Archive for October, 2009

Encontros e contratos

Tuesday, October 27th, 2009

Sempre imaginei como seria um encontro com um escritor famoso. Não me refiro a um encontro formal, por detrás de páginas de livros autografados, ou de frases soltas roubadas numa entrevista. Mas, um encontro de ombros lado a lado, com pausas na caminhada, com pétalas e páginas, numa tarde de outono vendo as folhas que caem do céu e voam como pássaros quebrantados.

Já tive o sonho de conhecer Clarice Lispector, de abraçar Drummond,ou de recitar um poema com Manuel Bandeira, “Parságada, meu caro, é para lá que todos irão”. Já desejei,de verdade,tomar uma dose de haikai com Paulo Leminski, entrar na cabeça de Lewis Carroll, dar um passeio no submundo de Dostoyevsky, ler bem alto Um amigo de Kafka,de Isaac Singer, e recuperar a esperança na vida, com as páginas de uma nova história ondulando na palma da minha mão, como um corpo avançando o mar, desafiando as ondas, sua força insípida.

Ah, sim, todo leitor tem um sonho de salvação, um desejo de encontrar a verdade. Todo leitor se arrepia com a intimidade que se estabelece, às vezes promiscuamente, com o seu escritor favorito. Que leitor não leu Nelson Rodrigues e se olhou no espelho, com aquele olhar sem pudor que prevê uma fatalidade? Que leitor nunca criou uma ligação infinita com o seu escritor preferido,já se sentiu entendido, enfeitiçado por uma verdade que às vezes só existe na imaginação do próprio criador? Quem nunca se envolveu e se deixou seduzir por uma história? Eu mesma chorei de raiva quando o escritor misterioso do A noite do oráculo, de Paul Auster, decide trair sua mulher.

A ilusão é o contrato entre leitor e escritor; no momento em que o leitor abre o livro, lê a primeira página, ele se entrelaça no mistério da vida, é como dar as mãos a um estranho que parece nos conhecer tão a fundo, daquela maneira de se conhecer alguém escancarando as portas.

Eu já aceitei esse convite tantas vezes. E até já ouvi histórias de leitores que deram mais que um pedaço de carne, venderam a alma. O meu primeiro encontro violento aconteceu há muito tempo, com Clarice Lispector. Quando eu a lia, eu tinha vontade de chorar, amarrada que estava à sua essência, violada pelo desejo de ser Clarice.

Mas, haviam muitas Clarices espalhadas. Aos poucos, eu entendi que existia um sentimento de Clarice em muitas mulheres, muitas  a sentiam na pele, e eu achei que fosse apenas mais uma leitora - mas uma leitora de olhos desconsolados e tímidos.E com uma felicidade de ombros encolhidos. Amo Clarice,mas quando leio (ou releio) os seus textos, eu sou a mesma, ela só me empresta os seus olhos. E depois saio livre e cega pra minha realidade.

Lygia Fagundes Telles

Mas, existem os encontros inocentes (ou não). Um dia meu irmão trouxe da biblioteca o livro As meninas, de Lygia Fagundes Telles, e eu soube  que ali estava a minha salvação.Não tinha idéia do que me salvava, se do tédio dos meus 17 anos, ou da ansiedade de crescer e avançar para o mundo. Desde a primeira página eu sabia que aquela leitura era especial, uma certeza borbulhava dentro de mim.

Durante alguns dias eu fui uma das meninas de Lygia, eu contei com elas, eu escrevi do jeito que elas falavam, a gente se entendia muito bem…Até que eu terminei o livro, mas foi um término contente…Eu continuava a menina dentro das meninas…Depois, o meu desejo foi ler mais dessa escritora, que conta uma história de uma maneira tão especial que a gente se belisca para sair da pele do personagem.

Eu nunca pensei em conhecer Lygia Fagundes Telles, pra mim já me bastava a força com que atava minhas mãos às dela. E tinha sempre uma efipania de um conto seu, que pra mim era um conto verde, de purpurina, de uma alegria desesperada que só existe no carnaval…

Eis que um dia esse encontro chegou e eu nunca soube como escrevê-lo e talvez até tente outros rascunhos. Foi na primeira edição da feira literária de Paraty, no Rio de Janeiro, a hoje conhecida Flip. Na época eu era estagíaria de jornalismo, ansiosa e insegura. Pedi pra trabalhar na Flip na cara de pau  e eles aceitaram, me deram crachá, acesso à sala dos jornalistas, computador, etc. Me facilitaram entrevistas com alguns escritores, como Marcelino Freire, coletiva com Paul Auster, etc…Mas, eu queria entrevistar Lygia, ela sim.

Numa tarde fresca em Paraty, eu saí em busca da autora de Ciranda de Pedra. Levava debaixo do braço o seu livro mais recente de contos, que eu queria ver autografado. Uma mulher me levou até o hotel onde ela estava hospedada. Numa das ruas de pedras de Paraty, de frente para um portão de madeira,eu a esperava, debaixo de uma chuva fina, com meu coração grosso, quente e palpitante.

Depois de uns minutos, Lygia apareceu acompanhada do seu acessor, muito elegante, como se saísse de um lugar onde o tempo não existisse. Surgiu como a responsável dos meus dias serenos de leitura, de felicidade embevecida; como dona da minha  lucidez àquela idade, surgiu a escritora.

Lygia me cumprimentou muito simpática, suas palavras tinham perfume. Disse num tom familiar que Paloma era o nome da namorada do seu filho, Paloma Rocha, e me senti gêmea dessa outra, um pouco sua nora também.

Ela tinha um objetivo àquela tarde: encontrar um cachorro (vi muitos perambulando pela cidade) para dar –lhe um bombom embalado em papel celofane verde. Lygia me deu sua mão e saímos de braços colados, caminhando em busca do destino esverdeado. Ela não queria dar entrevistas. Queria uma companhia sincera. No meio do caminho uma bandinha atropelou nossa caminhada e Lygia aplaudiu aquele mini carnaval. Andávamos sem pressa.

Lygia autografou meu livro, escreveu uma mensagem linda. Tive a impressão de que entramos num laberinto, que era um sonho, tão absurda e feliz que me sentia. “Eu preciso registrar isso, tirar uma foto, senão vou achar que é sonho”, pensei o caminho todo. E olhava de relance para ela, presa ao meu lado com suas mãos de laço.

Nas noites da minha infância quando eu dormia com minha mãe, só conseguia pegar no sono se segurasse bem forte as mãos dela, para que ela não me escapasse. Mas, eu sempre amanhecia solta, sem minha mãe ao lado. Quando eu dei mão e braço à Lygia, eu senti o mesmo medo infantil de acordar no dia seguinte para um mundo sem proteção.

Tempo lento…

Tuesday, October 20th, 2009

Salvador Dalí

Dá para derreter o tempo...

“Certas vezes nós devíamos ser  aconselhados a não sair de casa”, foi o que ela pensou nas últimas horas do seu dia. E não pensou que fosse preciso consultar os astros, horóscopo, não. “É assunto do ministério da saúde mesmo”, pensou com a  cara fechada pra ela mesma, enquanto passava o ferrolho na porta.

Ela devia ter ouvido aquela vozinha lá dentro, “Não sai de casa, criatura. Hoje vai chover peixe”, como no livro daquele escritor japonês que ela leu há algum tempo. Mas, inventou de seguir aquele caminho de folhas mortas no chão, por onde o vento passa preguiçoso, arrastando uma sujeira peneirada..

Correu pra não chegar atrasada, como se marcasse ponto, mas onde trabalha não marca nada, só as roupas que saem, as roupas que entram…

Ela não teve nem fôlego para dizer boa tarde, estava cinzamente calada. Mas, se deu conta de que tinha chegado duas horas antes de começar o trabalho. Sempre chegava adiantada nos lugares: ela já chegou um dia antes para uma consulta com o oftalmologista, que deve ter pensado que  a pobre não enxergava bem as horas, as datas, os dias…

“Quando chove assim, eu preciso comprar um livro. É como falar com alguém”. Foi aí que ela decidiu aproveitar o tempo livre e passar numa livraria para arrumar conversa. Acabou comprando um livro de jazz, depois decidiu estender aquele papo pra um café ali perto, ai, como a “solidao rende assunto” e almoçou naquele bar que se orgulha do seu serviço cronometricamente demorado – porque foi assim que ele se tornou popular.

Se chama Café Lento, nome que não representa nada para qualquer cidadão inglês, mas para ela, defensora dos pormenores,lento é como uma tarde de sol deve ser, como uma brisa num dia abafado deve existir, como deve ser o tempo dedicado aos pequenos prazeres.

Para ela, sim, uma lentidão de café, um grão de tempo na sua vida pra que ela pudesse mudar as coisas que a incomodam nesse momento: a chuva, “ai que tema constante na história da minha vida”, os dias que agora encurtaram… “amanheceu e estava escuro”, lembrou. Olhou pela janela aquele mundo emparedado lá fora, tombou e voltou a dormir; chegou em casa às cinco e meia e já estava escuro novamente.

E chovia,claro. Ela detesta os dias de chuva porque quando chove as pessoas emudecem, ficam pálidas. E não tem quem aguente a cidade em silêncio. Nenhuma buzina, os carros passam como se fossem feitos de papel. A cidade é um cenário. “Veja aquele senhor de cara torta, com a boca toda engolida”, observou.

Mas, o que mais azucrinou a sua cabeça é que ninguém chegou pra ela e disse: minha querida, fique em casa, porque sendo assim você não terá sua bicicleta e seu celular roubados, não vai quebrar aquele vaso que você comprou, quando corria cega no meio da chuva, não vai chegar em casa e notar que tentaram entregar aquela encomenda que você tanto esperava, nem vai ter que limpar nem chorar o café derramado.

Não deu tempo, “já basta”, ela pensou enxugando a raiva. “Passou, vou tentar ler o livro de jazz”. Com que cabeça? E volta tudo outra vez. Ela no café lento, de frente pro balcão, “hello, alguém aí?”, no lento espaço, com um dono, que sempre muito etéreo, parece ter vindo de um mundo onde as pessoas se rastejam. Dessa vez ele surgiu de cima do teto, desceu a escada com um vigor fugaz e ela se assustou: “ai, nao tinha visto que você estava aí em cima”, disse com uma naturalidade de quem bate na porta de um amigo pra pedir um pouco de café.

E o dono como se não ouvisse, soltou um Good morning, may I help you?, meio decorado. Ela só queria paz para ler o livro e tomar um café. Aliás, foi atraída pelo ambiente daquele café (é assim que eles chamam aqui, vamos num café? pra tomar café) agradável, cool. Mas, fazia barulho demais, a música era brasileira, um trio mocotó, parapapá,ela achou que conhecia esse grupo quando o dono falou. Trocou o café por  algo leve,e comeu uma salada, como sempre.

O dono lhe perguntou onde havia comprado aquele livro que ela segurava com tanto prazer. Ela respondeu com entusiasmo, “ah, num sebo!”, e descobriu que uma banda de jazz ia tocar na próxima sexta, naquele café lento. Depois da conversa veio a bebida,uma coca-cola diet sem gelo, porque já basta de frio. No final das contas não deu tempo pra ler nada. Só deu pra sentir a demora com que ela passava cada página, folheando, tão lenta que se achava naquele momento, sem nada que lhe desse conforto.

Comeu sua salada sem ritmo. Será que faz mal ter tanta pressa? Faz mal é tardar pra entender as coisas da vida…Faz mal é querer fazer algo e se sentir envergonhada. Mas a lentidão também prejudica, se apressar pra chegar no fim do caminho, não ter calma pra deixar que as coisas se esclareçam por si mesmas,” mas em que cadência a minha vida se encontra?” Ela fechou o livro, se encolheu de frio e foi embora. Quase derruba o copo da mesa, “odeio esses dias em que acordo com a mão torta”, resmungou. Quase deixa o casaco na cadeira, por um segundo, e voltou para buscá-lo. Abriu a porta, levou um vento na cara, lembrou que a chuva não dá uma folga.

“O tempo só pode existir em funçao da razão, mas a loucura derrete o tempo”…foi o que ela pensou plana e adocicada. Ia chegar tarde ao trabalho, mas se sentia o coelho do mundo de Alice ao revés, sem relógio na mão e sempre dizendo, “não tenho pressa, não vou perder nada”. Nem se importou com conferir a hora, e só pôde lamentar que ainda não lhe tivessem roubado todo seu tempo….

Life moves pretty fast. If you don’t stop and take a look around once in a while, you could miss it.


O Café Lento existe, sim, lento e filsófico.

Fica na rua 21 North Ln, Headingley,

Leeds, LS6, United Kingdom.

www.cafelento.co.uk


Em Paris do Pará…

Tuesday, October 13th, 2009

Trilha sonora do texto…

Ele entrou como um raio dentro daquela loja pequena e cheia de obejtos usados, de outras vidas. Salivava de tanta ansiedade, com a boca solta e desamarrada, falando barbaridades consigo,“Imagina, seu sacana, se eu ia ter coragem de fazer aquilo,tá maluco?”. E fingia que não falava sozinho, como se a sua metade que o perseguisse. “Sai, sai”, dizia espanando os pesamentos mais sujos…

Olhou ao redor com dois olhos de pedra e recuperou o entusiasmo incial. Atrasou um pouco o passo até chegar ao caixa. Queria acalmar as idéias. “Sai, sai”, e se livrava de mais um peso na consciência. Coçou nervoso os seus cabelos fofos como um tapete,deu um passo infantil, daquele que deixa o corpo num desequilibrio bobo, avançou determinado, um, dois, e juntou os pés, um ao lado do outro, em frente ao caixa.

Chegou até a mocinha da loja e disse emocionado: “Olha que maravilha que acabo de encontrar”. Ela, que nunca duvidou da ambição dos simples mortais, olhou pra aquele quadro e disse profunda, “ah, que raridade, hein?” Mas, logo se deu conta de que aquilo não se tratava de uma pintura, não era coisa que tivesse valor. Um desenho, um pedaço de de Paris, uma cidade que já inspirou tantos pintores, que já acolheu tantos poetas e sentimentais,tantos beijos apaixonados (se bem que ela nunca se beijou apaixonada em Paris) “e a fazem assim de papel e caneta”…

“Não é mesmo uma maravilha?”, perguntou o rapaz trazendo-a de volta ao seu mundo. “Ah, realmente, que coisa linda. Olha só, é Paris”,ela respondeu, se sentindo um pouco ameaçada pelo entusiasmo do cliente.

“Ah, Paris!”, os seus olhos duros se desmancharam, e com a boca cheia rematou: “já estive lá, sim,sim”.

Ela não disse palavra, olhava para o quadro sem sentimento algum,deslizando a mão pelo desenho como se apagasse algum sonho. E ele todo agoniado por uma resposta, com a cara no quadro como se quisesse entar dentro dele, apontou para a Torre Eiffel e perguntou :“ E o que é isso, o que é isso?”. No que ela, como pega de surpresa, só pode responder com a mão segurando a boca, pra que nada além de uma simples resposta escapasse:“É a famosa Torre Eiffel, em Paris”. E ele como se recuperasse a memória, afirmou, “claro, claro, já estive em Paris”.

“E você gostou de Paris?”, perguntou a mocinha com cautela. “Meu Deus, muito,muito mesmo. É o único lugar que eu conheço nesse mundo”, sorriu poético.

“Sei. É uma cidade linda mesmo”, foi só o que pôde pensar e dizer.

“Você é francesa?”, perguntou com a esperança de quem vai a Paris praticar o francês com um nativo.

“Não, não sou nada”, disse quase muda.

“Que pena. Ia ser bom conhecer Paris e uma francesa”, e se calou. Pediu que ela colocasse o quadro numa sacola plástica, “pra proteger Paris”, e saiu tão alto como se alcançasse o topo da Tour Eiffel

A mocinha ficou ali parada, ela que já havia estado em outros lugares, sentiu vontade de seguir o inverso, “todo mundo quer ir pra Paris, eu quero ir pro Pará”…Ela não, queria mesmo achar um quadro de uma cidade com alma, com uma torre humana,com um carrossel de histórias, viajar no mundo dos outros.

Quando chove os doidos saem da toca…

Tuesday, October 6th, 2009

Hoje já vou avisando: estou sem muita paciência! Sonhei a noite toda que lia livros e mais livros. Sonhei com uma mão, que mão foi essa que você colocou no meu sonho, hein? Então, essa mão dura ia mudando os textos, um atrás do outro,enquanto meu cérebro absorvia cada palavra, linha por linha, e a mão me dava mais histórias em cápsulas, pra eu continuar criando, sonhando,sem perder o meu rumo…o que é que você está fazendo comigo?,sem deixar escapar nenhum pedaço de mim no papel…mas,que criatura é essa que desaparece e me deixa aqui solta, personagem abandonada?

Estou ensopada de letras! Não consigo parar de ler, de escrever, é uma convulsão criativa, será? E quando acaba? O que está acontecendo, me explica!!!!Mas onde começou mesmo? Isso tudo que estou sentindo pertence a quem mesmo? Ah, me sinto uma cópia. Onde foi parar esse maldito escritor?

Eu só falei que era bom ter alguém que pensasse em mim com carinho, alguém que estudasse, com calma, as minhas emoçoes, que me construísse como se constrói um filho, que me fizesse viver histórias incríveis, dessas que nos fazem querer mudar de vida na mesma hora. Ah, eu confesso agora: Eu quero nascer de um esboço, sim, de um suspiro de imaginação, quero  sentir o prazer do meu criador a cada página que avança, quero passar páginas, ser borrada, recriada, “essa frase não combina mesmo com ela”,ouvi ele dizer, ocupar os pensamentos do meu escritor, deixar que ele me veja completamente nua, não ter vergonha de ser o que sou, de errar ou de falar alguma bobagem.

Ele nunca me julgaria, porque seus olhos de criador são livres de julgamento,não existe nem o bem, nem o mal, ele sabe disso, que a minha força está na palavra e através dela me defende.Ninguém vai me dizer o que fazer. Ele sabe onde quer me levar. Ele não pode me ver, mas quando ele me escreve, ele me desenha de um jeito tão certo que me assusta - me conhece tão bem, ufilhdmãe,vai saber de que idéia ele me tirou.

E hoje ele me botou numa história curta, porque hoje eu tive um dia corrido e pedi que, pelamordeus, “me poupe de ir pra lá e pra cá e pensar tanto”. A geladeira quebrou, a cozinha ficou alagada, lá fora chovia tanto que dava pra lavar alma, pensamento…O rapaz levou a geladeira velha, trouxe a geladeira nova, deixou minha sala um lixo, com pés de chuva no tapete, no chão, e a geladeira chovendo dentro dela, velha, saiu lavando o chão empoeirado.

E ai já viu, lama, água e poeira. Não deu tempo de almoçar, saí correndo pro trabalho e aí meu criador me entendeu e sussurrou no meu ouvido: “Certo.Hoje está que não cabe mais chuva. Vou poupar você,então. Hoje você não faz nada, só vai observar e só vai falar quando eu mandar”.

Aceitei na hora. Foi aí que ele me veio com essa história de que quando chove os doidos saem do casulo.Quando chove quem sai do buraco é  barata, eu falei. “Psiu, já avisei que você não ia precisar falar nada, guarde seus comentários”. Está bem, disse me engolindo inteira. Certo.

Chove doido na loja de caridade, ou melhor,charity shop (em inglês é mais chique, né? “Não pedi sua opiniao ainda”. Tá beeem). Hoje na loja da fundação RSPCA, onde Paloma trabalha,choveu doido atrás de casaco, de abrigo, de agasalho. Começou com um homem amarelado, de cabelo preto, magro como cabo de vassoura. Entrou, vasculhou umas roupas, passou o tempo conversando com seus (cabides) botoes, rindo, algo ali buscava… uma resposta? Paloma olhou intrigada: “Será que ele tá buscando roupa pra namorada?” (Vem cá, quando eu penso, eu penso em inglês ou em português? “Paloma, não tenho tempo pra respostas. Seguimos a história?” Odeio quando você me coloca dentro de um parêntesis.E quando você me coloca com essas letras deitadas, então, e essas frescuras todas, parece que penso pequeno ou diferente. “Paloma, seguimos a história, se alguém chegar a esse ponto da história, não vai ter nem vontade de chegar até o final”. Que chato).

O homem esquelético  de cabelo preto lambido decidiu provar o casaco (três vezes menor que o número dele, né? “ Vai continuar interrompedo, my dear?” DESCULPA). Vestia uma camisa leopardo minúscula, que acentuava seu corpo de criança desnutrida. Provou um casaco verde que ficou acima da sua cintura…Pediu opinião aos outros clientes que passeavam pela loja, a maioria idosos ou estudantes em busca de uma barganha.

“Está ótimo”, disse um dos clientes e piscando o olho pra Paloma como se acabasse de enganar uma criança. O homem magro gritou pra todo mundo ouvir: “gostei! mas acho que está um pouco pequeno”. Paloma, então, resolveu ajudar,disse que as roupas masculinas eram do outr… (não adiantou nada, né? Ele nem me deixou falar, já foi dizendo que gostou daquele casaco e pronto… “È, eu sei melhor do que você o que ele acha”. Que grosso você! Viu o quê hoje? Chuva, né, só pode!)

O homem seguia no seu monólogo real, mantendo a atenção dos clientes que fingiam que não estavam atentos (pessoas acostumadas com a loucura é outra coisa. Na minha cidade todo mundo já estaria rindo…). “É sempre assim: quando a gente gosta da cor, o tamanho é errado. Quando fica bem no corpo, a gente não gosta da cor. Vou levar”, e o homem magricela deu um ponto final na história

Meu nome é Godofredo, fredo,fredo, fredo, mas nao fedo nao...

Meu nome é Godofredo, fredo,fredo,mas eu não fedo, não...

Uma senhora passou por Paloma e disse disfarçadamente: “To be or not to be. That´s the question”. Paloma riu. Vender ou não vender um casaco de mulher para um corpo disfarçado de homem, era a toda a questão do dia”. Em seguida, surgiu o oposto do cliente anterior: esse era forte, com uma barba que batia no peito e uma cabeça que quase não passava na porta (ah, mas semelhante na loucura).

Ele foi direto ao ponto. Queria um colete preto. Provou, perguntou a ela como estava e ela disse “perfect”, sempre simpática. Vendeu ao senhor barbudo,que pagou com dinheiro guardado numa lata amassada, que levava no bolso do paletó junto com uma bolsa enrolada de plástico, “onde está, onde está, minha bolsa. Ah, sim, aqui” e  enrolou um pouco mais e guardou-a no bolso interno do sobretudo e, sobretudo, disse goodbye apressado, mas depois de descobrir que a dona da loja era italiana disse ciao, e falou maravilhas da Itália, exaltado, “Ahh, Itália!Quantos veroes passei ali”…

“ E você é italiana também?”, perguntou a Paloma.

“Não”.

“Espanhola?”

“Nao”.

“ Hum…Portuguesa?”

“ Nao”.

“Que charity shop mais internacional!”, disse a barba exclamativa.

E Paloma ensinou ele a dar “adeus” em português. No final ele saiu com colete de menos de três libras e um adeus de graça, “Adeus, ha-ha”, repetiu.

“Esse é desses doidos que não sabem falar, só se comunicam rindo”, pensou Paloma, olhando –se no espelho, espelho meu, existe alguém mais doida…E em seguida entrou o mesmo antigo cliente (de sempre, minha manager itialiana sempre manda tomar cuidado com ele. “Eu sei disso, Paloma.”) com seus dentes separados; ele vasculha e nunca compra nada; depois entrou um senhor gordo e molhado e comprou um cd que não se vendia mas, se doava, e ele doou uns centavos para algum cachorrinho ou gato da vida;

chovia, chovia, e uma das atendentes da loja se sentiu chuvosa e um pouco deprimida, foi embora mais cedo, “Que será que ela tem?”, se perguntou Paloma.

“Deve ser porque chove mais dentro dela que em qualquer outra parte do mundo agora”,pensou, abafada. Olhou para o relógio, o tempo passa rápido ali (“Olha você se metendo no texto! Agora sou eu quem está dentro dos parêntesis, com letra inclinada..como você fez isso. Acabe com essa brincadeira de mau gosto!”)

Não sei!

Ah, retomandoo meu texto…O tempo passa, tanta gente passa também…Paloma se sente útil, ajudando mais cachorro que gato, pelo menos assim ela pensa, porque prefere cachorro a gato, mas não importa.

Ela quase se esqueceu que entrou um homem volumoso, com cara de arqueólogo ou de professor de ciências e comprou um quadrinho com uma coruja dentro e logo comprou um outro idêntico, com outra coruja triste… “que barato, fenomenal!cinquenta pennies por um quadrinho desses”, e saiu maravilhado, como se acabasse de achar um fóssil.

“Va benne”, disse Paloma, se liberando. Em italiano, porque o inglês não é uma língua pra desabafar, o italiano sim, é idioma anti-stress. (Já chega, não? Ainda tenho que limpar a casa, fazer um jantar legal, ler meus livros…dá pra parar por aqui? Cansei já…Hum…Ok, me ignora que eu gosto…).

“Vá benne”, Paloma diiiisse, então, e chegou a hora de ir pra casa e terminar esse texto; sem doido, mas com chuva, sem cheiro de barata (eu falei mesmo que algumas pessoas cheiram a barata em dias de chuva. Não sei o que há de errado nisso, é uma frase legal. “Está bem,Paloma. Estou feliz porque você voltou pra dentro dos parêntesis. Quem sabe eu encaixo sua `ótima frase` numa próxima história”. Aff…).

E sem cheiro, mas perfumada de idéias, Paloma voltou pra casa. Nem pensou que aquelas pessoas existiam de verdade (pensei sim,juro) como a sujeira na sua cozinha, como a fome que ela sentiu por nao ter almoçado. Nem pensou que todo lugar tem seu doido, que todo mundo guarda uma loucura mansa, domesticada, que ela tem vontade de ser doida também, de comprar roupa de homem, de criança e pedir opinião a alguém no meio da rua. Ela também tem vontade usar guarda-chuva nos dias sem chuva, soltar um grito dentro do cinema, dançar pelada dentro de casa, sei lá, vai saber a cabeça de cada um (você não sabe que me sabe?)… Juro que nem eu mesmo conheço você cem por cento, Paloma. Não posso saber tudo o que você pensa. Não tenho certeza de nada (achei que sim…).Nem saberia dizer se o que acabo de inventar faz menos sentido que citar Shakespeare numa loja onde as pessoas pagam pra ser doido.

RSPCA é uma fundação que ajuda os animaizinhos desse mundo todo.

“The RSPC as charity will, by all lawful means, prevent cruelty, promote kindness to and alleviate suffering of animals”

We need volunteers and donations!

Visitem o site:

http://www.rspca.org.uk/

Una Paloma baila en el aire

Thursday, October 1st, 2009

Alguém já provou a sensação de poder voar? Como muitas crianças, eu também já vesti minha capa de super herói,ou melhor, um lençol roubado de uma cama grande demais para um corpo infantil. Algum dia desses da minha infância eu tentei voar e saí arrastando um lençol  (como se fosse parte do meu corpo, uma calda longa…) pelo chão do corredor até chegar à sala e encarar o sofá - aquela nave estática instalada no meio do salão enfeitado de criaturas desconhecidas: as mesmas que  apareciam no meu sonho como se continuassem a existir na minha memória, na minha invenção.

Ainda dá tempo de desistir!

Ainda dá tempo de desistir!

Naquele espaço, onde tudo parecia real demais, tinha a tv ligada, o jornal da noite, as notícias que não me atingiam, o telefone, minha mãe preenchida com seu trabalho, com ser mãe, mulher, persona, meu irmão agitado, correndo, a hora de tomar o café, cuzcuz com leite ou carne desfiada… eu até comia, mas parecia uma refeição pesada demais para quem precisava logo, logo voar….

Mas, minha ansiedade havia de digerir, e o meu corpo havia de se adaptar às coisas terrenas…ao sal, ao movimento da casa, o fato de ninguém sequer desconfiar do poder daquele lençol flutuante;ou porque ninguém enxergava as minhas asas aveludadas, minhas pernas de réptil, velozes e àsperas, prontas para saltar no ar e meu instinto domesticado…Não podia me permitir avançar tanto, já me bastava o ar…

Preparavoar!

Preparavoar!

Mas, finalmente sobrava espaço nas minhas entranhas, o passo ficava mais leve. Então, eu subia no topo daquela montanha já nem sentindo vontade de correr; ia caminhando, adestrando o bicho faminto da ansiedade para que o coração se convencesse de que a aventura havia sido adiada. “Fica calmo, coração de lata”, e até parecia nem bater;parecia, sim, um pano amarrado dentro de mim, envolvendo uma semente granulosa - parte de um coração de criança… “o coração da criança está todo no seu sorriso”,alguém que me sussurrou ou ouvi isso em algum lugar? Ou já me sobra memória nesse momento pra tanto voar, tanto bater de pernas, tanto corpo, tanto desafio à gravidade, tanto querer se expandir….

Vai, acontecer, falta pouco. A montanha nem parece tão alta como pensei…E terá alguém à minha espera, o que me deixa tranquila. Porque quando o corpo se jogar e a emoção se desintegrar no ar…quem será testemunha? Porque quando eu voltar do céu, aquele céu que eu sonhei, eu não serei mais a mesma…Eu voltaria uma pessoa descamada…de dentro pra fora, do outro lado; depois que tocasse nas nuvens de porcelana, do que me pertencia antes só restaria o meu nome:paloma, feita de asas…

Que aventura!

Que aventura!

E  quando chegasse o momento e eu desejasse voltar correndo pro chão,onde os meus pés só andaram por pura conveniência, eu saberia dizer, com a cara mastigando uma adrenalina consumida, eu diria com compaixão e um nervoso sabotado: “Hoje eu descobri que todo esforço em manter-me fixa foi em vão”…Não existe nada mais puro e violento que a liberdade de flutuar no ar…eu talvez não possa compartilhar esse segredo com você, mas eu posso voar…“mas,qual é a sensaçao de voar, me diga?” É como sentir o mundo ao revés, eu não saberia explicar, é tão violento que o estômago se contrai e revolve por completo, depois o corpo produz um desejo incontrolável de subir até o mais alto que puder e lá de cima os olhos se surpreendem de nunca terem visto, até então, paisagem igual; até mesmo a forma como vemos as coisas mudam, lá de cima tudo parece pintado com detalhe e desconfio que todos os grandes pintores são aves em segredo. E o vento é tao forte que faz o sorrirso gemer num desespero frio e irradiante.

Todo o rosto se remodela, o sorriso corre por toda a cara (eu mesma o senti no meio da minha testa)… depois de um tempo quando o corpo todo se inverte e se acostuma com toda troca, com a mudança do orgãos, dos sentidos, vem uma sensação plena, um gozo tão duradouro que a gente pensa ser prazer, mas é apenas vibração. Em seguida, vem o pavor de tanto sentir e o corpo inaugura uma calma…Só assim eu poderia explicar o meu nome, e o meu coração enlatado, porque, sim, meu coração também saltou pela boca e se perdeu no ar! Somente assim, você que já tentou voar comigo, meu irmão, vai entender os meus sonhos no meio da noite, o pensamento longe, os meus pés tocando cada vez menos forte no chão, a minha vontade de pássaro…

Voando cada vez mais alto...

Voando cada vez mais alto...

P.S. Eu dedico esse post a Sam, que me deu de presente (aniversário de dois anos) o poder de voar, ou pelo menos o poder de experimentar, por um momento, essa emoçao. Me deu de presente o que pertence a mim, pelo que me identifica: una paloma, como já me disseram tantas vezes, assim como “yo”, nasceu mesmo pra voar…

…e tomar conta do mundo lá de cima…

Todo meu amor.