Encontros e contratos
Sempre imaginei como seria um encontro com um escritor famoso. Não me refiro a um encontro formal, por detrás de páginas de livros autografados, ou de frases soltas roubadas numa entrevista. Mas, um encontro de ombros lado a lado, com pausas na caminhada, com pétalas e páginas, numa tarde de outono vendo as folhas que caem do céu e voam como pássaros quebrantados.
Já tive o sonho de conhecer Clarice Lispector, de abraçar Drummond,ou de recitar um poema com Manuel Bandeira, “Parságada, meu caro, é para lá que todos irão”. Já desejei,de verdade,tomar uma dose de haikai com Paulo Leminski, entrar na cabeça de Lewis Carroll, dar um passeio no submundo de Dostoyevsky, ler bem alto Um amigo de Kafka,de Isaac Singer, e recuperar a esperança na vida, com as páginas de uma nova história ondulando na palma da minha mão, como um corpo avançando o mar, desafiando as ondas, sua força insípida.
Ah, sim, todo leitor tem um sonho de salvação, um desejo de encontrar a verdade. Todo leitor se arrepia com a intimidade que se estabelece, às vezes promiscuamente, com o seu escritor favorito. Que leitor não leu Nelson Rodrigues e se olhou no espelho, com aquele olhar sem pudor que prevê uma fatalidade? Que leitor nunca criou uma ligação infinita com o seu escritor preferido,já se sentiu entendido, enfeitiçado por uma verdade que às vezes só existe na imaginação do próprio criador? Quem nunca se envolveu e se deixou seduzir por uma história? Eu mesma chorei de raiva quando o escritor misterioso do A noite do oráculo, de Paul Auster, decide trair sua mulher.
A ilusão é o contrato entre leitor e escritor; no momento em que o leitor abre o livro, lê a primeira página, ele se entrelaça no mistério da vida, é como dar as mãos a um estranho que parece nos conhecer tão a fundo, daquela maneira de se conhecer alguém escancarando as portas.
Eu já aceitei esse convite tantas vezes. E até já ouvi histórias de leitores que deram mais que um pedaço de carne, venderam a alma. O meu primeiro encontro violento aconteceu há muito tempo, com Clarice Lispector. Quando eu a lia, eu tinha vontade de chorar, amarrada que estava à sua essência, violada pelo desejo de ser Clarice.
Mas, haviam muitas Clarices espalhadas. Aos poucos, eu entendi que existia um sentimento de Clarice em muitas mulheres, muitas a sentiam na pele, e eu achei que fosse apenas mais uma leitora - mas uma leitora de olhos desconsolados e tímidos.E com uma felicidade de ombros encolhidos. Amo Clarice,mas quando leio (ou releio) os seus textos, eu sou a mesma, ela só me empresta os seus olhos. E depois saio livre e cega pra minha realidade.

Mas, existem os encontros inocentes (ou não). Um dia meu irmão trouxe da biblioteca o livro As meninas, de Lygia Fagundes Telles, e eu soube que ali estava a minha salvação.Não tinha idéia do que me salvava, se do tédio dos meus 17 anos, ou da ansiedade de crescer e avançar para o mundo. Desde a primeira página eu sabia que aquela leitura era especial, uma certeza borbulhava dentro de mim.
Durante alguns dias eu fui uma das meninas de Lygia, eu contei com elas, eu escrevi do jeito que elas falavam, a gente se entendia muito bem…Até que eu terminei o livro, mas foi um término contente…Eu continuava a menina dentro das meninas…Depois, o meu desejo foi ler mais dessa escritora, que conta uma história de uma maneira tão especial que a gente se belisca para sair da pele do personagem.
Eu nunca pensei em conhecer Lygia Fagundes Telles, pra mim já me bastava a força com que atava minhas mãos às dela. E tinha sempre uma efipania de um conto seu, que pra mim era um conto verde, de purpurina, de uma alegria desesperada que só existe no carnaval…
Eis que um dia esse encontro chegou e eu nunca soube como escrevê-lo e talvez até tente outros rascunhos. Foi na primeira edição da feira literária de Paraty, no Rio de Janeiro, a hoje conhecida Flip. Na época eu era estagíaria de jornalismo, ansiosa e insegura. Pedi pra trabalhar na Flip na cara de pau e eles aceitaram, me deram crachá, acesso à sala dos jornalistas, computador, etc. Me facilitaram entrevistas com alguns escritores, como Marcelino Freire, coletiva com Paul Auster, etc…Mas, eu queria entrevistar Lygia, ela sim.
Numa tarde fresca em Paraty, eu saí em busca da autora de Ciranda de Pedra. Levava debaixo do braço o seu livro mais recente de contos, que eu queria ver autografado. Uma mulher me levou até o hotel onde ela estava hospedada. Numa das ruas de pedras de Paraty, de frente para um portão de madeira,eu a esperava, debaixo de uma chuva fina, com meu coração grosso, quente e palpitante.
Depois de uns minutos, Lygia apareceu acompanhada do seu acessor, muito elegante, como se saísse de um lugar onde o tempo não existisse. Surgiu como a responsável dos meus dias serenos de leitura, de felicidade embevecida; como dona da minha lucidez àquela idade, surgiu a escritora.
Lygia me cumprimentou muito simpática, suas palavras tinham perfume. Disse num tom familiar que Paloma era o nome da namorada do seu filho, Paloma Rocha, e me senti gêmea dessa outra, um pouco sua nora também.
Ela tinha um objetivo àquela tarde: encontrar um cachorro (vi muitos perambulando pela cidade) para dar –lhe um bombom embalado em papel celofane verde. Lygia me deu sua mão e saímos de braços colados, caminhando em busca do destino esverdeado. Ela não queria dar entrevistas. Queria uma companhia sincera. No meio do caminho uma bandinha atropelou nossa caminhada e Lygia aplaudiu aquele mini carnaval. Andávamos sem pressa.
Lygia autografou meu livro, escreveu uma mensagem linda. Tive a impressão de que entramos num laberinto, que era um sonho, tão absurda e feliz que me sentia. “Eu preciso registrar isso, tirar uma foto, senão vou achar que é sonho”, pensei o caminho todo. E olhava de relance para ela, presa ao meu lado com suas mãos de laço.
Nas noites da minha infância quando eu dormia com minha mãe, só conseguia pegar no sono se segurasse bem forte as mãos dela, para que ela não me escapasse. Mas, eu sempre amanhecia solta, sem minha mãe ao lado. Quando eu dei mão e braço à Lygia, eu senti o mesmo medo infantil de acordar no dia seguinte para um mundo sem proteção.

October 28th, 2009 at 03:12
Belo belo bambina mia!!!!O final arrasador…Vá em frente ,só quero isso…persistencia!! Vc realmente é minha escritora linda , meu sonho realizando-se …..Bjs Mama
October 28th, 2009 at 11:36
Menina!!! Vc é um susto!!!! Vou copiar para o meu blog!!!! Lindo demais…. me emocionei, viu?!
Domingo passado assistimos a uma peça que falava de um encontro entre uma leitora e um escritor, num trem pela Europa. O texto é meio praco, mas a situação era ótima, o cenário lindo e os atores…. Paulo goulart e Nicete Bruno. Adorei!