(Eu estou com problemas na página desse blog, mas vou tentar resolver isso o mais rápido possível. Sorry).
Eu estou de volta! Passei duas semanas viajando por algumas regioes da França. Começamos no norte, em Champagne. Logo depois fomos descendo em direção a uma das mais importantes produtoras de vinho, Burgundy. De lá seguimos para Lyon e acabamos no topo, nos Alpes.
…
A disposição dos dias deveria seguir um roteiro mais ou menos estruturado, ajustado ao tempo (que sempre passa rápido quando a gente está viajando),alheio a qualquer indisposição do corpo, do clima, da mente.
Era preciso chegar ao casamento de uma grande amiga, confirmado com um ano de antecedência, em Lyon, sul da França, mais precisamente numa cidadezinha chamada San Priest, às 15 horas do dia 30 de maio, num sábado que mereceria fazer sol.
Nós tínhamos precisamente esse roteiro na cabeça. Sairíamos de Dover, na Inglaterra, em direção ao sul da França, de carro. Íriamos parar em algumas cidades, ver a paisagem mudar como se a natureza preparasse um espetáculo íntimo para nós; provaríamos os sabores das comidas típicas de cada região, eu saciaria a minha paixão por queijos ao experimentar pelo menos alguns dos milhares produzidos na França. E o objetivo maior seria explorar algumas regiões produtoras de vinho.
Mas, tinha que haver um ingrediente que tornasse essa experiência mais espontânea. Para isso, foi necessário evitar as grandes rodovias, prolongando,sim, um pouco mais a duração de cada viagem, mas com a condição de poder passar pelos lugarejos, respirar o ar campestre da França, sentir os olhos buscarem mais sentimento e sentido em cada pessoa, em cada lugar avistado;parar no meio da estrada e subir os degraus invisíveis que nos levariam a uma igreja abandonada no meio do campo, pôr os pés no solo fértil dos vinhedos, e sentir o corpo apurar o sabor de um vinho que poderia nascer dali dentro de alguns meses…
Esse circuito tornou o caminho mais longo como se seguisse um desejo de não chegar a destino algum. E nos deu a sensação de ter visto e descoberto tantas coisas! Mais ainda era uma sensação realista, uma dessas experiências que amansa o corpo desbravando novos estímulos da alma.

Flor numa garrafa de champagne deixada onde acampamos, em Epernay.
A primeira região que paramos (meu estômago borbulha só de pensar) foi Champagne. A região é uma prova de resistência para qualquer turista interessado em provar a bebida. Entre visitas aos maisons (os grandes produtores da bebida) ou aos vignerons (pequenos produtores e que vendem as uvas para os Maisons), uma passada em bares que oferecem centenas de opções de champagne, o turista pode passar o dia inteiro degustando essa bebida considerada artigo de luxo, feita para ocasiões especiais.
Consciente da minha pura ignorância em relação à bebida (porque se já havia provado o verdadeiro champagne em minha vida,não qualquer espumante, esse momento foi tão rápido que se apagou da minha mente), essa ocasião aconteceu em plena viagem mesmo.
A primeira parada foi em Reims, capital de Champagne. A cidade é pequena, e a primeira sensação é que ela não tem muita coisa a oferecer além das casas de champagne. Sem perder tempo,fomos direto a uma casa que oferecia uma visita guiada e três copos da bebida no final. Foi o primeiro contato nesse ambiente um pouco sofisticado e seletivo (acho que eu e Sam éramos os mais novinhos num círculo de rostos sérios e cabelos grisalhos)
No entanto, foi uma jovem espanhola quem nos apresentou aos primeiros sabores e cores da bebida. E acrescentou um pouco de informação ao nosso amadorismo. Como por exemplo, existem três tipos de uva que são responsáveis, em diferentes aspectos, pelo resultado perfeito da bebida.
Chardonnay é a única uva branca, que aporta delicadeza e suavidade. Pinot Noir é a uva vermelha, é ela que dá corpo à bebida. E por último é a pinot meunier, que é determinante para a evolução e amadurecimento do vinho, além de adiconar aromas.
Essa foi uma dasa primeiras informações que recebemos, de uma maneira tão simples, que já parecia estar incorporada no nosso repertório de desgustadores da bebida.O passo seguinte foi entender como a mistura de sabores tão precisos e delicados resultam na elaboração de um bom champagne.

Fazendo pose na minha primeira "dégustation" de champagne, em Reims
Para isso, foi preciso ir um pouco mais longe. No mesmo dia seguimos para outra cidade, chamada Epernay, a 26 km sul de Reims. A cidade, conhecida como a capitale du Champagne, parece ter mais personalidade, além de mais opções de lazer. Nessa cidade fizemos duas coisas interessantes. Primeiro, acampamos num “campsite” muito organizado,limpo,e barato. Com 12 euros por noite (para duas pessoas) montamos nossa tenda sob um sol que derretia a emoção que sentíamos no nossos primeiros dias de aventura.
Montados numa bicicleta (que se aluga no acampamento mesmo) exploramos cada ponto dessa cidadezinha como se estivêssemos à procura de um tesouro perdido. Já afastados da cidade seguimos,meio sem saber onde chegaríamos, em direção a um povoado com um nome que é pura onomatopeia, chamado “Ay”.
Seguindo um instinto de liberdade, eu desejava encontrar um desses vignerons que citei logo acima, os pequenos produtores de champagne.Primeiro porque através desses produtores, o contato perde um pouco dessa compostura séria e rígida em torno da apreciação da bebida. Você é convidado a entrar na casa, sentar-se à mesa e provar com calma, desgustando cada gole, deixando o sabor morar no palato por um tempo, sentir a bebida rolar na garganta como se o corpo pudesse experimentar a verdadeira arte da produção de champagne.
Nós encontramos essa casa em frente a um canal, rodeado de flores. Quem nos recebeu foi uma francesa sorridente, que não falava nada em inglês, mas com uma persistência generosa, sempre sorrindo, escrevia no caderno um idioma mágico que a fez entender- se e que até nos ajudou a explicar que passaríamos às dez horas do dia seguinte para comprar as garrafas de champagne que acabávamos de provar, porque seria impossível carregá-las na bicicleta.

Em Ay, para provar champagne nas casas dos pequenos produtores
O que eu aprendi sobre Champagne…
Diferente dos produtores locais (que não cobram a degustação, mas claro, esperam que você compre alguma garrafinha), uma visita guiada a um dos Maisons situado na sugestiva Av. Champagne,reestabelece a complexidade do simples ato de provar um copo de champagne.
Escolhemos a casa Moet & Chandon,uma das maiores produtoras de champagne do mundo.Lá você pode fazer uma visita de uma hora à cava subterrânea, onde eles guardam a bebida, e pode escolher provar até três copos – pagando por isso 21 euros por pessoa. Cada maison tem seu preço e você pode ir diretamente a recepção escolher o tipo de visita que desejar.
Nesse dia, aprendemos que o processo de produção da bebida é minucioso. É um equilíbrio delicado entre os três diferentes tipos de uva. Esse trabalho preciso requer ainda a participação de todos os sentidos. Primeiro, se faz a colheita manual. As mãos realizam um trabalho cego entre os diversos cachos de uvas, tentando localizar as uvas mais saudáveis, com pele, em perfeito estado. Dessa colheita, se faz a primeira pressão rápida, o primeiro suco (cada 4.000 kilos de uvas se produz 2.050 litros de suco). Esse primeiro “suco”se chama cuvée.Além disso, eles ainda fazem mais dois processos de pressão chamados premiéres e deuxiémes tailles.

Cava do maison Moet & Chandon
Os melhores produtores de champagne utilizam apenas o cuvée e o premiéres. Os especialistas no assunto provam essa mistura em busca dos aromas, do gosto ideal.O passo seguinte é deixar a bebida repousar por duas horas (nas grandes casas ela é mantida em cubos de aço inoxidável) a um temperatura de 17ºC. A temperatura é muito importante para a conservação dos aromas, ou para diminuir a acidez, por exemplo.
A bebida passa ainda por dois processos de fermentação. Se prepara o cuvée, adicionando vinhos de diferentes vinhedos, de diferentes variedades. No começo da próxima primavera acontece a segunda fermentação (dessa vez a bebida já está na garrafa, mas sem a rolha, submetida a uma pressão de 6 atmosferas), quando se adiciona ao cuvée as levaduras e um licor açucarado. As garrafas são conservadas em cavas subterrâneas a 10ºC, de cabeça para baixo.
O nosso guia nos informou que o resultado final da bebida exige ainda o trabalho em conjunto de mãos experientes que a cada duas dias precisam girar todas as garrafas para que os sedimentos no pescoço desta se sedimentem por completo (se quiserem imaginar a matémática desse processo, levem em conta que a casa Moet & Chandon produz cerca de dois milhões de caixas de champagne por ano).

Em frente ao maison de um dos maiores produtores de champagne do mundo
E o que acontece depois da fermentação? O selo que regulamenta a produção de vinhos na França, chamado Appellation d’Origine, exige que a bebida permaneça no mínimo um ano nessas cavas subterrâneas - lugar silencioso e húmido, que ainda pode abrigar um champagne por muito mais tempo, como exsitem casos de garrafas conservadas por mais de seis anos. E umas dessas preciosidades, guardadas como um mistério líquido e perfumado, pode custar até 2000 euros.
Com o final da visita, o nosso dia se fechou com um alento de esperança. Nesse mesmo dia já havíamos provado – entre cinco ou seis copos dessa bebida sedutora, enigmática, espumante. Mas, nos próximos dias o desafio seria maior : aprender a degustar vinhos.
Tirei uma foto em frente ao império Moet & Chandon, ainda sentindo o gosto do último copo de champagne.Tentando me equilibrar em Sam,eu pressenti que vinha chuva pela frente, era preciso pegar nossas bicicletas e pedalar rápido de volta ao acampamento. Nem mais um copo de champagne! Compramos uma garrafa de vinho no bar do acampamento, mas só conseguimos beber um copo. No meio da noite o céu foi tomado por violentos trovões que fizeram o meu corpo encolher num medo estremecedor. Não sei quanto tempo durou aquela chuva.Mas,o dia seguinte parecia mais fácil prever: eu só queria provar sabores inocentes.