Tempo lento…

Salvador Dalí

Dá para derreter o tempo...

“Certas vezes nós devíamos ser  aconselhados a não sair de casa”, foi o que ela pensou nas últimas horas do seu dia. E não pensou que fosse preciso consultar os astros, horóscopo, não. “É assunto do ministério da saúde mesmo”, pensou com a  cara fechada pra ela mesma, enquanto passava o ferrolho na porta.

Ela devia ter ouvido aquela vozinha lá dentro, “Não sai de casa, criatura. Hoje vai chover peixe”, como no livro daquele escritor japonês que ela leu há algum tempo. Mas, inventou de seguir aquele caminho de folhas mortas no chão, por onde o vento passa preguiçoso, arrastando uma sujeira peneirada..

Correu pra não chegar atrasada, como se marcasse ponto, mas onde trabalha não marca nada, só as roupas que saem, as roupas que entram…

Ela não teve nem fôlego para dizer boa tarde, estava cinzamente calada. Mas, se deu conta de que tinha chegado duas horas antes de começar o trabalho. Sempre chegava adiantada nos lugares: ela já chegou um dia antes para uma consulta com o oftalmologista, que deve ter pensado que  a pobre não enxergava bem as horas, as datas, os dias…

“Quando chove assim, eu preciso comprar um livro. É como falar com alguém”. Foi aí que ela decidiu aproveitar o tempo livre e passar numa livraria para arrumar conversa. Acabou comprando um livro de jazz, depois decidiu estender aquele papo pra um café ali perto, ai, como a “solidao rende assunto” e almoçou naquele bar que se orgulha do seu serviço cronometricamente demorado – porque foi assim que ele se tornou popular.

Se chama Café Lento, nome que não representa nada para qualquer cidadão inglês, mas para ela, defensora dos pormenores,lento é como uma tarde de sol deve ser, como uma brisa num dia abafado deve existir, como deve ser o tempo dedicado aos pequenos prazeres.

Para ela, sim, uma lentidão de café, um grão de tempo na sua vida pra que ela pudesse mudar as coisas que a incomodam nesse momento: a chuva, “ai que tema constante na história da minha vida”, os dias que agora encurtaram… “amanheceu e estava escuro”, lembrou. Olhou pela janela aquele mundo emparedado lá fora, tombou e voltou a dormir; chegou em casa às cinco e meia e já estava escuro novamente.

E chovia,claro. Ela detesta os dias de chuva porque quando chove as pessoas emudecem, ficam pálidas. E não tem quem aguente a cidade em silêncio. Nenhuma buzina, os carros passam como se fossem feitos de papel. A cidade é um cenário. “Veja aquele senhor de cara torta, com a boca toda engolida”, observou.

Mas, o que mais azucrinou a sua cabeça é que ninguém chegou pra ela e disse: minha querida, fique em casa, porque sendo assim você não terá sua bicicleta e seu celular roubados, não vai quebrar aquele vaso que você comprou, quando corria cega no meio da chuva, não vai chegar em casa e notar que tentaram entregar aquela encomenda que você tanto esperava, nem vai ter que limpar nem chorar o café derramado.

Não deu tempo, “já basta”, ela pensou enxugando a raiva. “Passou, vou tentar ler o livro de jazz”. Com que cabeça? E volta tudo outra vez. Ela no café lento, de frente pro balcão, “hello, alguém aí?”, no lento espaço, com um dono, que sempre muito etéreo, parece ter vindo de um mundo onde as pessoas se rastejam. Dessa vez ele surgiu de cima do teto, desceu a escada com um vigor fugaz e ela se assustou: “ai, nao tinha visto que você estava aí em cima”, disse com uma naturalidade de quem bate na porta de um amigo pra pedir um pouco de café.

E o dono como se não ouvisse, soltou um Good morning, may I help you?, meio decorado. Ela só queria paz para ler o livro e tomar um café. Aliás, foi atraída pelo ambiente daquele café (é assim que eles chamam aqui, vamos num café? pra tomar café) agradável, cool. Mas, fazia barulho demais, a música era brasileira, um trio mocotó, parapapá,ela achou que conhecia esse grupo quando o dono falou. Trocou o café por  algo leve,e comeu uma salada, como sempre.

O dono lhe perguntou onde havia comprado aquele livro que ela segurava com tanto prazer. Ela respondeu com entusiasmo, “ah, num sebo!”, e descobriu que uma banda de jazz ia tocar na próxima sexta, naquele café lento. Depois da conversa veio a bebida,uma coca-cola diet sem gelo, porque já basta de frio. No final das contas não deu tempo pra ler nada. Só deu pra sentir a demora com que ela passava cada página, folheando, tão lenta que se achava naquele momento, sem nada que lhe desse conforto.

Comeu sua salada sem ritmo. Será que faz mal ter tanta pressa? Faz mal é tardar pra entender as coisas da vida…Faz mal é querer fazer algo e se sentir envergonhada. Mas a lentidão também prejudica, se apressar pra chegar no fim do caminho, não ter calma pra deixar que as coisas se esclareçam por si mesmas,” mas em que cadência a minha vida se encontra?” Ela fechou o livro, se encolheu de frio e foi embora. Quase derruba o copo da mesa, “odeio esses dias em que acordo com a mão torta”, resmungou. Quase deixa o casaco na cadeira, por um segundo, e voltou para buscá-lo. Abriu a porta, levou um vento na cara, lembrou que a chuva não dá uma folga.

“O tempo só pode existir em funçao da razão, mas a loucura derrete o tempo”…foi o que ela pensou plana e adocicada. Ia chegar tarde ao trabalho, mas se sentia o coelho do mundo de Alice ao revés, sem relógio na mão e sempre dizendo, “não tenho pressa, não vou perder nada”. Nem se importou com conferir a hora, e só pôde lamentar que ainda não lhe tivessem roubado todo seu tempo….

Life moves pretty fast. If you don’t stop and take a look around once in a while, you could miss it.


O Café Lento existe, sim, lento e filsófico.

Fica na rua 21 North Ln, Headingley,

Leeds, LS6, United Kingdom.

www.cafelento.co.uk


One Response to “Tempo lento…”

  1. sonia pedrosa Says:

    uau….!

Leave a Reply