Archive for April, 2009

Do you speak ou hablas?

Monday, April 27th, 2009

   Nesse período eu descobri o prazer de aprender uma nova língua. Eu já havia estudado aquele inglês insoso que se ensina no colégio, e queria um novo desafio.

   Escolhi aprender espanhol, e não errei. Nas primeiras aulas eu senti a frescura da descoberta das novas palavras, o sentido das novas expressões, a língua fazer malabarismo dentro da boca para dar vida a novos sons que nunca foram verbalizados.

   E depois veio o estudo da gramática, até chegar ao ponto onde já dominamos um pouco o idioma e o interesse se estabelece; até chegar o dia em que podemos pôr em prática o idioma no país onde ele é falado e sentir as primeiras palavras sairem pedregosas como se escapassem da boca de um robô interno programado para falar.

   A minha primeira tentativa de falar espanhol foi tão constrangedora quanto a situação que me encontrava. Ao passar pelo controle de imigração,recém-chegada à Madrid,eu não podia aguentar as minhas pernas de tanto nervoso, muito menos o pavor de uma paixão desrregulada que eu sentia no peito.

   As portas do desembarque se fecharam atrás de mim e não havia ninguém a minha espera, como eu imaginava. Pensei que, tomada por aquela agonia do reencontro,eu podia ter ficado cega ou até mesmo invisível. Mas, não, eu tinha os olhos tão castigados pelas horas sem dormir,e pelo abuso das lentes de contato, que podia ver através do olhar de qualquer outra pessoa que passasse a minha frente.

   Resultado que depois de vinte, trinta, cinquenta minutos, eu já havia me contaminado pela falsa  ( paciente) raiva dos seres “enamorados”. Me levantei da cadeira,precisava reagir. Demorou um pouco para que tomasse uma atitude.

   Apoiada  na vantagem  que o idioma oferece às pessoas que como eu falam português, eu me localizei facilmente e fui direto ao balcão de “Informaciones”.

   Sem desejar cair no famoso portunhol, eu respirei fundo como se precisasse falar algo sério, e diante daquele rosto estranho eu apenas consegui dizer: “teléfono público”…No que a moça me respondeu forte, desse jeito franco como os espanhóis se expressam (que mais adiante eu diria desse jeito bruto mesmo) : sigue todo recto, ya verás a la derecha.

   Falar um idioma é um desafio. Até o português mesmo às vezes soa tão selvagem e diferente que parece não ser minha língua materna.

   O que mais me interessa no aprendizado de um idioma é que o próprio também se modifica e interage com outras culturas.Os sotaques, para mim, são como personalidades vibrantes que quebram a monotonia da língua.

travel

   Há tanta diferença entre o inglês dos cursinhos do Brasil e o inglês que escuto diariamente na província de Yorkshire. Não sei como descrever o sotaque daqui, mas se assim pudesse diria que soa como um alemão adocicado.

   Eu melhorei bastante o meu inglês, não há dúvida, mas ainda sinto uma dificuldade de me expressar tão grande que  é preciso convocar todas as partes do corpo - numa orquestra de mãos, braços, cabeça-  para ajudar-me a através de gestos e sons.

   Com um sotaque tão difícil e com a necessidade urgente de entendê-lo,por razões de trabalho, etc, desenvolvi a técnica (não recomendada) da resposta imediata, sim ou não.  Mas, o que acontece é que essa resposta rápida às vezes me deixa em situações complicadas.

   Uma delas aconteceu no meu mais recente trabalho, na cafeteria. Um casal veio em minha direção fazer o pedido; apontou para uns pãezinhos franceses dispostos numa cesta,na prateleira,  e me perguntou algo que decifrei como: é possível “to bake these breads”.

                   (Pausa para pensar) To bake: cozinhar, assar…

   É possível assar esses pães? Sem pensar respondi que sim, sure. Corri pra cozinha, pálida, desejando não ter entendido o que acabava de escutar, desejando também estar numa praia deserta onde alguém pudesse entender quando gritasse por socorro.

   Sem ter pra onde fugir perguntei ao “baker”(o padeiro), ele então o responsável pelos desejados pãezinhos;com anos de experiência poderia entender esse desvairado pedido. Era ele quem podia me salvar, o baker, que fala francês e tem um desejo involuntário de aprender espanhol -  nas poucas aulas que lhe dei, me escreveu algumas mensagens num espanhol simples, mas tão sincero, que parecia tentar me enganar quando dizia que nunca tinha estudado o idioma.

    Pois sim, ele, o “padeiro”, não sabia o que dizer;como fazer um pão que já está feito? Eles querem “to bake those breads” ?Sim, os mesmos pãezinhos que temos outside. Seria eu tão estúpida para não entender esse pedido, pensei, ou talvez se tratasse de clientes muito especiais, em busca de uma nova experiência, não tão profunda quanto a que eu experimento com a linguagem; queriam um meta-pão, o pão dentro do outro…A confusão estava feita.

   Se por um lado eu tenho esse desapego de falar um idioma estanho como se fosse meu,por outro, eu tenho a timidez -  que é a raíz que vai de encontro a minha origem - que me impede de falar com mais desenvoltura.

   Sem outra saída, eu retornei mais uma vez à mesa do casal e lhes perguntei pela segunda vez, já sem a mesma valentia de antes, se eles desejariam, por exemplo, geléia de damasco ou morango para passar nos benditos pães (que naquele momento mal sabiam que destino iam tomar).

   Eles me olharam assustados, como se eu falasse num outro dialeto, e me disseram que apenas haviam pedido pão e bacon. E que bacon e geléia não combinam.E riram, fingindo ser complacentes.

   Meus ouvidos reagiram ao som de uma palavra que nao haviam detectado antes: era bacon, ba-con! Esse fatia de gordura que os ingleses, assim como os americanos, comem no café da manhã, acompanhado de molho de tomate, feijão (doce e enlatado) e  ovos!

   Entre um sim e um não,já aconteceu de no mesmo ambiente de trabalho me perguntarem se havia algum banheiro e eu sem pensar disse não (como se meu cérebro demorasse a decifrar), mas segundos depois disse sim.

   Ou quando um conhecido cliente me perguntou se tínhamos um banquinho, mas por ter entendido que queria um“canudo”, eu disse não. Em seguida, percebi que a filha dele continuava em pé (e ao meu redor todas as cadeiras estavam ocupadas)  e deduzi que o que precisavam mesmo era de um assento: Yes, we´ve got it! 

   Entre um sim e não eu vou colecionando histórias. Um americano instalado em Barcelona e lutando para entender o espanhol apressado que ali se fala, é um claro exemplo de que mais importante que entender uma língua é mostrar simpatia por ela. Não no sentido exato da frase. Mas, como dizia ele, quando conversar com alguém, sorria sempre. Especialmente quando não tiver nenhuma pista sobre o que a pessoa  está falando…

Eu, palavra…

Friday, April 24th, 2009

   Quando eu estudava comunicação e lia com afinidade os meus autores preferidos, eu tinha quase certeza de que o meu interesse pelas letras era uma espécie de gostar por determinação do espírito, não por vontade própria.

   Já existia ali o meu interesse em buscar uma forma de esclarecimento através das palavras quando, aos 15 anos, abri um desses guias de profissões e levei meu dedo até a palavra jornalismo, deixando escapar uma forte emoção ao ler a minha escolha em voz alta.

   Mas, existia algo mais profundo que o interesse em retratar o cotidiano ou expressar minhas opiniões. Eu tinha que ser sincera comigo mesma. Não seria então a escolha de uma carreira, mas de uma forma de narrar a minha própria história. E porque não a dos outros também.

   O jornalismo amadurece diariamente, com o cotidiano, com o fluxo dos acontecimentos, e para existir, necessita  de um ritmo de produção constante. Mas, como jornalista (diga-se diplomada,já que corremos o risco de nos tornar espécies em extinção) porém sem trabalho, as coisas se invertem.

   Os dias não parecem os mesmos. O mundo continua produzindo notícias diárias, a economia muda, as pessoas morrem.Mas, a sensação que eu tenho é que “tomar conta desse mundo” carece de uma energia (e entusiasmo) que a maioria dos jornalistas não possue hoje em dia. 

   Mas,eu talvez não seja a pessoa mais adequada para falar sobre isso. No entanto, ao fazer jornalismo eu abraçava outra propriedade da profissão: a linguagem. E sendo jornalista eu talvez pudesse ser escritora. Cheguei a tentar cursar letras, mas no final acabei fazendo uma pós-graduação em literatura.

escrevendo

   Quando toquei na parte árida da linguística eu senti que talvez sendo escritora eu pudesse entender o que boa parte do mundo parece não entender: como comunicar-se, de que forma,etc. Parece estranho, mas quando escrevo é quando mais me aproximo dos outros, de mim mesma.

   E a essa altura da minha vida só encontrei uma prova de comunhão perfeita de palavras com uma amiga muito querida, que já dividiu comigo todo esse poder da linguagem – pensamento, através de poemas que construímos juntas, ou da invenção de uma peça de teatro,onde a loucura ganhou forma e nos mateve lúcidas para enfrentar o cotidiano de pré-vestibulandas; ou de um jornal que nasceu, nada mais que dizer, da indignação tão pura e sincera (que ainda hoje tento buscá-la dentro de mim, em certos momentos), pelo fim de uma revista que não precisava de um outro nome, se chamava Palavra.

   Logo mais eu desenvolvi o hábito de não querer me comunicar sem esse requisito,“envolvimento”. E talvez nessa época eu tenha deixado muitas pessoas confusas, querendo me ajudar ou entender o que eu sentia. Mas não tinha jeito, era mais forte que essas paixões que nos atacam desprevenidos.    

   Não tinha sossego no meu coração, eu não podia ser tão óbvia e não havia quem pudesse arrancar de mim um esclarecimento. Eu não falava, escrevia, mas diziam que aquelas palavras não tinha sentido, que eram (muy) formal, que era uma decisão de não- se-comunicar, apenas.

   Eu não me surpreendo agora depois de abrir o livro da minha memória, e rever esse passado silencioso, essa pedra na palavra. Mas, como deve acontecer com toda a pessoa que escreve (ou tenta, no meu caso), eu só busco exorcizar o demônio de um tema e curar minhas obsessões em torno do próprio exercício da palavra. 

(obs: preciso aprender a escrever menos nesse blog…por minha vontade, o texto não acabaria aqui,mas haja paciência para ler tanta coisa…amanhã segue mais)

Dias de crise…

Friday, April 17th, 2009

   Meses atrás, na casa de uma amiga, em Barcelona, conversamos sobre a crise que se instalou na Europa, no final do ano passado e que perdura até agora. Segundo ela, a  crise não passava de especulação. “As pessoas continuam comprando como antes, se divertindo e gastando dinheiro como sempre”. O assunto nao rendeu muito; primeiro porque era véspera de ano novo -  e em dias assim só se fala em dinheiro se for pra pedir, com pé direito, um aumento na conta bancária para o próximo ano; segundo, porque por alguma deficiência no meu caráter eu normalmente nao alimento esses debates calorosos  por muito tempo.

   A conversa morreu aí, já que estávamos mais interessados em abrir a champanhe na terraça do sexto andar e nos despedir do ano velho.

   Dias depois voltei à Inglaterra e, como para qualquer pessoa normal, seria como retornar à rotina depois de uns dias de festa. Mas, desde que cheguei aqui, em setembro do ano passado, eu me pergunto: então, qual é a minha rotina? As pessoas se levantam todos os dias para trabalhar, fazem ginástica, cuidam dos filhos, preparam o jantar, assistem a um programa na tv e dormem. Mas, qual é a rotina para uma pessoa desempregada, com tempo livre, mas sem inclinação para o ócio criativo, com planos para realizar, mas sem dinheiro pra dividir a conta do gás?

   Os primeiros meses foram desesperadores. Eu cheguei no auge da crise, ou da especulação, e a  verdade é que vi grandes lojas fecharem, os preços dos alimentos duplicarem no super-mercado e muita gente como eu procurando arduamente um trabalho.

   Três meses de busca, e nenhuma esperança. Cheguei a distribuir quinze currículos nas mais diferentes lojas num único dia (uma delas, super estranha, aprensentava na vitrine um desfile horrendo de bonecas semelhantes a recém-nascidos, estáticas, como se fossem secretamente de verdade. A dona, ou a “manager”, recebeu meu currículo, me olhou de cima a baixo, e me ofereceu um sorrisinho falso, que saltou da sua boca vermelha, como se nao fizesse parte daquele rosto carregado de maquiagem). Não tive nenhuma resposta.

   Conversei com colegas das aulas de inglês. Alguns já seguiam trabalhando por algum tempo, a maioria em restaurantes, mas outros ainda estavam desempregrados.

   E o que me deixava mais apavorada é que muitos deles eram europeus – ou seja, sem nenhuma restrição pra trabalhar, a não ser a dificuldade de falar o idioma. Diferente deles, eu apresentava uma desvantagem preocupante. Imigrante (palavra mais chata), com visto de estudante e limitada a trabalhar apenas 4 horas por dia, num total de 20 horas semanais, eu via minhas chances cada vez menores…

   Outro dia conversei com uma espanhola, que mora aqui há um ano e meio – mas que mantém o coração firme em algum canto de Madri-  e batalhou como qualquer outra pessoa de nacionalidade nao européia para conseguir um emprego. Depois de quatro meses de busca, aceitou limpar quartos de um famoso business hotel, em Leeds.

   Hoje ela é supervisora, tem um salário razoável, e uma gastrite que lhe obrigou,por conselhos médicos, a desistir  do cafezinho e cigarro e do curry picante – que aqui na Inglaterra é tão popular quanto nosso feijão com arroz.

   Não preciso mencionar que o meu desespero já estava em ebulição, e eu nao via uma saída. Tentei até trabalho voluntário, como fotógrafa em uma clínica, mas recebi uma fomal resposta negativa, dizendo que no momento não havia vaga.

   Em dezembro, através de uma colega peruana, consegui um emprego numa cafeteria francesa. Finalmente, minha primeira entevista de trabalho! Aceitei a oferta na hora, apesar de que eles só necessitavam alguém para os finais de semana.

   Tinha esperança de que nos próximos meses as coisas melhorariam e eu encontraria um trabalho que ocupasse as minhas tardes livres. Que ironia. Sentada nesse sofá, eu já vi minhas tardes se esvaírem profundamente no cinza dos dias de chuva, vi minhas horas escaparem tão rapidamente quanto a luz do dia, no inverno.

   Mas,como a estação, algo também mudou na minha vida. Os meus dias não apenas são mais longos, como são mais leves e esperançosos…Agora, dou aula de português, uma vez por semana, a um casal de ingleses. Porém, as aulas terminam em junho e preciso saber o que fazer a partir daí.

   No entanto, a vida continua; sem a rotina que cada um de nós deseja. Não aquela rotina absurda a que todos temem, o tédio. Eu queria apenas a consecução dos dias seguros. Poder saber que amanha eu vou trabalhar e depois de amanha também.

   Se por algum momento eu tive dúvida dessa crise…eu tentei não acreditar no pessimismo da mídia, no ceticismo dos políticos, na análise dos especialistas…Mas, o estilo de vida mudou, sem dúvida. Hoje fazemos compras no mercado (ou na feira), não vamos jantar fora com tanta frequência, e os programas de finais de semana ficaram reduzidos a um filmezinho - mas,com direito a um vinho, pelo menos. 

Vivendo a crise…

Friday, April 17th, 2009

como dizem os ingleses:juntar para os dias de chuva...

RainyDaySavings- Hoje à tarde eu saí numa dessas buscas abstratas por algumas lojas. Percebi que acho tudo caro. Mais de dez libras numa blusa parece um capricho desnecessário. O preço do queijo parmesão ofende! E o meu dinheiro é vendaval, vendaval…

   Então, nessas caminhadas pelas lojas -que é uma espécie de tortura para qualquer mulher sem dinheiro - entre vitrines e manequins antecipando a chegada de dias mais quentes,acabei entrando numa loja de produtos baratos para casa, com a decisão sensata de comprar apenas o necessário.

   Porque numa casa sempre falta alguma coisa, claro. Precisava de um vaso ou algo parecido para colocar espagueti. Andei tranquilamente pelas seçoes (mais de dez), vaguei, falei sozinha, e nada, não encontrei o tal produto. Entre uma seção e outra, encontrei o que não buscava: porta-retratos. E lembrei que não tínhamos nenhum em casa.

   Comprei quatro. No primeiro andar encontrei também esses cofres de porquinho. E não pensei duas vezes. Se existe algo que combina com momentos de crise, é juntar dinheiro. Comprei o mais bonitinho, com a frase “holiday savings” (dinheiro para férias).

   Na hora de pagar, a funcionária me perguntou se eu queria uma bolsa de plástico, mas eu, tentando salvar o planeta disse que não, obrigada (É quase uma questão moral, aceitar ou não aceitar uma bolsa plástica. Em casa, temos as nossas próprias sacolas de compras, para justamente não utilizar as das lojas – que muitas vezes cobram alguns centavos por ela) e coloquei o porquinho na minha bolsa junto com as outras compras.

   Cheguei em casa ansiosa para fazer era o primeiro depósito (de uma libra!). Peguei o cofrinho na bolsa e por um lance de segundos, ele escapou das minhas mãos e se partiu em três pedaços.

   Sentei no sofá, respirei fundo e gritei. O que há de errado comigo? Qualquer mulher desesperada, com o período menstrual se aproximando, faria a mesma pergunta - não sei se diante de de um cofre de porquinho disfarçado de turista, despedaçado.

   Então, como acontece em sequência nesses momentos delicados de tpm, crise, etc,eu chorei. Por um minuto. Depois, decidi comprar outro, porque era injusto não ter sequer inaugurado o meu cofre!

   Retornei à loja, fui direto à seção dos cofres. Nao achei o mesmo porquinho de antes, o que me tomou alguns minutos decidindo qual outro escolher..Uma vez escolhido, fui ao caixa. A funcionária – que  em menos de vinte minutos já tinha me visto  entrar e sair da loja umas três vezes- olhou para o porquinho e para mim como se perguntasse a si mesma quanto dinheiro eu teria para juntar.

   Dessa vez, não me ofereceu uma bolsa. Agarrei meu porquinho com firmeza. E voltei correndo pra casa, mas com cuidado para não tropeçar. Imagina que se quebra?! E eis que o porquinho aqui se encontra,à mesa, olhando para mim. E eu nao tenho nem mais um centavo para depositar nele! No final do dia, chego a conclusão que pior que uma crise econômica é a crise velada de uma mulher.

O que faltou…

Friday, April 10th, 2009

   Pois é. Sempre me encantou viajar, no pensamento, nas histórias, nos livros, na vida das outras pessoas. Estou sempre preparando a minha bagagem, seja para sonhar, seja apenas para pegar o próximo trem.

   Eu me arrependo do tempo que morei na Espanha e nao escrevi nenhuma linha sobre essa experiência e agora fico tentando lembrar de tudo. Porque nao permiti que esse devaneio se concretizasse.

   Mas, por sorte, meu coraçao é sensível às fortes emoçoes e nao resiste à nostalgia; tenho forte na memória alguns momentos da minha vida, como logo quando cheguei em Barcelona, em 2006. E como se cantasse “é que quando cheguei por aqui eu nada entendi”, eu começo a entender muito do que sou agora…Mas, nesse relato nao quero estar restrita ao tempo. O passado ficou perdido nas ruas de Barcelona, de Madrid…e nesses lugares - os rincoes, as esquinas, os cheiros – pertencem a mim, de certa forma…

   Uma coisa era certa, eu fui à Barcelona, com destino a Madri. Como no filme de Almodóvar, Todo sobre mi madre, eu vivi um vai-e-vem cansativo e pleno de emoçoes, entre Barcelona – Madrid, até que, após um ano, me mudei definitivamente para a capital espanhola.

   Existe um sentimento obscuro quando me refiro e penso sobre a minha vida em Barcelona. Sendo sincera, eu sinto um pouco de tristeza. Porque as coisas nao deram certo, porque tive que aprender tudo na marra, porque chorei tanto, porque levei tanto tapa na cara pra aprender coisas tao simples…

   Por isso, Barcelona é esse sentimento confuso, é um passado indeciso e carente de explicaçao. Eu apenas vivi, esse é o problema. Quando sofro, nao quero entender. Apenas vivo. Mas, enfim, dando um passo largo nessa etapa da minha vida, eu tive a oportunidade de viver em Madri,cidade que amo, cidade que me acolheu, que me deu oportunidade de ter um trabalho decente, de fazer boas amizades, de conhecer uma pessoa maravilhosa que acompanhou o ritmo dos meus sonhos e agora compartilha comigo uma vida…

capucino1

   Foi num instante atrás quando olhei uma foto no nosso mural, que resolvi escrever sobre isso. A foto é das mais simples e clichês, talvez. Um capuccino, deliciosamente cremoso e vibrante; em cima do creme,o desenho de uma nota musical polvilhado com chocalate.Ao lado, uma torta de chocolate que me faz ter vontade de correr pra doceria mais próxima. Essa foto foi de uma viagem que fiz a Barcelona, já morando em Madrid, com Sam.

   Foi a primeira vez que fomos a cidade catalana juntos. Eu tive medo do que poderia sentir, tinha sentimentos recentes  rondando minha alma, mas isso nao é assunto para agora…Mas,enfim, essa foto me fez lembrar de coisas tao simples e gostosas que fazemos quando viajamos.

   Eu por exemplo, adoro acordar numa manha ensolarada, caminhar em busca de um lugar onde se possa tomar um bom café, grande, com leite.E depois tomar um café da manha que dê energia pra seguir caminhando nas próximas cinco horas…

   Outra coisa boa, é provar a comida…todos os sabores, todas os produtos…Eu também gosto de caminhar muito, às vezes excessivamente…e sem parar…como se participasse de uma maratona turística…

   Todo mundo gosta de viajar, pelo menos é o que todo mundo diz. Cada pessoa tem uma maneira de perceber o lugar e de visitar. O lugar também faz o turista. Mas, nao é só isso. Eu gosto de seguir o meu ritimo. Odeio grupos de viagens, odeio excursoes. Eu prefiro caminhar, encontrar os detalhes, ver como as pessoas se vestem, que comem, etc…meu turismo, é um turismo sem pressa…claro que como acontece muitas vezes, nao dá tempo de ver tudo o que quero…Mas, enfim, sempre deixo cada lugar com a esperança de voltar mais vezes, talvez sozinha, talvez com pessoas queridas…

   Agora mesmo, o meu sonho é poder ter minha família aqui e poder viajar com eles…mostrar um pouco de tudo que já vi e venho guardando para contar…

 

Entre tantos mares eu encontrei um perfeito, em San Sebastian, Espanha.

Entre tantos mares eu encontrei um perfeito, em San Sebastian, Espanha.

   Nada entao mais emblemático hoje que esse capuccino. Eu sei exatamente o lugar onde o tomamos. Foi ao lado da praia. Era um dia de sol, de temperatura agradabilíssima e eu me sentia livre do medo de viver Barcelona.

   Ainda estávamos nos conhecendo, mas compartilhar um hobby com alguém é uma forma de se aproximar…Entao eu decidi que fôssemos compartilhar uma vista única: o mar; que em Barcelona tem um ar meio artificial. Mas, a verdade é que nao se pode violar a veracidade de um azul estonteante.

   O que torna especial esse ato de contemplar é o fato de que na praia de Barcelona, alguém com esse mesmo sentimento, teve a ideia de construir cadeiras inclinadas, em direçao ao mar, como um desejo explícito de contemplaçao.

   A primeira vez que vi, pensei, encantada. “Entao, sao cadeiras especiais, porque ali ninguém se senta para tomar sol”. Talvez porque uma vez ali, o apelo do mar consome toda a energia do corpo.

   Por isso,observei que as pessoas sempre permanecem em silêncio, mesmo quando acompanhadas. Nunca lendo ou fazendo outra coisa que observar. E assim fizemos. Nos sentamos, dispostos a essa doaçao.

  Tirei uma foto de Sam, com um olho fechado, e a fisionomia um pouco endurecida, sentindo o sol tapear o seu rosto de leve. Minhas pernas estavam apoiadas na sua cadeira, deixando-me assim numa posiçao mais confortável.

   Nos conhecíamos mais. Pouco a pouco aprofundando, eu podia ver nos seus olhos. E nao é que o mar me desinteressasse, mas, naquele dia, era como se eu voltasse a nadar no mesmo mar dos meus sonhos, fundo, para encontrar esse amor. 

 

Viajando eu aprendi (parte 1)

Wednesday, April 8th, 2009

Viajar é um das  coisas que mais gosto de fazer na vida. Nao importa para onde, pode ser para a cidade mais próxima ou apenas para visitar alguém distante.Minha mae já aprendeu a reconhecer esse sintoma de felicidade através da minha voz. Quando nos falamos pelo telefone, ela já sente. ” Está feliz porque vai viajar, nao é?” Sim,sim, sim! Nunca tinha parado pra pensar, mas é verdade. Das lembranças mais marcantes que tenho da minha infância, as poucas viagens que fizemos em familia refletem uma forte nostalgia que causa um reboliço no meu mundo interno.

Lembro-me das férias na fazenda, em Matapua. Todos os primos iam juntos na pampa vermelha da tia Lygia e tio Clélio, disputando em pé o melhor espaço, o qual nos permitia ver a paisagem dar uma volta de 360 graus a nossa frente.

Posso sentir o cheiro de leite fresco, retirado da vaca, o aroma do cuscuz quentinho e a mistura de sabores, cores, e palavras à mesa. Todos os primos reunidos, crianças, cumprindo a obrigaçao de serem felizes.

Eu já dava os primeiros sinais de minha personalidade sonhadora e desantenta. Sempre derrubava o leite,o  açúcar nunca ia direto para xícara… “desastrada, desastrada! Todos gritavam. E eu nao me incomodava, ou talvez fingia nao me incomodar, mas ria. E rio até hoje. Porque de uma certa maneira é isso o que me caracteriza. E foi tropeçando, às vezes, literalmente, que cheguei onde estou. Ainda lembro vivamente dos passeios a cavalo, das noites jogando “burro”, cheiro de mato, do tempo que nao acabava nunca. E como era bom nao entender a ficçao dos adultos…

           pulo-mar1

 

   Outra coisa que me vem à cabeça  sao os dias de praia, de sol latejando na memória, dos dias longos, dias de férias, de um lugar onde era possível correr pela areia, jogar o corpo no mar, entregar o sorriso ao céu e mergulhar num mar que nao acabava,nao acabava nunca.

   Lembro-me claramente, apesar de que tinha cinco anos mais ou menos, das madrugadas que íamos a Pirambu. Ainda dormindo, era carregada no colo até o carro. E quando chegávamos, o dia já tinha amanhecido e era como sentir essa predisposiçao para ser feliz.

   Por falar em praia, para mim nao há melhor terapia que vigiar o mar, com aquele olhar profundo, de agradecimento. Sempre gostei da paz que existe no olhar de cada observador, na praia. Quem observa o mar parece entender um pouco mais de si mesmo. É um silêncio inspirador.

  Nos meus meses de solidao morando sozinha num apartamento em Salvador, era na praia onde encontrava meu refúgio. Costumava passar um bom tempo sentada, a um certa distância, comtemplando, sentindo os meus olhos salgados, sabor de percepçao.

  Depois,  como se saísse de uma sessao de relaxamento, eu voltava para casa mais renovada que se tivesse dado um mergulho no mar. Tao prazeroso me parece esse exercício que até terapia já fiz na praia, com um colega do curso de pos-graduaçao em letras, psiquiatra e ser humano compulsivo.

  Sentados e sentindo o frescor dos minutos, ele me fez nadar, nadar, o mais profundo que pudesse e o mais distante possível, até que encontrasse os meus medos, e pudesse afogar o meu instinto auto-depressivo. Agora deu vontade de rir. Mas, naquele momento foi tao importante que eu me desconheci.  

  Depois que nos despedimos,eu cruzei a avenida correndo, ofegante, e fui direto para o meu apartamento, no terceiro andar, na praia de Ondina. E nesse dia escrevi uma carta, a um sortudo destinatário, porque eu era a remetente dos sentimentos mais puros e dignos. Eu sentia em cada poro essa determinaçao a la amelie poulain, de espalhar alegria e comungar bons sentimentos. “Os meus olhos prometem felicidade”, eu repetia…e desde entao, o sentido de promessa nunca mais foi o mesmo.

 

Pessoas, lugares, experiências

Tuesday, April 7th, 2009

  Agora o meu novo desafio é ensinar um casal inglês a falar português.   Comecei a dar aulas hás tres semanas e estou desfrutando dessa nova experiência. Depois falo mais about it. Eu nao sabia que poderia falar sobre tantas coisas,pequenas coisas…
  Como já falei, eu moro na Inglaterra. Mais que isso eu sinto, analiso, reajo…mas, tem algo nesse país, tem algum mistério…tudo parece homogêneo: as casas, as ruas,sao iguais em toda parte, mas de repente detrás de uma rua, existe um imenso espaço verde aberto e a paisagem muda, o olhar se refresca. Inglaterra e seu countryside, sua floresta escondida, seu segredo, sua particularidade…só dá pra entender tudo isso vivendo…

countryside

O tempo…

Tuesday, April 7th, 2009

    Hoje é segunda-feira! E venta bastante…como nunca vi ventar em toda minha vida…A Inglaterra é o país com mais forte vento da Europa. Humm, interssante, nao?

  Agora voltando ao passado…Escrevi isso logo quando cheguei aqui,há seis meses, na Inglaterra. O conteúdo é familiar, mas paciência….
  Já tive varias oportunidades de iniciar um blog. Mas, sempre acabava desistindo. Afinal, o que há de tao importante no mundo que já nao tenha sido dito por outra pessoa?
  Eu costumava escrever com mais frequência. Na verdade eu achava que estava predestinada a escrever. Era isso que me faria feliz, mesmo que eu nao encontrasse mais adiante o meu caminho. Mas, eu deixei no ar algunas das últimas palavras… Parei, abandonei a escrita, viajei, mudei de vida.
  Dois anos na Espanha me afastaram completamente da profissao que escolhi aos quinze anos de idade e jurei ser a fonte de prazer e auto-satisfaçao. Suave era o sonho. Entao eu poderia viver disso, escrever, ler. Suena interesante, no? Linguagem creativa, ideias, liberdade de expressao…a gente encontra isso mesmo no jornalismo? Pois é. Logo essa ideia de felicidade foi embrulhada com o jornal do dia anterior. Há três anos eu nao cumpro a pauta do dia, eu nao formulo perguntas ao entrevistado, eu nao uso o lead.      
  Pelo contrário. Eu nao leio jornal regularmente, eu nao asisto ao noticiário na tv, eu nao escrevo um diário. Que espécie de jornalista sou eu? Ainda nao sei que dizer a respeito.
  Eu já fiz de tudo um pouco nesses últimos anos; já lavei chao, ja vendi sanduíche, já trabalhei como professora de espanhol, já tive as mais frustrantes oportunidades de emprego, como por exemplo vender um pacote com Internet e telefone de porta em porta. Mas, também já tive experiências gratificantes, como poder ensinar alguém a fazer algo tao simples como aprender a usar o mouse ou ligar o computador. Afinal, o que fazemos da vida senao tentar resgatar diariamente a sensaçao de felicidade. E porque nos sentimos feliz quando fazemos o que  gostamos, é que podemos  nos dar o luxo de buscá-la incesantente. Até que se  descubra que o buscamos mesmo é (palavra) a verdade.

 

  
  Hoje   eu moro em Leeds, na Inglaterra.
  Há um mês moro com meu namorado numa casa no mais puro estilo inglês, a cottage house. 
  Faz frio, Chove muito. O tempo na Inglaterra é quase um clichê. Todo dia alguém comenta algo sobre o tempo e eu adquiri o hábito de apreciar cada momento de um dia de sol - um “such gorgeous day” nao pode ser desperdicado, porque nao.
  Estou também  estudando inglês numa escola.Tenho em maos o objetivo de aprender perfeitamente a falar e escrever inglês em um ano. É um prazo razoável. Será? Enquanto isso concentro toda minha força intelectual para tentar entender o sotaque seco e forte da regiao do WestYorkshire, aprendo a gostar da comida, a me enriquecer culturalmente.
  Há pouco descobri que viver uma outra cultura, aprender uma nova língua, é o tipo de desafio que eu gosto de verdade. Agora é isso o que me interessa. Conhecer o mundo, conhecer as pessoas. Essa minha necessidade soa tao clichê quanto o tempo. 
   Agora parece que minha vida comeca do zero.
  Enquanto me arrumava um sábado à noite para encontrar alguns amigos, Sam registrava o nosso cotidiano. Detalles da nossa vida. Tudo parece tao novo que às vezes me assusto. Também sinto estrear mais que uma nova vida, novos sentimentos. Em menos de um ano, eu voltei para o  Brasil, depois de dois anos seguidos na Espanha, passei seis meses em casa recuperando o tempo que passei fora, e agora estou eu morando na Inglaterra.
   Todos os dias eu penso como seria minha vida se eu estivesse no Brasil, se eu nao tivesse atravessado o oceano há quase três anos. Como seria? Estou fazendo meu cabelo, Sam continua tirando fotos. Talvez ele nao saiba, mas sempre quis alguém que pudesse registrar esses pequenos momentos. Sem pedir. Sem pensar. Ele sabe que no íntimo cada gesto busca uma semelhança no passado. Para depois a gente poder contar histórias. É como se escrevêssemos um livro de imagens. Entao, se eu pudesse captar os detalles dessa nova vida, eu teria que pensar em cores e formatos. Sao detalles, sao clichês. “Coloque essa foto. É um começo. É você.”
  Que alívio. Sou eu mesma, nao preciso representar, nem camuflar. Sou assim, sempre. Essa cara meio inexpressiva, essa escrita confusa que mais vagueia que descreve. Sao como palavras que voam. É um recomeço. Nova vida, voltar a escrever, e nao precisa ser nada sério. Pela primeira vez nao preciso ser sério.
  É um bom começo, porque tenho um sorriso e alguma resposta no meu olhar. Adoro os detalles e agora penso como é bom ter uma pausa para pensar sobre isso. Mas, ainda é segunda-feira, das mais escuras que já vi.     Hoje eu fiz uma esforço enorme para me levantar da cama. Desejei ser criança para chorar e dizer: nao quero ir pra aula. Porque faz frio.
  Eu pergunto a Deus, porque tanto faz tanto frio de manha? E porque ainda está escuro às sete da manha? Nenhuma resposta do céu.Fui à aula com a minha cara de domingo. 

Isto nao é um blog

Tuesday, April 7th, 2009

  ”Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”                                                                                                          Clarice Lispector

 Essa nao é a primeira vez que eu tento criar um blog. Várias ideáis já passaram pela minha cabeça - mas que apenas me ameaçaram com movimentos ligeiros e excitantes.  

  É uma pena que as minhas melhores ideáis surjam sempre no momento inadequado; na fila do banco ou dentro do onibus a caminho de casa. Mas, eu nao tive nenhum surto criativo tao importante que me fizesse sentar e escrever, escrever como se fosse através de uma voz que dita o sentimento de cada palavra e balbucia a ultima sentenca. O fim de um texto é de uma felicidade solitária, incapaz de ser compartilhada.  

  Mas, nenhuma idéia cruzou feliz o caminho do meu pensamento. Recentemente eu substitui esse estímulo criativo por pensamentos tolos, como por exemplo o que eu faria se eu ganhasse na loteria, ou o se a mistura exótica de abacate com batata poderia resultar num delicioso purê.  

  Há  muito tempo venho subestimando a minha vida. A minha experiência. O meu tempo, que é o ritimo do próximo. E mais que tudo, subestimando a minha escrita.  

  Algum dia eu achei que eu nao pudesse fazer outra coisa na vida que escrever. Algum dia eu também achei que pudesse ser jornalista. E juntaria o amor e a profissao numa só ideia. Mas, como sempre eu vou além do que me proponho; é como se eu nao entendesse o processo de cada experiência. Agora já nao existe nenhuma idéia que subestime a minha vontade.  

  Eu queria escrever um pouco mais, mas nao posso. As palavras têm pressa.E o mundo pequeno (que estava guardado há algum tempo) precisa crescer, porque essa vontade de existir já nao cabe mais em mim, nao há mais espaço no meu pensamento. Esse mundo que existe agora é pequeno, porque só deseja aproximaçao.