Archive for May, 2009

A vitória da magreza e o triunfo do sorriso

Wednesday, May 20th, 2009

Enguanto não começa mais um episódio de Mulheres Desesperadas, resolvi atualizar o meu dia. E o assunto de hoje interessa a todas as mulheres desesperadas ou não, por manter uma aparência saudável, healthy.

Semanas atrás, eu li uma crítica sobre Victoria Beckman - esse modelo esquelético e ditador de moda em várias partes do mundo. Ela é a mais nova garota propaganda de roupas íntimas Armani. Se alguém se interessar em ler o artigo (em espanhol) por favor, reflita, principalmente se for mulher.

Será que não podiam ter encontrado uma imagem feminina mais realista, menos caricatural e inexpressiva que essa mulher? Será mesmo que o número da  lingerie que ela veste corresponde ao da maioria das mulheres?

Na Inglaterra (país que luta contra a obesidade) ela está sempre na lista das melhores vestidas, nas capas das revistas semanais.Mas, as inglesas estão mais para uma musa de Botticelli que para esse manequim anoréxico, que não sorri nunca. Como disse um jornalista do The Guardian, sorrir gasta caloria e Victoria necessita energia para se manter em pé (e alinhada).

posh_spice_armani

Pelo contrário, as inglesas têm o busto avantajado, têm curvas também.Algumas até seguem o protótipo de la Beckham, mas quando vejo essas mulheres, só consigo pensar que elas não desejam ser assim, que elas não descobriram ainda que a beleza tem cor, tem alegria…E não tem nada a ver com a marca da roupa que se veste ou com a capacidade de se equilibrar num salto agulha.

Como toda mulher, eu sempre acho que poderia perder uns quilinhos, “secar”, como elas dizem, mas quando eu olho ao meu redor, uma certeza me consola, eu não preciso ser julgada pela minha aparência.

E quando vejo mulheres como Victoria, eu sinto orgulho de cada parte do meu corpo, dá gosto ser eu mesma! Diferente dela,eu posso expandir um sorriso no rosto - vitaminado, saudável, natural. E esse sorriso, que leva tempo para se tornar sincero, é um triunfo para qualquer mulher dona das suas medidas.

Leia o artigo: (http://www.elmundo.es/yodona/2009/03/31/cuentahilos/1238484953.html).

Fazendo anotações…

Friday, May 15th, 2009

   Após assitir ao filme Alta Fidelidade, na semana passada, eu me lembrei de um dia “deprê”,nos meus quinze anos, quando incentivada por uma amiga - que padecia de um entusiasmo natural pelas coisas do mundo- eu fiz a minha primeira lista com pontos positivos da minha vida, que me ajudariam a enxergar a garota  sortuda que eu era.

   Quem assitiu ao filme sabe que o personagem faz da sua vida um listado caótico de lembranças e idéias que o ajudam a entender o passado, quando ele tenta analisar o que deu errado nas suas relações anteriores, ou justifcar o presente, quando ele entrega uma fita com as suas canções preferidas a uma jornalista interessada em entrevistá-lo. Eu, assim como o personagem do filme, estou sempre criando (às vezes na cabeça mesmo) o meu top ten com as melhores canções para dançar, os melhores clássicos do cinema, ou os melhores restaurantes que já fui.

   Mas, existem ainda outros tipos de listas; as que servem para comparar, como por exemplo, a qualidade de vida de um lugar. E nesses casos, a minha cabeça trabalha com destreza para calcular os dias de felicidade vivendo num país como a Inglaterra, no qual 226 dias de chuva no ano comprometem sem piedade a entrada do sol na rotina de cada indivíduo.

   Além disso, descobri que fazer listas de compras tem uma função terapêutica, me acalma. Daí que tomada por um instinto prático (que foi previamente anotado num caderno),que não me é característico, eu comprei vários cadernos de anotação e os espalhei pela casa. Consumida ainda por esse desejo de anotar todas as idéias que me surgiam na mente,eu comprei uma mini-lousa com ímã para pregar na geladeira e poder fazer…listas!

   A minha primeira lista foi a de necessidades urgentes. O que precisamos nessa casa: amor, música,açúcar…Recentemente fiz outra lista de coisas que sempre acabam faltando durante a semana: leite, queijo cottage, salada,persistência…E a lista de hoje foi sobre coisas diferentes para fazer em algumas cidades que já visitei. Já é assunto para o próximo post.

feijao com pao rima no café da manha dos ingleses

feijão com pão rima no café da manhã dos ingleses

    Eu ainda não falei diretamente sobre a Inglaterra. Dei voltas, fui do Brasil a Espanha, escapei no cenário de fundo desse país - de um verde tão generoso que parece sugar toda as cores possíveis tornando esse lugar tão caracteristicamente cinza. Por falar nisso, aqui o clima é mais que um começo de conversa. Para os ingleses é um tema tão interessante quanto política. Afinal, quem vai preparar um churrasco sem saber como será o amanhã.

   A Inglaterra é um país curioso. Faz parte do Reino Unido, mas é como se alguma característica separasse esse país dos outros. Quando comparo com outros países da Europa, sempre digo que a Inglaterra tem o prazer de ser diferente.

   Pensando nisso, outro dia convoquei Sam para ajudar-me a criar uma lista de coisas que para mim fazem da Inglaterra um país autêntico, mas melhor ainda, faz com que ela se torne única sob os cuidados da minha percepção.Muitas vezes me peguei falando sozinha,com ar de supresa no rosto após ver algo na rua que me chamasse atenção, que me deixasse com essas quatro palavrinhas na boca: “só podia ser aqui”…

   Porém, um detalhe preocupante nessa lista, feita sob a promessa de que a publicaria neste blog, foi a improvisação. Eu pedi a Sam que fizesse a lista comigo, caso esquecesse de alguma coisa. Mas, por um descuido da consciência (só pode ser isso) não havia nenhum daqueles caderninhos na cabeceira da cama. Que detalhe! Com preguiça de me levantar para buscar um, decidimos escrever numa espécie de cartas de baralho. Nada demais e vocês podem até não entender esse comentário, mas percebi que sem ter escrito num caderinho eu não pude transcrever as idéias para o computador e foi necessário passá-las para uma folha. Mas, enfim, eis o momento de aprensentar a minha lista. E chega a hora de riscar mais um item da minha lista de tarefas do dia.

  O que é que a Inglaterra tem?

   Eles dirigem no lado esqerdo (ok, isso não é novidade)

   Eles usam outras medidas de distância, de peso, etc. Por exemplo, enquanto na Europa (como no Brasil também) uma pessoa pesa 60 kg, na Inglaterra ela pesaria 9 stones (tradução literal:pedras) e 3 lbs (pounds). Eles não usam kilômetros, mas yards. Ah, e miles (1 mile ou milha equivale a 1760 yards). Confuso?

   Eles fazem parte da União Européia, mas a moeda do país é a libra esterlina (pounds) ao invés do euro.

    A entrada das tomadas elétricas são diferentes (com tres pinos, em forma de triângulo). Eu comprei uma chapinha na Espanha, que já foi usada em vários outros países da Europa, nas minhas viagens, mas que coisa, não posso usá-la aqui!

    Eles facilitam a vida de quem tem problema em encontrar o sapato perfeito. Aqui, existe o chamado “half sizes”, e o sistema de numeração é outra. Ou seja eu não uso o número 6 (que corresponde a 39, acho), eu uso 5 e meio.

   Existe carro de três rodas, chamado Reliant Robin. E para dirigí-lo você não precisa de carteira de motorista.

para dirigir esse carro você só precisa saber dirigir...uma moto!

para dirigir esse carro você só precisa saber dirigir...uma moto!

   As casas são todas iguais,típico estilo inglês, com muro baixo, um pequeno jardim na frente. Algumas têm portas em cores bem vivas como roxo,vermelho.

    Aqui não existe o conceito de “una caña” ou de “um chopp” para cerveja. Essa bebida é vendida num copo de aproximadamente meio litro. Mas, ops, eles não usam litros, usam pint (ou seja 0.47 litros).

    Cachorro é animal sagrado. Faz parte da família, mora dentro de casa com conforto, não importa o tamanho. Portanto, se você atropelar um cachorro, tem que prestar socorro, ligar para polícia, caso contrário poderá ser multado. Mas, não se preocupe se o acidente acontecer com um gato. Você pode passar até duas vezes por cima desse animal e ir pra casa tranquilo (o pobre bicinho é uma exceção nessa lista).

    Você precisa pagar uma taxa de 145 libras por ano para poder assitir aos canais da televisão. Mas, se você usar a tv apenas para assistir a dvds, não é necessário (a pessoa responsável vem até a sua porta para cobrar essa taxa).

     No café da manhã eles comem feijão (meio doce e enlatado) com torrada, ovos, salsicha, bacon e molho de tomate.

    A bebida mais consumida é o chá. Ela é usada sem preconceito: na hora do almoço, na hora do jantar, etc.

    Prato típico do país, Fish and Chips, é a combinação de peixe empanado com batatas fritas (ah, eles comem batatas fritas com vinagre e queijo ralado). E você identifica o lugar onde se vende o famoso prato de longe, pelo cheiro, e seguindo os pratinhnhos em formato de caixas de ovo, no chão.

   Sanduíche de bacon é super popular. A receita é simples: pão e bacon!

    Tanta chuva não é suficiente! A Inglaterra corre sérios riscos de em aproximadamente 20 anos ter problemas de falta de água.

   É só esquentar um pouco (um pouquinho, porque nunca faz calor), ou ter um dia de sol, para os ingleses saírem pelas ruas como se estivessem em pleno verão, com shorts, camisetas e óculos de sol! Mas, ainda faz frio.

Percepção requer envolvimento

Wednesday, May 6th, 2009

   O aprendizado de uma língua também segue um ritmo peculiar e diário. É preciso estar disposto e se entregar a essa aventura, mergulhar nas palavras, mas não apressar o entendimento. Então pode acontecer algo ainda mais positivo, quando a língua passa a ser um instrumento que muda a nossa vida.

   Se eu não falasse espanhol hoje talvez não pudesse manter uma conversação mais profunda com colegas colombianos do meu curso de inglês, por exemplo;ou com uma itialiana que se viu obrigada a falar espanhol em razão das dificuldades que o inglês lhe oferecia. E, como a literatura e o jornalismo me brindaram com outras formas de comunicação,o uso de uma língua estrangeira também permite esses momentos abstratos, mas que parecem fazer sentido no no-sense das relações humanas.

   Essa semana eu vivi a minha segunda  experiência como babysitter.Durante uma tarde eu tomei conta de duas crianças maravilhosas, filhas do baker, lá da cafeteria.  Como os pais falam francês(e outro dialeto também) e por serem muito novinhos (a garota tem dois anos e o rapazinho tem três e meio)  eles não aprenderam ainda a falar inglês; o garoto entende,talvez melhor que eu, mas apenas balbucia algumas palavras…

   Contente e encantada com a primeira visita infantil a essa casa, eu espalhei os lápis de cores na mesa, joguei as almofadas no chão, desenhei para a garotinha, que parecia ver algum talento detrás dos meus desenhos tortos.

   Tentei decifrar o segredo detrás das palavras do pequeno garoto, mas mesmo sem entendê-lo existia uma cumplicidade gratuita no olhar e nos gestos daquela criança…

   Senti uma satisfação preencher um vazio no meu rosto, naquela tarde, quando tentei apresentá-lo algumas novas palavras.Eu desenhei uma árvore (this is the tree!), e enstusiasmado com as cores ele repetia comigo: tree; e como se experimentasse o aprendizado mais rápido do que o corpo pudesse suportar, correu excitado até o jardim para mostrar-me que ali havia uma árvore. E não parou de repetir até que passamos para o próximo desenho, (the flowers) e vi no seu rosto dois olhinhos nadarem em desespero ao encontro das pequenas flores que nasceram espontaneamente no jardim de casa. E mais uma vez, como se provasse o sabor das novas palavras, não parava de mostrar e repetir: flowers

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    Então eu pensei como a língua também proporciona esses intervalos, nos quais a gente pode até recomeçar uma nova vida. Sempre repito que entender um outro idioma é ponta-pé para aceitar uma nova cultura. Somente assim posso entender o sentido de estar aqui e o sentido pelo qual muitas pessoas abandonam seus lares (seus países) para buscar o que ali não puderam encontrar…mas,por outro lado, posso entender que a linguagem também segue um ritimo inverso;quando já sabe tão profundamente a que se destina que não deseja ser executada…

   O siêncio dos outros-  Existe um senhor, já com seus setenta anos, que é um dos clientes devotos, da Croissant Dor (agora meu antigo trabalho). Todos os finais de semana, às oito da manhã,ele entra em silêncio,com seu jornal diário, senta-se e ali permanece até que um ou dois funcionários se dão conta, se entreolham e trabalham em harmonia: enquanto um prepara o seu large cappuccino, o outro pega um prato, prepara os talheres,leva um croissant de queijo e presunto ao forno, e o servem quando pronto.

   Ele não precisa pedir. Sua presença já estabelece a petição E isso ninguém me ensinou. Aprendi observando outras colegas prepararem esse pedido oculto durante repetidos finais de semana. Demorei um pouco mais para aprender que ele não tolera que retirem a xícara da mesa, mesmo que reste apenas uma fina espuma de leite, a não ser que seja para substituí-la por outra com o velho cappuccino de sempre.

   Uma vez tentei recolher a xícara e ele a segurou com um grosso dedo indicador -perdido dentro do vazio da xícara. Sem sentir o peso negativo daquela resposta, eu tentei trazê-la novamente para mim. Dessa vez ele foi mais incisivo.Colocando mais força num único dedo, ele prendeu a xícara,me olhou firme e balançou a cabeça. Tive apenas tempo de corar e dizer um murcho  ”I am sorry”.

   Ele tinha uma barba grossa e cheia, o rosto sempre sério, e olhos furiosos, mas que se olhassêmos com mais calma podíamos encontrar neles doçura.Ele nunca deu uma palavra, nunca conversou com outro cliente ao lado,mas um dia percebi que fazia sempre anotações no seu caderno, sempre mantendo a xícara de cappuccino ao lado, como inspiração.

   E a razão do silêncio era essa,pensei. Tinha certeza que ali naquele café ele se comunicava melhor que qualquer outra pessoa. E que podia voltar pra casa mais pleno e seguro de si,como se mantivesse conversações secretas com o sagrado.