Eu, palavra…
Quando eu estudava comunicação e lia com afinidade os meus autores preferidos, eu tinha quase certeza de que o meu interesse pelas letras era uma espécie de gostar por determinação do espírito, não por vontade própria.
Já existia ali o meu interesse em buscar uma forma de esclarecimento através das palavras quando, aos 15 anos, abri um desses guias de profissões e levei meu dedo até a palavra jornalismo, deixando escapar uma forte emoção ao ler a minha escolha em voz alta.
Mas, existia algo mais profundo que o interesse em retratar o cotidiano ou expressar minhas opiniões. Eu tinha que ser sincera comigo mesma. Não seria então a escolha de uma carreira, mas de uma forma de narrar a minha própria história. E porque não a dos outros também.
O jornalismo amadurece diariamente, com o cotidiano, com o fluxo dos acontecimentos, e para existir, necessita de um ritmo de produção constante. Mas, como jornalista (diga-se diplomada,já que corremos o risco de nos tornar espécies em extinção) porém sem trabalho, as coisas se invertem.
Os dias não parecem os mesmos. O mundo continua produzindo notícias diárias, a economia muda, as pessoas morrem.Mas, a sensação que eu tenho é que “tomar conta desse mundo” carece de uma energia (e entusiasmo) que a maioria dos jornalistas não possue hoje em dia.
Mas,eu talvez não seja a pessoa mais adequada para falar sobre isso. No entanto, ao fazer jornalismo eu abraçava outra propriedade da profissão: a linguagem. E sendo jornalista eu talvez pudesse ser escritora. Cheguei a tentar cursar letras, mas no final acabei fazendo uma pós-graduação em literatura.

Quando toquei na parte árida da linguística eu senti que talvez sendo escritora eu pudesse entender o que boa parte do mundo parece não entender: como comunicar-se, de que forma,etc. Parece estranho, mas quando escrevo é quando mais me aproximo dos outros, de mim mesma.
E a essa altura da minha vida só encontrei uma prova de comunhão perfeita de palavras com uma amiga muito querida, que já dividiu comigo todo esse poder da linguagem – pensamento, através de poemas que construímos juntas, ou da invenção de uma peça de teatro,onde a loucura ganhou forma e nos mateve lúcidas para enfrentar o cotidiano de pré-vestibulandas; ou de um jornal que nasceu, nada mais que dizer, da indignação tão pura e sincera (que ainda hoje tento buscá-la dentro de mim, em certos momentos), pelo fim de uma revista que não precisava de um outro nome, se chamava Palavra.
Logo mais eu desenvolvi o hábito de não querer me comunicar sem esse requisito,“envolvimento”. E talvez nessa época eu tenha deixado muitas pessoas confusas, querendo me ajudar ou entender o que eu sentia. Mas não tinha jeito, era mais forte que essas paixões que nos atacam desprevenidos.
Não tinha sossego no meu coração, eu não podia ser tão óbvia e não havia quem pudesse arrancar de mim um esclarecimento. Eu não falava, escrevia, mas diziam que aquelas palavras não tinha sentido, que eram (muy) formal, que era uma decisão de não- se-comunicar, apenas.
Eu não me surpreendo agora depois de abrir o livro da minha memória, e rever esse passado silencioso, essa pedra na palavra. Mas, como deve acontecer com toda a pessoa que escreve (ou tenta, no meu caso), eu só busco exorcizar o demônio de um tema e curar minhas obsessões em torno do próprio exercício da palavra.
(obs: preciso aprender a escrever menos nesse blog…por minha vontade, o texto não acabaria aqui,mas haja paciência para ler tanta coisa…amanhã segue mais)

April 28th, 2009 at 09:31
Acabo de ler tudo, tudinho do seu Blog e gosto muito da maneira que você escreve, simples e profunda, honesta.
May 15th, 2009 at 23:20
estou lendo aos poucos… e gostando!