Archive for November, 2009

Não sei se caso ou se aceito a máquina de costura

Wednesday, November 25th, 2009

Que diacho que eu tô fazendo aqui? Ah, o nome disso é brogue, é? Tem até brogue depois que meu dinheiro se acaba!E quem é que vai contar essas histórias bunitas? Sei. Num tenho muita segurança nisso não, viu?Já vou dizendo. E então minha vida vai ser púbrica, é? E o povo vai ler, botar o dedo e dizer baboseria?Arriégua! Isso é que é coisa de outro mundo. Como é que faz pra sair daqui? Como é que diz? Com um cric? Já prestou!

E o povo vai ler tudo de mim? Deus é mais! E se num gostarem, vão sair por aí dizendo tudo que é palavra mau de mim? Sei não, tô meio desconfiada… E tem o tal de interneute, que tem um monte de coisa que não presta, vai espalhar conversa sobre minha vida…

Num sei não…a menina até explicou tudo diretinho, mas deu vontade de chorar, quanto mais ela falava mais sentia um nó na garganta. Não dá pra entender essas coisas não, rapaz! Cê besta! Mas cá entre nós, essa moça disse que eu tenho muita história pra contar. Cismou que é pra eu contar tudo, de bocadinho em bocadinho. Me apresentou esse tal de brogue e disse que num se preocupe que vai ficar bom. Sei não, tô achando que ela nem sabe o que faz direito.

Certa vez gravou um monte de história minha, diz ela que era pra um trabaio, sei não… Me pintei, me vesti cor de vinho, batom vermeio na boca, e era só pra falar de mim…Falei um pouco acabrunhada porque quem não tem vergonha de falar da própria vida? Só os sem-vergonha mesmo.E agora ela quer saber tudo de novo, a bunitinha. Sei não se vai dar certo. O povo dos brogues pode num gostar. Mas eu vou começar, não tem essa não, por apreço que tenho por ela, Janaína menina.

O probrema é que nem sei por onde começar, ela que é letrada que vai aparar minhas idéias, né? Então, vou falando que nem papagaio pra ver se aclara na lembrança alguma coisa de valor. Ela disse “comece falando da sua vida de casada”. Arriégua, pra quê? Deu uma amargura no peito. E minha vida de casada vai prestar pra esse mundo? Pois já prestou. Ela disse que sim, então eu comecei. Primeiro eu disse assim olhando pra câmera, né, com meu cabelo arrumado, eu disse meu nome, Luiza. Mas tava sem um pingo de graça na cara. Tava meio boba, não é fácil falar assim da gente mesmo não, rapaz. Mas, ela disse que o importante era contar uma história. Ai,ai,ai,a coisa já teve boa!

cruz

Pois eu disse que casei com uma criatura que Deus é mais, que me maltratou muito. Antes de casar mãe perguntou “cê quer casar ou quer uma máquina de costura?”Acho que já sabia que uma máquina de costura ia me fazer mais feliz que essa desgraça de marido que apareceu na minha vida. Pois eu tava cega, disse que não. Na época eu pensei que era melhor casar com um marido do que com uma máquina,né?

Mas, se hoje tivesse com a máquina ia ser costureira, né? Não ia ser ter sido mulher de coisa ruim. Casei virgem, na igreja, enamorada.Mas, olhe, o casamento num teve jeito. O homem era brabo demais, me batia, era um cão evenenado de ódio. Bebia que nem a besta fubana, e saia desbestado passando por cima de todo mundo. Eu não aguentei não,fiquei infeliz no amor,porque muié que aguenta essas barabaridades de um homem é porque tá doida ou tá precisada mesmo. Precisada de um macho. Mas quem quer apanhar a vida toda?

No dia que fiquei viúva eu abri as portas da casa, pra entrar um vento, refrescar o juízo.Levei a cama pro meio da rua, a cama que a gente dormia, e quebrei a ela todinha com uma pauladas sufocadas, tac,tac, tac. Queimei o colchão, marcado com as feridas daquele amor bandido,fiz fogo, fogueira e cinzas daquela história. Ai, mas me deu um alívio tão grande, que cês nem sabem, viu? Vortei pra dentro de casa sem cama e sem colchão, e sem amor, onde já se viu? E onde ia dormir aquela noite só Deus sabia. Olhei pro retrato da minha mãe santinha, no cantinho da parede e pensei, que sabedoria que uma mãe tem. A coitada parecia saber da minha infelicidade, que casamento é coisa que preste, rapaz! É por isso que muitas muiés se tornam costureira, logo entendi. Pra se livrar dessas desgraças da vida.

Acendi uma vela,olhei mais uma vez pra minha mãe, com seu rosto de papel, seu sorriso fraco na foto, e fiquei pensando nela a noite toda. Dormi um sono de bêbado, trocando umas palavras no meio da noite,sabe lá Deus com quem. Acordei no outro dia toda mambulada, fraca das idéias. A minha desgraça era ser viúva de marido ruim, sem colchão pra esquentar,sem nem ter uma máquina pra costurar as feridas daquele amor.

Para os amigos que virão…

Wednesday, November 18th, 2009

Amizade é...se assemelhar ao outro, sem deixar de ser diferente...

Amizade é...se assemelhar ao outro, sem deixar de ser diferente...

Sábado passado eu fui a um café em Headingley, bairro jovem de Leeds, onde a maioria dos estudantes se concentra.Pedi um café, que veio com cara de chuva, aguado, sem aroma - e como um café sem graça me faz perder a esperança…Mas, o importante naquele dia era sair de casa, ver gente na rua, me sentir menos bicho…

Ao meu lado duas mulheres jovens – uma delas com um bebê no colo – conversavam de um jeito manso que as pessoas adquirem no frio.Falavam um espanhol macio, que demorei a entender pela mistura de sons, máquina de café, os passos da chuva na calçada e a música de fundo embalando a tarde daquela petite cafe-gallery.

Sentei num sofá em frente a elas, de um jeito que podia observá-las fingindo vigiar o movimento na rua.Poderiam ser irmãs ou primas,pensei, pela semelhança física: as duas tinham pele clara, cabelo escuro,sorrisos de gengivas.Talvez nem parecessem tanto,repensei, mas podiam ser exemplos desses tipos de amizade onde um se assemelha a custa da outro.

Eram duas amigas que se encontraram para aproveitar uma tarde de chuva aquecidas por um café. Existe algo mais simples que dividir uma tarde dessas com uma amiga? Para mim, que ainda não encontrei essa metade apesar de morar aqui há mais de um ano,era tão simples quanto piegas. Olhava de relance, disfarçando uma minha ligeira comoção, folheando um livro que alcancei na estante ao meu lado - não podia passar a tarde contemplando duas amigas na chuva.

Houve um momento de silêncio, interrompido em seguida pelo choro do bebê, sendo consolado não pelos braços maternos, mas pelos da amiga, dona de uma confiança exalada. A outra, com olhos de intuição, parecia saber que diante dela havia uma grande mulher, uma confidente e protetora que podia acalmar não apenas o seus choros, mas o choro da sua própria cria.

De repente,a criança parou de chorar e voltou para os braços da mãe.

É tão forte essa relação entre amor e amizade. Ter um amigo é provar uma das experiências que o amor oferece.Todos os amigos verdadeiros mereciam uma carta de amor, uma revelação sincera do que significam nas nossas vidas.

Eu sinto falta das companhias sinceras, uma falta que me faz emudecer diante de desconhecidos que andam lado a lado e se olham com gosto de não se soltarem nunca; dos que riem com a graça do mundo, que se abraçam e se misturam em carne e osso, sem medo de apertar; ou diante de um simples encontro cara a cara, um mexer devagar na xícara, adoçar o café, olhar pela janela e sentir ao lado uma testemunha da sua vida.

Confesso que com um pouco de preocupação, admirei a calma e cumplicidade entre as duas mulheres. Não queria ser uma delas, queria ser amiga das minhas amigas, as que se assemelharam a mim pela convivência.

Entre um gole e outro de café, me senti tão ingênua na minha esperança, folheando páginas de sonho, acalmada por uma idéia de falsa comunhão.Quem sabe eu até me se senti uma amiga de tantas outras que entravam e saiam donas dos seus segredos?..

Sem querer deixar o lugar antes da dupla de amigas,passava as páginas com mãos de caramujo, devagar e profunda, mas pronta para voltar à realidade.Chovia como sempre e decidi ir embora. Não queria me sentir evasiva,viver num mundo de ilusoes cansa…É mais consolador ser sentimental, mas o mundo não está pra poesia ultimamente.

Me recompus, ajeitando a realidade como se fosse uma moldura torta, e me vi sinceramente com uma nova esperança.Os amigos distantes seguem eternos e frequentes, sei que posso contar com eles. Os futuros amigos surgirão de alguma parte como se tivessem cansados de me esperar. E vai existir pelo menos um, que eu possa contar de verdade, e que acredite em mim com uma confiança uterina, como quem acha na multidão um correspondente consanguíneo.

Nossso destino é a Muralha da China

Wednesday, November 11th, 2009

No dia que eles se conheceram ela estava decidida a viver uma história de amor. Ele nem parecia o tipo de homem que ela buscava, tinha cara de aventureiro, sem predisposição para amar, tinha cara de quem nunca se apaixonou. Mas, no dia que se conheceram ela havia decidido viver a sua história.

Dois anos se passaram, entre brigas, promessas de vingança, voltas turbulentas. Ela não sabe o que aconteceu. Mas que espécie de relação era aquela? Nunca se sentia confortável consigo mesma, nem pra dizer o que pensava, ou como se sentia.

Separaram-se no dia que ela descobriu que ele tinha outra, “mas logo ele que não tem aptidão pro amor”, agora surgia entregue a uma outra paixão, e o que mais doía, parecia haver descoberto o amor.

“Quantas vezes implorei pro sacana me escrever uma carta de amor”, jogou sua decepção pra fora. Ele sempre respondia com uma palavras amassadas, sem nem pronunciá-las direito, que não precisava declarar seu amor, nem escrever carta nenhuma, seu coração era um livro aberto.

“Uma mulher pode ser romântica, mas um homem, nossa, consegue ser de um jeito tão brega”, esbravejou.

Rasgou aquela carta, que ela encontrou foçando nos papéis dele. Uma carta de amor feita por ele, com sua própria letra, com seu próprio sentimento.

Não demorou para que caísse uma chuva de gritos no telefone.

“Você não podia ter feito isso, mexer nas minhas coisas”.

“É uma carta de amor. E não deve ser para mim porque eu não tenho um sorriso doce.Quem usa aparelho tem um sorriso acre, de grampo mesmo”,disse irônica.

“Sei. Seu sorriso é diferente mesmo”, ele rebateu num tom de deboche.

“É, acabou-se o tempo dos sorrisos poéticos entre nós dois”, falou sem medo de ser ridícula. E completou: “Mas, sabe o que me deixou mesmo intrigada?”.

“O quê?”

“Fiquei preocupada com você. Onde você conheceu essa garota.Olha, pelo nome dela, Aretuza, se eu fosse você dava uma conferida antes de se envolver…isso é nome de pu”…

Ele desligou o telefone. Ela ela saiu correndo da casa dele, se desmanchando na multidão, sentindo uma dor plácida crescer dentro dela até se transformar num sofrimento tão febril que lhe desbotava a cara.

Se sentia tão violenta,dona do seu sofrimento, não tinha sossego. Entrou no ônibus e passou a encarar todas as pessoas,ao seu redor, com um olho grosso de raiva, mostrando seu abandono. Olhava para as pessoas com tanto desprezo, como se no meio delas tivesse encontrado a responsável pela seu dissabor.

Picasso

“Ele fez uma carta de amor”, rangeu os dentes, se tremendo toda. E seguiu:“quem diria depois de dois anos o que eu ia receber? Uma carta de amor!”, riu desgarrada no meio de tantos rostos cansados.

Desceu do ônibus complacente, já dona do seu próprio desconsolo.Caminhou com seu corpo desossado, molengo, se arrastando pelas paredes, levando um pouco do mundo consigo, pra não chegar em casa tão vazia…

Parou um momento no meio da rua e falou sozinha, enrolando os fios de cabelo demoradamente, com dois olhos perdidos na calçada, como já num estado avançado de aflição, desbotou-se e chorou derramada na própria agonia.

Como é que se cura uma dor dessas? Porque dói tanto?, pensava.

“Filho de todas as mães, por isso que ele estava assim todo estranho…”, pensou azeda. “Bem que minha mãe dizia, quando um homem anda meio calado, pensativo…se não quiser se magoar, não faça nenhuma pergunta”, repetiu com o tom de voz de alguém mais velho.

Mas, ela fez. E ele disse que não a queria mais. Não me quer? E ela murchou, como uma flor tirada no asfalto. Mas uma flor sem poesia. Ele não queria mais se envolver. Por que?

“Porque você é muito simples, quer casar, ter filhos. Como você existem muitos por aí. E você vai encontrar outra pessoa logo,logo, porque você é tão docemente fácil”, ele falou sem piedade.

“E você?”, ela perguntou sofrida.

“Eu quero outra vida. E recebi uma proposta. Viajo no próximo mês”.

“Pra onde? Com quem?”, perguntou já sem medo de se magoar.

“Viajo pra China, sozinho,e vou passar um ano”.

Foi aí que ela se apagou de vez, o que restava de mulher diante dele se desvaneceu. Sua voz foi afinando até se atracar com um nó na garganta, que ele segurou até que chegar em casa…

Chorou tanto, um choro ardido, que  seu rosto brilhava. Ligou várias vezes, para o celular, para casa, mas ele não atendeu.

Até que horas depois bateu na porta dele, com uma voz rouca, e uma pele manchada de choro, com placas vermelhas…

Naquela noite discutiram mais uma vez, e sem ter encontrado ainda nenhuma carta, fez a pergunta que todas as mulheres fazem nessa hora: “é outra?”. E ele como se já esperasse negou, como um homem de verdade negaria, e mudou de assunto.

Ele teve que sair para trabalhar. Deixou– a dormir na sua casa aquela noite, sem problemas.

Já era tarde, ele tinha que cumprir o turno da noite e não tinha pena. Que ela dormisse seu sono infeliz, com tanto que não ficasse no outro dia pro café da manhã.

Nessa noite ela encontrou a carta e voltamos ao começo. Além disso, encontrou a foto da dona da carta. Uma mulher mais nova, loira, “sem graça, de cabelo lambido”. Na foto os dois estavam abraçados, e o mais triste foi constatar que eles pareciam donos de uma felicidade que ela nunca experimentou ao lado dele. Era uma abraço de quem esqueceu da solidão.

Ela leu a carta, e achou a letra dele infantil,de quem nunca se aventurou muito no amor. Mas,não era uma simples carta de amor, era uma declaração a si mesmo, como se agora sim,ele houvesse constatado, que o amor, o verdadeiro amor, existia.

Ela ligou pra ele em seguida. Depois de discutirem durante uns quinze minutos, ele a expulsou de casa.

Quem disse que ela saiu? Passou a noite como um bicho estranho, se rastejando pelos cantos da casa. No dia seguinte, cedinho, se levantou como embriagada pela noite de excesso que passara e saiu como se tivesse invadido aquele apartamento, sem deixar rastro. Não deixou recado na geladeira, nem cama desfeita.

Ajeitou a cozinha, o sofá, trocou a toalha suja do banheiro, exercendo sua última função de companheira daquele homem, um pouco de mãe,dona do lar, mamífera, mulher.

Quando saiu à rua, disparou uma revolta grande, corpulenta. Saiu atirando tudo que via pela frente, chutando lata, garrafa, parecia um furacão humano, perturbando as primeiras horas do dia. Eram quase seis e meia da manhã e ela teve que enfrentar um ônibus lotado.

“Ah, eu mereço descobrir uma traição e ver tanta gente de uma vez só!”, gritou como que esfomeada. Tinha fome de que a notassem.

E foi sem pudor que disse a si mesma, “não quero saber de amar ninguém, homem gosta de vagabunda mesmo!”

Entrou no ônibus chutando o ar. Teve raiva de ver o cobrador contando dinheiro, “aí, todo sentado, tranquilo”, da velhinha que se equilibrava nas curvas, “aí, essa toda desequilibrada”, gritava como se quisesse arrumar confusão.

Talvez ela até tenha recebido uma carta de amor alguma vez, mas não lembra de ter sido amada. Amada do jeito que ela queria ser, como uma maneira de se aceitar. “Ninguém nunca me amou, nunca”, falou com uma criança ao seu lado.

Estava de um jeito que era mais fácil consolar uma pedra. Muda de raiva, não podia lembrar daquela foto, das palavras de açúcar, da paixão de cachorra louca que sentia por ele.

“Quero matar aquele safado!”, rosnou com um bafo de fera.

O ônibus parecia mais apertado e ela se encolhia de dor. Mas de repente, se deu conta que a dor  mais aguda era recordar que ele ia pra China, com amor, com carta– era a ida à China e todas as esperanças estavam mortas.

Minutos depois, uma idéia pareceu iluminar seu rosto. “Quando os amigos perguntarem eu vou dizer que a gente acabou por uma carta de amor”,pensou.

“Uma carta de amor? Mas eu pensei que toda mulher gostasse de receber uma”, perguntou uma amiga, intrigada.

“Pois é.As mulheres estão cada vez mais exigentes, né? O cara chega citando  Camoes, e a gente não tolera mais, né?”, disse irônica e um pouco louca, depois da quarta taça de vinho.

Ela sabia que alguns relacionamentos vão se acabando aos poucos, tão lentamente como se cada um construísse pedra por pedra esse fim.

E é que existem finais que parecem mais extensos que todo o caminho que um casal percorre junto, “alguns finais não têm atalho, são longos…e o destino do nosso fim, cá entre nós, era uma Muralha da China”, disse com sua voz ébria, com essa mania que tinha de falar quando já ninguém mais a escutava…

** Pintura : o beijo,Picasso.

Bono, o cachorro com alma…

Tuesday, November 3rd, 2009

Eu sempre gostei de cachorros por eles serem espontâneos, dispostos e positivos. Já com gatos  eu nunca simpatizei muito. Gato se assemelha muito à nossa raça, atua como leão dominando o seu território; é curvado, imprevisto, rodeia muito para dizer o que quer, é introvertido, anguloso e tem uma fisionomia impassível, que a gente encontra em certas pessoas, com dois olhos que não dormem.

Acho que não confio nos gatos porque eles guardam esse ar de mistério, são interesseiros e não sabem agradecer um carinho. Os cachorros, não, têm olhos de doar. Se aproximam mesmo quando não são chamados e sorriem, sorriem sempre.

Eu nunca tinha me dado conta, até o dia que uma amiga me mostrou que seu cachorro pequeno sorria. Eu olhei pra ele com o sorriso lá dentro de mim e constatei mais tarde: não é que ele sorria como quem ri pra se esconder da tristeza?

Um dia meu pai inventou de arrumar um novo cachorro para fazer companhia ao mais velho que tínhamos, Puppie. No dia que Beethoven, como assim era chamado, chegou lá em casa, eu esperava ansiosa por um dálmata, quem sabe um labrador…

Mas, que nada! Aquele cão, batizado no Campo da Vila, no interior de Sergipe,não tinha nada que lembrasse a elegância desses cachorros que passeiam com seus donos pelos parques. Ele chegou afobado, com nâuseas que o deixaram com um aspecto torpe de pessoa embriagada, com um pêlo sujo e afiado, um cachorro-espinho.

Tinha um pêlo meio grisalho,apesar de ser muito novinho, e aparência de um homem de barba mal feita entregue à sorte. Andava com suas patas cambaleantes e equilibrando o sorriso no rosto. Ele nos olhou, balançou o rabo lento, como se nos cumprimentasse por educação, parecia cansado, de um cansaço triste, pela viagem longa demais, pelo vômito, pela mudança de lar…

A gente o levou até o jardim, se me lembro bem,a contragosto.Ele parecia feio demais, magro demais, cinza demais, cachorro demais. Vinha um, vinha outro,olhava para ele com um olhar de gato e o depreciava…”ai, tadinho…feio, né?” Mas, ele como que já recuperado da sua ressaca, não se intimidava. Pelo contrário, sentou-se no chão de pedra seca, se esticou e balançou o rabo, feliz, como se ignorasse o que dizíamos. Depois fez um pouco de graça, se levantou, lambeu, chegou mais perto, parecia uma pessoa que, cansada de sofrer, decidiu transformar ofensas em carinho.

ME LEVA PRA CASA?

ME LEVA PRA CASA?

Nessa mesma noite eu o batizei Bono e ele aceitou o seu nome como se soubesse que era bom de verdade, um cachorro com alma.

Com o tempo eu passei a amar aquele vira-lata de pêlo amassado, um feroz exíguo, meio atrapalhado, que dava saltos treinados no ar, malabarista, e eu passei a chamá-lo de cachorro de circo.

Um dia eu descobri que Bono não era apenas um cachorro que ria estático, que corria atrás de quem passasse na rua, guadião da nossa casa; ou aquele que cativou nossos coraçoes. Ele era tão confiante e audaz (se atreveu a fazer xixi nas minhas costas duas vezes!) que tinha certeza daquela conquista…e devia debochar das nossas visitas ao passado:“Ah, não, eu nunca disse que ele era feio.Mas, em compensação, todo mundo disse”…

Bono tinha uma alma em segredo, que vigiava os sentimentos de quem frequentasse aquela casa. Eu tinha mania de  ficar no banco do jardim pensando na vida. Um dia eu sentei ali, mas não pensava em nada. Iluminada por uma tristeza, me sentia sozinha e chorava de dores que já nem lembro.

Foi quando Bono se aproximou e como se me perguntasse o que aconteceu, subiu no banco e ficou ao meu lado, respirando o mesmo ar triste, com seus dois olhos de consolo. Só saiu de perto quando me viu sorrir, já mais animada, e agarrar o seu pêlo, do jeito que eu fazia, como se segurasse duas bochechas macias.

E assim ele era com todo mundo. Sensível, não suportava o peso de uma lágrima no chão, parecia saber o que era dor, dono de um coração de pétalas..quantas vezes Bono se aproximou, colou seu rostinho na minha perna, se enroscando até encontrar uma posição confortável, geralmente no meu colo… Ah, quantas vezes ele consolou coraçoes decepcionados, cansados da vida, por não suportar ver uma ausência no rosto do outro.

No dia da sua morte ele parecia haver ensaiado suas últimas horas sem esquecer de nenhum detalhe: acordou feliz, brincou, deu seus últimos pulos, já a um passo das nuvens, fez sua última refeição.

Depois foi dormir, e dentro do sonho ele saiu da sua vida ileso, em silêncio, sem dor.

Eu não o via há um ano, e a notícia da sua morte  foi tão violenta que chorei desaguando uma dor nova dentro de mim, a da perda, sentada numa cadeira,murcha e amparada pelo homem que leva a sério minhas dores infinitas, pelo homem que Bono confiaria deixar no seu lugar como o mais novo companheiro das minhas lágrimas.

(E alegrias também, meu cachorro de circo)

P.S.  O cachorrinho da foto não é o Boneco ( eu também o chamava assim). Mas é fofo, né?