Viajando eu aprendi (parte 1)
Viajar é um das coisas que mais gosto de fazer na vida. Nao importa para onde, pode ser para a cidade mais próxima ou apenas para visitar alguém distante.Minha mae já aprendeu a reconhecer esse sintoma de felicidade através da minha voz. Quando nos falamos pelo telefone, ela já sente. ” Está feliz porque vai viajar, nao é?” Sim,sim, sim! Nunca tinha parado pra pensar, mas é verdade. Das lembranças mais marcantes que tenho da minha infância, as poucas viagens que fizemos em familia refletem uma forte nostalgia que causa um reboliço no meu mundo interno.
Lembro-me das férias na fazenda, em Matapua. Todos os primos iam juntos na pampa vermelha da tia Lygia e tio Clélio, disputando em pé o melhor espaço, o qual nos permitia ver a paisagem dar uma volta de 360 graus a nossa frente.
Posso sentir o cheiro de leite fresco, retirado da vaca, o aroma do cuscuz quentinho e a mistura de sabores, cores, e palavras à mesa. Todos os primos reunidos, crianças, cumprindo a obrigaçao de serem felizes.
Eu já dava os primeiros sinais de minha personalidade sonhadora e desantenta. Sempre derrubava o leite,o açúcar nunca ia direto para xícara… “desastrada, desastrada! Todos gritavam. E eu nao me incomodava, ou talvez fingia nao me incomodar, mas ria. E rio até hoje. Porque de uma certa maneira é isso o que me caracteriza. E foi tropeçando, às vezes, literalmente, que cheguei onde estou. Ainda lembro vivamente dos passeios a cavalo, das noites jogando “burro”, cheiro de mato, do tempo que nao acabava nunca. E como era bom nao entender a ficçao dos adultos…

Outra coisa que me vem à cabeça sao os dias de praia, de sol latejando na memória, dos dias longos, dias de férias, de um lugar onde era possível correr pela areia, jogar o corpo no mar, entregar o sorriso ao céu e mergulhar num mar que nao acabava,nao acabava nunca.
Lembro-me claramente, apesar de que tinha cinco anos mais ou menos, das madrugadas que íamos a Pirambu. Ainda dormindo, era carregada no colo até o carro. E quando chegávamos, o dia já tinha amanhecido e era como sentir essa predisposiçao para ser feliz.
Por falar em praia, para mim nao há melhor terapia que vigiar o mar, com aquele olhar profundo, de agradecimento. Sempre gostei da paz que existe no olhar de cada observador, na praia. Quem observa o mar parece entender um pouco mais de si mesmo. É um silêncio inspirador.
Nos meus meses de solidao morando sozinha num apartamento em Salvador, era na praia onde encontrava meu refúgio. Costumava passar um bom tempo sentada, a um certa distância, comtemplando, sentindo os meus olhos salgados, sabor de percepçao.
Depois, como se saísse de uma sessao de relaxamento, eu voltava para casa mais renovada que se tivesse dado um mergulho no mar. Tao prazeroso me parece esse exercício que até terapia já fiz na praia, com um colega do curso de pos-graduaçao em letras, psiquiatra e ser humano compulsivo.
Sentados e sentindo o frescor dos minutos, ele me fez nadar, nadar, o mais profundo que pudesse e o mais distante possível, até que encontrasse os meus medos, e pudesse afogar o meu instinto auto-depressivo. Agora deu vontade de rir. Mas, naquele momento foi tao importante que eu me desconheci.
Depois que nos despedimos,eu cruzei a avenida correndo, ofegante, e fui direto para o meu apartamento, no terceiro andar, na praia de Ondina. E nesse dia escrevi uma carta, a um sortudo destinatário, porque eu era a remetente dos sentimentos mais puros e dignos. Eu sentia em cada poro essa determinaçao a la amelie poulain, de espalhar alegria e comungar bons sentimentos. “Os meus olhos prometem felicidade”, eu repetia…e desde entao, o sentido de promessa nunca mais foi o mesmo.
