Do you speak ou hablas?
Monday, April 27th, 2009Nesse período eu descobri o prazer de aprender uma nova língua. Eu já havia estudado aquele inglês insoso que se ensina no colégio, e queria um novo desafio.
Escolhi aprender espanhol, e não errei. Nas primeiras aulas eu senti a frescura da descoberta das novas palavras, o sentido das novas expressões, a língua fazer malabarismo dentro da boca para dar vida a novos sons que nunca foram verbalizados.
E depois veio o estudo da gramática, até chegar ao ponto onde já dominamos um pouco o idioma e o interesse se estabelece; até chegar o dia em que podemos pôr em prática o idioma no país onde ele é falado e sentir as primeiras palavras sairem pedregosas como se escapassem da boca de um robô interno programado para falar.
A minha primeira tentativa de falar espanhol foi tão constrangedora quanto a situação que me encontrava. Ao passar pelo controle de imigração,recém-chegada à Madrid,eu não podia aguentar as minhas pernas de tanto nervoso, muito menos o pavor de uma paixão desrregulada que eu sentia no peito.
As portas do desembarque se fecharam atrás de mim e não havia ninguém a minha espera, como eu imaginava. Pensei que, tomada por aquela agonia do reencontro,eu podia ter ficado cega ou até mesmo invisível. Mas, não, eu tinha os olhos tão castigados pelas horas sem dormir,e pelo abuso das lentes de contato, que podia ver através do olhar de qualquer outra pessoa que passasse a minha frente.
Resultado que depois de vinte, trinta, cinquenta minutos, eu já havia me contaminado pela falsa ( paciente) raiva dos seres “enamorados”. Me levantei da cadeira,precisava reagir. Demorou um pouco para que tomasse uma atitude.
Apoiada na vantagem que o idioma oferece às pessoas que como eu falam português, eu me localizei facilmente e fui direto ao balcão de “Informaciones”.
Sem desejar cair no famoso portunhol, eu respirei fundo como se precisasse falar algo sério, e diante daquele rosto estranho eu apenas consegui dizer: “teléfono público”…No que a moça me respondeu forte, desse jeito franco como os espanhóis se expressam (que mais adiante eu diria desse jeito bruto mesmo) : sigue todo recto, ya verás a la derecha.
Falar um idioma é um desafio. Até o português mesmo às vezes soa tão selvagem e diferente que parece não ser minha língua materna.
O que mais me interessa no aprendizado de um idioma é que o próprio também se modifica e interage com outras culturas.Os sotaques, para mim, são como personalidades vibrantes que quebram a monotonia da língua.

Há tanta diferença entre o inglês dos cursinhos do Brasil e o inglês que escuto diariamente na província de Yorkshire. Não sei como descrever o sotaque daqui, mas se assim pudesse diria que soa como um alemão adocicado.
Eu melhorei bastante o meu inglês, não há dúvida, mas ainda sinto uma dificuldade de me expressar tão grande que é preciso convocar todas as partes do corpo - numa orquestra de mãos, braços, cabeça- para ajudar-me a através de gestos e sons.
Com um sotaque tão difícil e com a necessidade urgente de entendê-lo,por razões de trabalho, etc, desenvolvi a técnica (não recomendada) da resposta imediata, sim ou não. Mas, o que acontece é que essa resposta rápida às vezes me deixa em situações complicadas.
Uma delas aconteceu no meu mais recente trabalho, na cafeteria. Um casal veio em minha direção fazer o pedido; apontou para uns pãezinhos franceses dispostos numa cesta,na prateleira, e me perguntou algo que decifrei como: é possível “to bake these breads”.
(Pausa para pensar) To bake: cozinhar, assar…
É possível assar esses pães? Sem pensar respondi que sim, sure. Corri pra cozinha, pálida, desejando não ter entendido o que acabava de escutar, desejando também estar numa praia deserta onde alguém pudesse entender quando gritasse por socorro.
Sem ter pra onde fugir perguntei ao “baker”(o padeiro), ele então o responsável pelos desejados pãezinhos;com anos de experiência poderia entender esse desvairado pedido. Era ele quem podia me salvar, o baker, que fala francês e tem um desejo involuntário de aprender espanhol - nas poucas aulas que lhe dei, me escreveu algumas mensagens num espanhol simples, mas tão sincero, que parecia tentar me enganar quando dizia que nunca tinha estudado o idioma.
Pois sim, ele, o “padeiro”, não sabia o que dizer;como fazer um pão que já está feito? Eles querem “to bake those breads” ?Sim, os mesmos pãezinhos que temos outside. Seria eu tão estúpida para não entender esse pedido, pensei, ou talvez se tratasse de clientes muito especiais, em busca de uma nova experiência, não tão profunda quanto a que eu experimento com a linguagem; queriam um meta-pão, o pão dentro do outro…A confusão estava feita.
Se por um lado eu tenho esse desapego de falar um idioma estanho como se fosse meu,por outro, eu tenho a timidez - que é a raíz que vai de encontro a minha origem - que me impede de falar com mais desenvoltura.
Sem outra saída, eu retornei mais uma vez à mesa do casal e lhes perguntei pela segunda vez, já sem a mesma valentia de antes, se eles desejariam, por exemplo, geléia de damasco ou morango para passar nos benditos pães (que naquele momento mal sabiam que destino iam tomar).
Eles me olharam assustados, como se eu falasse num outro dialeto, e me disseram que apenas haviam pedido pão e bacon. E que bacon e geléia não combinam.E riram, fingindo ser complacentes.
Meus ouvidos reagiram ao som de uma palavra que nao haviam detectado antes: era bacon, ba-con! Esse fatia de gordura que os ingleses, assim como os americanos, comem no café da manhã, acompanhado de molho de tomate, feijão (doce e enlatado) e ovos!
Entre um sim e um não,já aconteceu de no mesmo ambiente de trabalho me perguntarem se havia algum banheiro e eu sem pensar disse não (como se meu cérebro demorasse a decifrar), mas segundos depois disse sim.
Ou quando um conhecido cliente me perguntou se tínhamos um banquinho, mas por ter entendido que queria um“canudo”, eu disse não. Em seguida, percebi que a filha dele continuava em pé (e ao meu redor todas as cadeiras estavam ocupadas) e deduzi que o que precisavam mesmo era de um assento: Yes, we´ve got it!
Entre um sim e não eu vou colecionando histórias. Um americano instalado em Barcelona e lutando para entender o espanhol apressado que ali se fala, é um claro exemplo de que mais importante que entender uma língua é mostrar simpatia por ela. Não no sentido exato da frase. Mas, como dizia ele, quando conversar com alguém, sorria sempre. Especialmente quando não tiver nenhuma pista sobre o que a pessoa está falando…






