarice Lispector. Quando eu a lia, eu tinha vontade de chorar, amarrada que estava à sua essência, violada pelo desejo de ser Clarice.

Mas, haviam muitas Clarices espalhadas. Aos poucos, eu entendi que existia um sentimento de Clarice em muitas mulheres, muitas  a sentiam na pele, e eu achei que fosse apenas mais uma leitora - mas uma leitora de olhos desconsolados e tímidos.E com uma felicidade de ombros encolhidos. Amo Clarice,mas quando leio (ou releio) os seus textos, eu sou a mesma, ela só me empresta os seus olhos. E depois saio livre e cega pra minha realidade.

Lygia Fagundes Telles

Mas, existem os encontros inocentes (ou não). Um dia meu irmão trouxe da biblioteca o livro As meninas, de Lygia Fagundes Telles, e eu soube  que ali estava a minha salvação.Não tinha idéia do que me salvava, se do tédio dos meus 17 anos, ou da ansiedade de crescer e avançar para o mundo. Desde a primeira página eu sabia que aquela leitura era especial, uma certeza borbulhava dentro de mim.

Durante alguns dias eu fui uma das meninas de Lygia, eu contei com elas, eu escrevi do jeito que elas falavam, a gente se entendia muito bem…Até que eu terminei o livro, mas foi um término contente…Eu continuava a menina dentro das meninas…Depois, o meu desejo foi ler mais dessa escritora, que conta uma história de uma maneira tão especial que a gente se belisca para sair da pele do personagem.

Eu nunca pensei em conhecer Lygia Fagundes Telles, pra mim já me bastava a força com que atava minhas mãos às dela. E tinha sempre uma efipania de um conto seu, que pra mim era um conto verde, de purpurina, de uma alegria desesperada que só existe no carnaval…

Eis que um dia esse encontro chegou e eu nunca soube como escrevê-lo e talvez até tente outros rascunhos. Foi na primeira edição da feira literária de Paraty, no Rio de Janeiro, a hoje conhecida Flip. Na época eu era estagíaria de jornalismo, ansiosa e insegura. Pedi pra trabalhar na Flip na cara de pau  e eles aceitaram, me deram crachá, acesso à sala dos jornalistas, computador, etc. Me facilitaram entrevistas com alguns escritores, como Marcelino Freire, coletiva com Paul Auster, etc…Mas, eu queria entrevistar Lygia, ela sim.

Numa tarde fresca em Paraty, eu saí em busca da autora de Ciranda de Pedra. Levava debaixo do braço o seu livro mais recente de contos, que eu queria ver autografado. Uma mulher me levou até o hotel onde ela estava hospedada. Numa das ruas de pedras de Paraty, de frente para um portão de madeira,eu a esperava, debaixo de uma chuva fina, com meu coração grosso, quente e palpitante.

Depois de uns minutos, Lygia apareceu acompanhada do seu acessor, muito elegante, como se saísse de um lugar onde o tempo não existisse. Surgiu como a responsável dos meus dias serenos de leitura, de felicidade embevecida; como dona da minha  lucidez àquela idade, surgiu a escritora.

Lygia me cumprimentou muito simpática, suas palavras tinham perfume. Disse num tom familiar que Paloma era o nome da namorada do seu filho, Paloma Rocha, e me senti gêmea dessa outra, um pouco sua nora também.

Ela tinha um objetivo àquela tarde: encontrar um cachorro (vi muitos perambulando pela cidade) para dar –lhe um bombom embalado em papel celofane verde. Lygia me deu sua mão e saímos de braços colados, caminhando em busca do destino esverdeado. Ela não queria dar entrevistas. Queria uma companhia sincera. No meio do caminho uma bandinha atropelou nossa caminhada e Lygia aplaudiu aquele mini carnaval. Andávamos sem pressa.

Lygia autografou meu livro, escreveu uma mensagem linda. Tive a impressão de que entramos num laberinto, que era um sonho, tão absurda e feliz que me sentia. “Eu preciso registrar isso, tirar uma foto, senão vou achar que é sonho”, pensei o caminho todo. E olhava de relance para ela, presa ao meu lado com suas mãos de laço.

Nas noites da minha infância quando eu dormia com minha mãe, só conseguia pegar no sono se segurasse bem forte as mãos dela, para que ela não me escapasse. Mas, eu sempre amanhecia solta, sem minha mãe ao lado. Quando eu dei mão e braço à Lygia, eu senti o mesmo medo infantil de acordar no dia seguinte para um mundo sem proteção.

Tempo lento…

October 20th, 2009

Salvador Dalí

Dá para derreter o tempo...

“Certas vezes nós devíamos ser  aconselhados a não sair de casa”, foi o que ela pensou nas últimas horas do seu dia. E não pensou que fosse preciso consultar os astros, horóscopo, não. “É assunto do ministério da saúde mesmo”, pensou com a  cara fechada pra ela mesma, enquanto passava o ferrolho na porta.

Ela devia ter ouvido aquela vozinha lá dentro, “Não sai de casa, criatura. Hoje vai chover peixe”, como no livro daquele escritor japonês que ela leu há algum tempo. Mas, inventou de seguir aquele caminho de folhas mortas no chão, por onde o vento passa preguiçoso, arrastando uma sujeira peneirada..

Correu pra não chegar atrasada, como se marcasse ponto, mas onde trabalha não marca nada, só as roupas que saem, as roupas que entram…

Ela não teve nem fôlego para dizer boa tarde, estava cinzamente calada. Mas, se deu conta de que tinha chegado duas horas antes de começar o trabalho. Sempre chegava adiantada nos lugares: ela já chegou um dia antes para uma consulta com o oftalmologista, que deve ter pensado que  a pobre não enxergava bem as horas, as datas, os dias…

“Quando chove assim, eu preciso comprar um livro. É como falar com alguém”. Foi aí que ela decidiu aproveitar o tempo livre e passar numa livraria para arrumar conversa. Acabou comprando um livro de jazz, depois decidiu estender aquele papo pra um café ali perto, ai, como a “solidao rende assunto” e almoçou naquele bar que se orgulha do seu serviço cronometricamente demorado – porque foi assim que ele se tornou popular.

Se chama Café Lento, nome que não representa nada para qualquer cidadão inglês, mas para ela, defensora dos pormenores,lento é como uma tarde de sol deve ser, como uma brisa num dia abafado deve existir, como deve ser o tempo dedicado aos pequenos prazeres.

Para ela, sim, uma lentidão de café, um grão de tempo na sua vida pra que ela pudesse mudar as coisas que a incomodam nesse momento: a chuva, “ai que tema constante na história da minha vida”, os dias que agora encurtaram… “amanheceu e estava escuro”, lembrou. Olhou pela janela aquele mundo emparedado lá fora, tombou e voltou a dormir; chegou em casa às cinco e meia e já estava escuro novamente.

E chovia,claro. Ela detesta os dias de chuva porque quando chove as pessoas emudecem, ficam pálidas. E não tem quem aguente a cidade em silêncio. Nenhuma buzina, os carros passam como se fossem feitos de papel. A cidade é um cenário. “Veja aquele senhor de cara torta, com a boca toda engolida”, observou.

Mas, o que mais azucrinou a sua cabeça é que ninguém chegou pra ela e disse: minha querida, fique em casa, porque sendo assim você não terá sua bicicleta e seu celular roubados, não vai quebrar aquele vaso que você comprou, quando corria cega no meio da chuva, não vai chegar em casa e notar que tentaram entregar aquela encomenda que você tanto esperava, nem vai ter que limpar nem chorar o café derramado.

Não deu tempo, “já basta”, ela pensou enxugando a raiva. “Passou, vou tentar ler o livro de jazz”. Com que cabeça? E volta tudo outra vez. Ela no café lento, de frente pro balcão, “hello, alguém aí?”, no lento espaço, com um dono, que sempre muito etéreo, parece ter vindo de um mundo onde as pessoas se rastejam. Dessa vez ele surgiu de cima do teto, desceu a escada com um vigor fugaz e ela se assustou: “ai, nao tinha visto que você estava aí em cima”, disse com uma naturalidade de quem bate na porta de um amigo pra pedir um pouco de café.

E o dono como se não ouvisse, soltou um Good morning, may I help you?, meio decorado. Ela só queria paz para ler o livro e tomar um café. Aliás, foi atraída pelo ambiente daquele café (é assim que eles chamam aqui, vamos num café? pra tomar café) agradável, cool. Mas, fazia barulho demais, a música era brasileira, um trio mocotó, parapapá,ela achou que conhecia esse grupo quando o dono falou. Trocou o café por  algo leve,e comeu uma salada, como sempre.

O dono lhe perguntou onde havia comprado aquele livro que ela segurava com tanto prazer. Ela respondeu com entusiasmo, “ah, num sebo!”, e descobriu que uma banda de jazz ia tocar na próxima sexta, naquele café lento. Depois da conversa veio a bebida,uma coca-cola diet sem gelo, porque já basta de frio. No final das contas não deu tempo pra ler nada. Só deu pra sentir a demora com que ela passava cada página, folheando, tão lenta que se achava naquele momento, sem nada que lhe desse conforto.

Comeu sua salada sem ritmo. Será que faz mal ter tanta pressa? Faz mal é tardar pra entender as coisas da vida…Faz mal é querer fazer algo e se sentir envergonhada. Mas a lentidão também prejudica, se apressar pra chegar no fim do caminho, não ter calma pra deixar que as coisas se esclareçam por si mesmas,” mas em que cadência a minha vida se encontra?” Ela fechou o livro, se encolheu de frio e foi embora. Quase derruba o copo da mesa, “odeio esses dias em que acordo com a mão torta”, resmungou. Quase deixa o casaco na cadeira, por um segundo, e voltou para buscá-lo. Abriu a porta, levou um vento na cara, lembrou que a chuva não dá uma folga.

“O tempo só pode existir em funçao da razão, mas a loucura derrete o tempo”…foi o que ela pensou plana e adocicada. Ia chegar tarde ao trabalho, mas se sentia o coelho do mundo de Alice ao revés, sem relógio na mão e sempre dizendo, “não tenho pressa, não vou perder nada”. Nem se importou com conferir a hora, e só pôde lamentar que ainda não lhe tivessem roubado todo seu tempo….

Life moves pretty fast. If you don’t stop and take a look around once in a while, you could miss it.


O Café Lento existe, sim, lento e filsófico.

Fica na rua 21 North Ln, Headingley,

Leeds, LS6, United Kingdom.

www.cafelento.co.uk


Em Paris do Pará…

October 13th, 2009

Trilha sonora do texto…

Ele entrou como um raio dentro daquela loja pequena e cheia de obejtos usados, de outras vidas. Salivava de tanta ansiedade, com a boca solta e desamarrada, falando barbaridades consigo,“Imagina, seu sacana, se eu ia ter coragem de fazer aquilo,tá maluco?”. E fingia que não falava sozinho, como se a sua metade que o perseguisse. “Sai, sai”, dizia espanando os pesamentos mais sujos…

Olhou ao redor com dois olhos de pedra e recuperou o entusiasmo incial. Atrasou um pouco o passo até chegar ao caixa. Queria acalmar as idéias. “Sai, sai”, e se livrava de mais um peso na consciência. Coçou nervoso os seus cabelos fofos como um tapete,deu um passo infantil, daquele que deixa o corpo num desequilibrio bobo, avançou determinado, um, dois, e juntou os pés, um ao lado do outro, em frente ao caixa.

Chegou até a mocinha da loja e disse emocionado: “Olha que maravilha que acabo de encontrar”. Ela, que nunca duvidou da ambição dos simples mortais, olhou pra aquele quadro e disse profunda, “ah, que raridade, hein?” Mas, logo se deu conta de que aquilo não se tratava de uma pintura, não era coisa que tivesse valor. Um desenho, um pedaço de de Paris, uma cidade que já inspirou tantos pintores, que já acolheu tantos poetas e sentimentais,tantos beijos apaixonados (se bem que ela nunca se beijou apaixonada em Paris) “e a fazem assim de papel e caneta”…

“Não é mesmo uma maravilha?”, perguntou o rapaz trazendo-a de volta ao seu mundo. “Ah, realmente, que coisa linda. Olha só, é Paris”,ela respondeu, se sentindo um pouco ameaçada pelo entusiasmo do cliente.

“Ah, Paris!”, os seus olhos duros se desmancharam, e com a boca cheia rematou: “já estive lá, sim,sim”.

Ela não disse palavra, olhava para o quadro sem sentimento algum,deslizando a mão pelo desenho como se apagasse algum sonho. E ele todo agoniado por uma resposta, com a cara no quadro como se quisesse entar dentro dele, apontou para a Torre Eiffel e perguntou :“ E o que é isso, o que é isso?”. No que ela, como pega de surpresa, só pode responder com a mão segurando a boca, pra que nada além de uma simples resposta escapasse:“É a famosa Torre Eiffel, em Paris”. E ele como se recuperasse a memória, afirmou, “claro, claro, já estive em Paris”.

“E você gostou de Paris?”, perguntou a mocinha com cautela. “Meu Deus, muito,muito mesmo. É o único lugar que eu conheço nesse mundo”, sorriu poético.

“Sei. É uma cidade linda mesmo”, foi só o que pôde pensar e dizer.

“Você é francesa?”, perguntou com a esperança de quem vai a Paris praticar o francês com um nativo.

“Não, não sou nada”, disse quase muda.

“Que pena. Ia ser bom conhecer Paris e uma francesa”, e se calou. Pediu que ela colocasse o quadro numa sacola plástica, “pra proteger Paris”, e saiu tão alto como se alcançasse o topo da Tour Eiffel

A mocinha ficou ali parada, ela que já havia estado em outros lugares, sentiu vontade de seguir o inverso, “todo mundo quer ir pra Paris, eu quero ir pro Pará”…Ela não, queria mesmo achar um quadro de uma cidade com alma, com uma torre humana,com um carrossel de histórias, viajar no mundo dos outros.

Quando chove os doidos saem da toca…

October 6th, 2009

Hoje já vou avisando: estou sem muita paciência! Sonhei a noite toda que lia livros e mais livros. Sonhei com uma mão, que mão foi essa que você colocou no meu sonho, hein? Então, essa mão dura ia mudando os textos, um atrás do outro,enquanto meu cérebro absorvia cada palavra, linha por linha, e a mão me dava mais histórias em cápsulas, pra eu continuar criando, sonhando,sem perder o meu rumo…o que é que você está fazendo comigo?,sem deixar escapar nenhum pedaço de mim no papel…mas,que criatura é essa que desaparece e me deixa aqui solta, personagem abandonada?

Estou ensopada de letras! Não consigo parar de ler, de escrever, é uma convulsão criativa, será? E quando acaba? O que está acontecendo, me explica!!!!Mas onde começou mesmo? Isso tudo que estou sentindo pertence a quem mesmo? Ah, me sinto uma cópia. Onde foi parar esse maldito escritor?

Eu só falei que era bom ter alguém que pensasse em mim com carinho, alguém que estudasse, com calma, as minhas emoçoes, que me construísse como se constrói um filho, que me fizesse viver histórias incríveis, dessas que nos fazem querer mudar de vida na mesma hora. Ah, eu confesso agora: Eu quero nascer de um esboço, sim, de um suspiro de imaginação, quero  sentir o prazer do meu criador a cada página que avança, quero passar páginas, ser borrada, recriada, “essa frase não combina mesmo com ela”,ouvi ele dizer, ocupar os pensamentos do meu escritor, deixar que ele me veja completamente nua, não ter vergonha de ser o que sou, de errar ou de falar alguma bobagem.

Ele nunca me julgaria, porque seus olhos de criador são livres de julgamento,não existe nem o bem, nem o mal, ele sabe disso, que a minha força está na palavra e através dela me defende.Ninguém vai me dizer o que fazer. Ele sabe onde quer me levar. Ele não pode me ver, mas quando ele me escreve, ele me desenha de um jeito tão certo que me assusta - me conhece tão bem, ufilhdmãe,vai saber de que idéia ele me tirou.

E hoje ele me botou numa história curta, porque hoje eu tive um dia corrido e pedi que, pelamordeus, “me poupe de ir pra lá e pra cá e pensar tanto”. A geladeira quebrou, a cozinha ficou alagada, lá fora chovia tanto que dava pra lavar alma, pensamento…O rapaz levou a geladeira velha, trouxe a geladeira nova, deixou minha sala um lixo, com pés de chuva no tapete, no chão, e a geladeira chovendo dentro dela, velha, saiu lavando o chão empoeirado.

E ai já viu, lama, água e poeira. Não deu tempo de almoçar, saí correndo pro trabalho e aí meu criador me entendeu e sussurrou no meu ouvido: “Certo.Hoje está que não cabe mais chuva. Vou poupar você,então. Hoje você não faz nada, só vai observar e só vai falar quando eu mandar”.

Aceitei na hora. Foi aí que ele me veio com essa história de que quando chove os doidos saem do casulo.Quando chove quem sai do buraco é  barata, eu falei. “Psiu, já avisei que você não ia precisar falar nada, guarde seus comentários”. Está bem, disse me engolindo inteira. Certo.

Chove doido na loja de caridade, ou melhor,charity shop (em inglês é mais chique, né? “Não pedi sua opiniao ainda”. Tá beeem). Hoje na loja da fundação RSPCA, onde Paloma trabalha,choveu doido atrás de casaco, de abrigo, de agasalho. Começou com um homem amarelado, de cabelo preto, magro como cabo de vassoura. Entrou, vasculhou umas roupas, passou o tempo conversando com seus (cabides) botoes, rindo, algo ali buscava… uma resposta? Paloma olhou intrigada: “Será que ele tá buscando roupa pra namorada?” (Vem cá, quando eu penso, eu penso em inglês ou em português? “Paloma, não tenho tempo pra respostas. Seguimos a história?” Odeio quando você me coloca dentro de um parêntesis.E quando você me coloca com essas letras deitadas, então, e essas frescuras todas, parece que penso pequeno ou diferente. “Paloma, seguimos a história, se alguém chegar a esse ponto da história, não vai ter nem vontade de chegar até o final”. Que chato).

O homem esquelético  de cabelo preto lambido decidiu provar o casaco (três vezes menor que o número dele, né? “ Vai continuar interrompedo, my dear?” DESCULPA). Vestia uma camisa leopardo minúscula, que acentuava seu corpo de criança desnutrida. Provou um casaco verde que ficou acima da sua cintura…Pediu opinião aos outros clientes que passeavam pela loja, a maioria idosos ou estudantes em busca de uma barganha.

“Está ótimo”, disse um dos clientes e piscando o olho pra Paloma como se acabasse de enganar uma criança. O homem magro gritou pra todo mundo ouvir: “gostei! mas acho que está um pouco pequeno”. Paloma, então, resolveu ajudar,disse que as roupas masculinas eram do outr… (não adiantou nada, né? Ele nem me deixou falar, já foi dizendo que gostou daquele casaco e pronto… “È, eu sei melhor do que você o que ele acha”. Que grosso você! Viu o quê hoje? Chuva, né, só pode!)

O homem seguia no seu monólogo real, mantendo a atenção dos clientes que fingiam que não estavam atentos (pessoas acostumadas com a loucura é outra coisa. Na minha cidade todo mundo já estaria rindo…). “É sempre assim: quando a gente gosta da cor, o tamanho é errado. Quando fica bem no corpo, a gente não gosta da cor. Vou levar”, e o homem magricela deu um ponto final na história

Meu nome é Godofredo, fredo,fredo, fredo, mas nao fedo nao...

Meu nome é Godofredo, fredo,fredo,mas eu não fedo, não...

Uma senhora passou por Paloma e disse disfarçadamente: “To be or not to be. That´s the question”. Paloma riu. Vender ou não vender um casaco de mulher para um corpo disfarçado de homem, era a toda a questão do dia”. Em seguida, surgiu o oposto do cliente anterior: esse era forte, com uma barba que batia no peito e uma cabeça que quase não passava na porta (ah, mas semelhante na loucura).

Ele foi direto ao ponto. Queria um colete preto. Provou, perguntou a ela como estava e ela disse “perfect”, sempre simpática. Vendeu ao senhor barbudo,que pagou com dinheiro guardado numa lata amassada, que levava no bolso do paletó junto com uma bolsa enrolada de plástico, “onde está, onde está, minha bolsa. Ah, sim, aqui” e  enrolou um pouco mais e guardou-a no bolso interno do sobretudo e, sobretudo, disse goodbye apressado, mas depois de descobrir que a dona da loja era italiana disse ciao, e falou maravilhas da Itália, exaltado, “Ahh, Itália!Quantos veroes passei ali”…

“ E você é italiana também?”, perguntou a Paloma.

“Não”.

“Espanhola?”

“Nao”.

“ Hum…Portuguesa?”

“ Nao”.

“Que charity shop mais internacional!”, disse a barba exclamativa.

E Paloma ensinou ele a dar “adeus” em português. No final ele saiu com colete de menos de três libras e um adeus de graça, “Adeus, ha-ha”, repetiu.

“Esse é desses doidos que não sabem falar, só se comunicam rindo”, pensou Paloma, olhando –se no espelho, espelho meu, existe alguém mais doida…E em seguida entrou o mesmo antigo cliente (de sempre, minha manager itialiana sempre manda tomar cuidado com ele. “Eu sei disso, Paloma.”) com seus dentes separados; ele vasculha e nunca compra nada; depois entrou um senhor gordo e molhado e comprou um cd que não se vendia mas, se doava, e ele doou uns centavos para algum cachorrinho ou gato da vida;

chovia, chovia, e uma das atendentes da loja se sentiu chuvosa e um pouco deprimida, foi embora mais cedo, “Que será que ela tem?”, se perguntou Paloma.

“Deve ser porque chove mais dentro dela que em qualquer outra parte do mundo agora”,pensou, abafada. Olhou para o relógio, o tempo passa rápido ali (“Olha você se metendo no texto! Agora sou eu quem está dentro dos parêntesis, com letra inclinada..como você fez isso. Acabe com essa brincadeira de mau gosto!”)

Não sei!

Ah, retomandoo meu texto…O tempo passa, tanta gente passa também…Paloma se sente útil, ajudando mais cachorro que gato, pelo menos assim ela pensa, porque prefere cachorro a gato, mas não importa.

Ela quase se esqueceu que entrou um homem volumoso, com cara de arqueólogo ou de professor de ciências e comprou um quadrinho com uma coruja dentro e logo comprou um outro idêntico, com outra coruja triste… “que barato, fenomenal!cinquenta pennies por um quadrinho desses”, e saiu maravilhado, como se acabasse de achar um fóssil.

“Va benne”, disse Paloma, se liberando. Em italiano, porque o inglês não é uma língua pra desabafar, o italiano sim, é idioma anti-stress. (Já chega, não? Ainda tenho que limpar a casa, fazer um jantar legal, ler meus livros…dá pra parar por aqui? Cansei já…Hum…Ok, me ignora que eu gosto…).

“Vá benne”, Paloma diiiisse, então, e chegou a hora de ir pra casa e terminar esse texto; sem doido, mas com chuva, sem cheiro de barata (eu falei mesmo que algumas pessoas cheiram a barata em dias de chuva. Não sei o que há de errado nisso, é uma frase legal. “Está bem,Paloma. Estou feliz porque você voltou pra dentro dos parêntesis. Quem sabe eu encaixo sua `ótima frase` numa próxima história”. Aff…).

E sem cheiro, mas perfumada de idéias, Paloma voltou pra casa. Nem pensou que aquelas pessoas existiam de verdade (pensei sim,juro) como a sujeira na sua cozinha, como a fome que ela sentiu por nao ter almoçado. Nem pensou que todo lugar tem seu doido, que todo mundo guarda uma loucura mansa, domesticada, que ela tem vontade de ser doida também, de comprar roupa de homem, de criança e pedir opinião a alguém no meio da rua. Ela também tem vontade usar guarda-chuva nos dias sem chuva, soltar um grito dentro do cinema, dançar pelada dentro de casa, sei lá, vai saber a cabeça de cada um (você não sabe que me sabe?)… Juro que nem eu mesmo conheço você cem por cento, Paloma. Não posso saber tudo o que você pensa. Não tenho certeza de nada (achei que sim…).Nem saberia dizer se o que acabo de inventar faz menos sentido que citar Shakespeare numa loja onde as pessoas pagam pra ser doido.

RSPCA é uma fundação que ajuda os animaizinhos desse mundo todo.

“The RSPC as charity will, by all lawful means, prevent cruelty, promote kindness to and alleviate suffering of animals”

We need volunteers and donations!

Visitem o site:

http://www.rspca.org.uk/

Una Paloma baila en el aire

October 1st, 2009

Alguém já provou a sensação de poder voar? Como muitas crianças, eu também já vesti minha capa de super herói,ou melhor, um lençol roubado de uma cama grande demais para um corpo infantil. Algum dia desses da minha infância eu tentei voar e saí arrastando um lençol  (como se fosse parte do meu corpo, uma calda longa…) pelo chão do corredor até chegar à sala e encarar o sofá - aquela nave estática instalada no meio do salão enfeitado de criaturas desconhecidas: as mesmas que  apareciam no meu sonho como se continuassem a existir na minha memória, na minha invenção.

Ainda dá tempo de desistir!

Ainda dá tempo de desistir!

Naquele espaço, onde tudo parecia real demais, tinha a tv ligada, o jornal da noite, as notícias que não me atingiam, o telefone, minha mãe preenchida com seu trabalho, com ser mãe, mulher, persona, meu irmão agitado, correndo, a hora de tomar o café, cuzcuz com leite ou carne desfiada… eu até comia, mas parecia uma refeição pesada demais para quem precisava logo, logo voar….

Mas, minha ansiedade havia de digerir, e o meu corpo havia de se adaptar às coisas terrenas…ao sal, ao movimento da casa, o fato de ninguém sequer desconfiar do poder daquele lençol flutuante;ou porque ninguém enxergava as minhas asas aveludadas, minhas pernas de réptil, velozes e àsperas, prontas para saltar no ar e meu instinto domesticado…Não podia me permitir avançar tanto, já me bastava o ar…

Preparavoar!

Preparavoar!

Mas, finalmente sobrava espaço nas minhas entranhas, o passo ficava mais leve. Então, eu subia no topo daquela montanha já nem sentindo vontade de correr; ia caminhando, adestrando o bicho faminto da ansiedade para que o coração se convencesse de que a aventura havia sido adiada. “Fica calmo, coração de lata”, e até parecia nem bater;parecia, sim, um pano amarrado dentro de mim, envolvendo uma semente granulosa - parte de um coração de criança… “o coração da criança está todo no seu sorriso”,alguém que me sussurrou ou ouvi isso em algum lugar? Ou já me sobra memória nesse momento pra tanto voar, tanto bater de pernas, tanto corpo, tanto desafio à gravidade, tanto querer se expandir….

Vai, acontecer, falta pouco. A montanha nem parece tão alta como pensei…E terá alguém à minha espera, o que me deixa tranquila. Porque quando o corpo se jogar e a emoção se desintegrar no ar…quem será testemunha? Porque quando eu voltar do céu, aquele céu que eu sonhei, eu não serei mais a mesma…Eu voltaria uma pessoa descamada…de dentro pra fora, do outro lado; depois que tocasse nas nuvens de porcelana, do que me pertencia antes só restaria o meu nome:paloma, feita de asas…

Que aventura!

Que aventura!

E  quando chegasse o momento e eu desejasse voltar correndo pro chão,onde os meus pés só andaram por pura conveniência, eu saberia dizer, com a cara mastigando uma adrenalina consumida, eu diria com compaixão e um nervoso sabotado: “Hoje eu descobri que todo esforço em manter-me fixa foi em vão”…Não existe nada mais puro e violento que a liberdade de flutuar no ar…eu talvez não possa compartilhar esse segredo com você, mas eu posso voar…“mas,qual é a sensaçao de voar, me diga?” É como sentir o mundo ao revés, eu não saberia explicar, é tão violento que o estômago se contrai e revolve por completo, depois o corpo produz um desejo incontrolável de subir até o mais alto que puder e lá de cima os olhos se surpreendem de nunca terem visto, até então, paisagem igual; até mesmo a forma como vemos as coisas mudam, lá de cima tudo parece pintado com detalhe e desconfio que todos os grandes pintores são aves em segredo. E o vento é tao forte que faz o sorrirso gemer num desespero frio e irradiante.

Todo o rosto se remodela, o sorriso corre por toda a cara (eu mesma o senti no meio da minha testa)… depois de um tempo quando o corpo todo se inverte e se acostuma com toda troca, com a mudança do orgãos, dos sentidos, vem uma sensação plena, um gozo tão duradouro que a gente pensa ser prazer, mas é apenas vibração. Em seguida, vem o pavor de tanto sentir e o corpo inaugura uma calma…Só assim eu poderia explicar o meu nome, e o meu coração enlatado, porque, sim, meu coração também saltou pela boca e se perdeu no ar! Somente assim, você que já tentou voar comigo, meu irmão, vai entender os meus sonhos no meio da noite, o pensamento longe, os meus pés tocando cada vez menos forte no chão, a minha vontade de pássaro…

Voando cada vez mais alto...

Voando cada vez mais alto...

P.S. Eu dedico esse post a Sam, que me deu de presente (aniversário de dois anos) o poder de voar, ou pelo menos o poder de experimentar, por um momento, essa emoçao. Me deu de presente o que pertence a mim, pelo que me identifica: una paloma, como já me disseram tantas vezes, assim como “yo”, nasceu mesmo pra voar…

…e tomar conta do mundo lá de cima…

Todo meu amor.

A cadeira e rostos que passeiam…

September 16th, 2009

Pensando outra vez em retomar minha rotina nesse blog, eu tentei refazer primeiro o espaço ao meu redor. Incrível como pequenas coisas podem se transformar em pedras no meu caminho, deixando-me parada e perplexa. O fato de não ter uma mesa para escrever, por exemplo. Incomodava muito. Horas sentadas no sofá já me custaram uma visita ao médico e muitas dores nas costas no final do dia. Não tinha outro jeito, eu tinha que mudar os objetos da casa, abandonar o sofá peludo e o comodismo em busca daquele espaço guardado nos velhos sonhos de adolescente…

A decisão foi tomada e entramos em ação. Descemos, eu e Sam,nossa rua montanhosa, contornada por casas de jardins encantados, com seus girassóis gigantes que mais parecem de plástico (eu tive que tocar, são enormes), até o final, logo a direita, onde existe uma loja de móveis usados, chamada Trash and Treasures. Na verdade, uma sala com relíquias do passado, e com um dono careca e robusto que, nos dias de sol, costuma sentar num dos sofás expostos no lado de fora e parece feliz, com a cabeça pra cima contemplando o céu, recebendo o calor,como um girassol em movimento.

Compramos uma cadeira usada, na qual agora mesmo estou sentada. De madeira, acolchoada com um tecido bege, cor do passado; é velha, mas resistente. Se tivesse sabor, seria acre ou talvez amarga…e se não fosse apenas um objeto, seria um sentimento ou um desejo; mas, é um pedaço de perna que me sustenta com rigidez, suportando mais que meu corpo o peso dos meus pensamentos.

Tenho um cadeira e uma mesa! É tão absurdamente simples que posso ser chamada sem piedade de estúpida, sem ter mais o que fazer. Não tiro a razão de quem pense assim. Mas, não tem jeito, eu tenho essa mania de levar a sério coisas tão pequenas…

O mais importante é o alívio que sinto depois de digitar essa palavras, dividindo o espaço desse pequeno escritório com Sam, que parece achar graça no meu jeito infantil de demarcar o meu território, e pela ansiedade de espalhar pela mesa as minhas coisas: uma foto minha deitada no topo da Cachoeira da Fumaça, na Chapada Diamantina, calculando com espanto a imensidão de uma queda; uma outra foto dele de perfil, como se fosse um modelo que tivesse posado pra mim; papéis, cadernos, anotações em italiano (voltei a estudar), uma caixinha com a foto da Marilyn Monroe, um estojo rosa, Cora, a minha sapinha de pelúcia viajante, um porta caneta de caju, comprado no Mercado Thales Ferraz, em Aracaju, lembrança dos seis meses passados no Brasil.

elas dividem o mesmo momento...dividirao os mesmo sentimentos?

elas dividem o mesmo momento...dividirão os mesmo sentimentos?

Agora sim posso voltar, posso voltar ao meu sonho…uma casa no meio do nada…uma sala aconchegante e uma mesa ao lado de uma janela, pra de vez em quando descansar o olhar no movimento da vida lá fora, acompanhar a coreografia da natureza, um passo pra lá, outro pra cá no balanço das árvores….e quem sabe apontar um rosto que precisa ser encontrado no meio de uma paisagem grossa, uma mistura de tinta seca formando uma pintura confusa, espalhada no ar…um rosto que, sem saber porquê, segue em frente e sem olhar fixo;um rosto que, através do mínimo gesto, pode colocar todo o corpo em perigo…sem proteção… eu poderia achar nesse rosto o que vejo na natureza: uma paz atropelada por um ar de ansiedade, movimentos delicados e espontâneos, mas repentinamente violentos…um espanto de força, uma melodia cheia de graça,uma resposta imediata…ou um silêncio infinito que parece guardar ruídos de outras espécies…

Bom, a minha vontade nesse post ou nos seguintes, quem sabe, é falar sobre uma das coisas que fazemos quando viajamos.Sam e eu curtimos tirar fotos da cidade, da paisagem, mas também gostamos de tirar fotos de rostos, de pessoas…

Eu tenho fascinação pela vida dos outros…desde pequena sempre adorei observar as outras pessoas. Adoro rostos anônimos…são um mistério sem solução…no momento do flash eles revelam algo, mas nunca se sabe ao certo….nunca vou saber se aquela pessoa é feliz ou se ela já sofreu muito na vida…mas, nas nossas fotos, esses rostos são como bonecos enfeitiçados, dotados subtamente de um desejo incontrolável de viver, mas estão limitados, são rostos cansados, distraídos, capazes tanto de sorrir quanto de amar, mas que só cabem dentro da história que um instantâneo pode revelar…

Era um segredo, algo importante, uma confissao?

Era um segredo, algo importante, uma confissão?

Até a próxima!