O que faltou…

   Pois é. Sempre me encantou viajar, no pensamento, nas histórias, nos livros, na vida das outras pessoas. Estou sempre preparando a minha bagagem, seja para sonhar, seja apenas para pegar o próximo trem.

   Eu me arrependo do tempo que morei na Espanha e nao escrevi nenhuma linha sobre essa experiência e agora fico tentando lembrar de tudo. Porque nao permiti que esse devaneio se concretizasse.

   Mas, por sorte, meu coraçao é sensível às fortes emoçoes e nao resiste à nostalgia; tenho forte na memória alguns momentos da minha vida, como logo quando cheguei em Barcelona, em 2006. E como se cantasse “é que quando cheguei por aqui eu nada entendi”, eu começo a entender muito do que sou agora…Mas, nesse relato nao quero estar restrita ao tempo. O passado ficou perdido nas ruas de Barcelona, de Madrid…e nesses lugares - os rincoes, as esquinas, os cheiros – pertencem a mim, de certa forma…

   Uma coisa era certa, eu fui à Barcelona, com destino a Madri. Como no filme de Almodóvar, Todo sobre mi madre, eu vivi um vai-e-vem cansativo e pleno de emoçoes, entre Barcelona – Madrid, até que, após um ano, me mudei definitivamente para a capital espanhola.

   Existe um sentimento obscuro quando me refiro e penso sobre a minha vida em Barcelona. Sendo sincera, eu sinto um pouco de tristeza. Porque as coisas nao deram certo, porque tive que aprender tudo na marra, porque chorei tanto, porque levei tanto tapa na cara pra aprender coisas tao simples…

   Por isso, Barcelona é esse sentimento confuso, é um passado indeciso e carente de explicaçao. Eu apenas vivi, esse é o problema. Quando sofro, nao quero entender. Apenas vivo. Mas, enfim, dando um passo largo nessa etapa da minha vida, eu tive a oportunidade de viver em Madri,cidade que amo, cidade que me acolheu, que me deu oportunidade de ter um trabalho decente, de fazer boas amizades, de conhecer uma pessoa maravilhosa que acompanhou o ritmo dos meus sonhos e agora compartilha comigo uma vida…

capucino1

   Foi num instante atrás quando olhei uma foto no nosso mural, que resolvi escrever sobre isso. A foto é das mais simples e clichês, talvez. Um capuccino, deliciosamente cremoso e vibrante; em cima do creme,o desenho de uma nota musical polvilhado com chocalate.Ao lado, uma torta de chocolate que me faz ter vontade de correr pra doceria mais próxima. Essa foto foi de uma viagem que fiz a Barcelona, já morando em Madrid, com Sam.

   Foi a primeira vez que fomos a cidade catalana juntos. Eu tive medo do que poderia sentir, tinha sentimentos recentes  rondando minha alma, mas isso nao é assunto para agora…Mas,enfim, essa foto me fez lembrar de coisas tao simples e gostosas que fazemos quando viajamos.

   Eu por exemplo, adoro acordar numa manha ensolarada, caminhar em busca de um lugar onde se possa tomar um bom café, grande, com leite.E depois tomar um café da manha que dê energia pra seguir caminhando nas próximas cinco horas…

   Outra coisa boa, é provar a comida…todos os sabores, todas os produtos…Eu também gosto de caminhar muito, às vezes excessivamente…e sem parar…como se participasse de uma maratona turística…

   Todo mundo gosta de viajar, pelo menos é o que todo mundo diz. Cada pessoa tem uma maneira de perceber o lugar e de visitar. O lugar também faz o turista. Mas, nao é só isso. Eu gosto de seguir o meu ritimo. Odeio grupos de viagens, odeio excursoes. Eu prefiro caminhar, encontrar os detalhes, ver como as pessoas se vestem, que comem, etc…meu turismo, é um turismo sem pressa…claro que como acontece muitas vezes, nao dá tempo de ver tudo o que quero…Mas, enfim, sempre deixo cada lugar com a esperança de voltar mais vezes, talvez sozinha, talvez com pessoas queridas…

   Agora mesmo, o meu sonho é poder ter minha família aqui e poder viajar com eles…mostrar um pouco de tudo que já vi e venho guardando para contar…

 

Entre tantos mares eu encontrei um perfeito, em San Sebastian, Espanha.

Entre tantos mares eu encontrei um perfeito, em San Sebastian, Espanha.

   Nada entao mais emblemático hoje que esse capuccino. Eu sei exatamente o lugar onde o tomamos. Foi ao lado da praia. Era um dia de sol, de temperatura agradabilíssima e eu me sentia livre do medo de viver Barcelona.

   Ainda estávamos nos conhecendo, mas compartilhar um hobby com alguém é uma forma de se aproximar…Entao eu decidi que fôssemos compartilhar uma vista única: o mar; que em Barcelona tem um ar meio artificial. Mas, a verdade é que nao se pode violar a veracidade de um azul estonteante.

   O que torna especial esse ato de contemplar é o fato de que na praia de Barcelona, alguém com esse mesmo sentimento, teve a ideia de construir cadeiras inclinadas, em direçao ao mar, como um desejo explícito de contemplaçao.

   A primeira vez que vi, pensei, encantada. “Entao, sao cadeiras especiais, porque ali ninguém se senta para tomar sol”. Talvez porque uma vez ali, o apelo do mar consome toda a energia do corpo.

   Por isso,observei que as pessoas sempre permanecem em silêncio, mesmo quando acompanhadas. Nunca lendo ou fazendo outra coisa que observar. E assim fizemos. Nos sentamos, dispostos a essa doaçao.

  Tirei uma foto de Sam, com um olho fechado, e a fisionomia um pouco endurecida, sentindo o sol tapear o seu rosto de leve. Minhas pernas estavam apoiadas na sua cadeira, deixando-me assim numa posiçao mais confortável.

   Nos conhecíamos mais. Pouco a pouco aprofundando, eu podia ver nos seus olhos. E nao é que o mar me desinteressasse, mas, naquele dia, era como se eu voltasse a nadar no mesmo mar dos meus sonhos, fundo, para encontrar esse amor. 

 

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