Bono, o cachorro com alma…

Eu sempre gostei de cachorros por eles serem espontâneos, dispostos e positivos. Já com gatos  eu nunca simpatizei muito. Gato se assemelha muito à nossa raça, atua como leão dominando o seu território; é curvado, imprevisto, rodeia muito para dizer o que quer, é introvertido, anguloso e tem uma fisionomia impassível, que a gente encontra em certas pessoas, com dois olhos que não dormem.

Acho que não confio nos gatos porque eles guardam esse ar de mistério, são interesseiros e não sabem agradecer um carinho. Os cachorros, não, têm olhos de doar. Se aproximam mesmo quando não são chamados e sorriem, sorriem sempre.

Eu nunca tinha me dado conta, até o dia que uma amiga me mostrou que seu cachorro pequeno sorria. Eu olhei pra ele com o sorriso lá dentro de mim e constatei mais tarde: não é que ele sorria como quem ri pra se esconder da tristeza?

Um dia meu pai inventou de arrumar um novo cachorro para fazer companhia ao mais velho que tínhamos, Puppie. No dia que Beethoven, como assim era chamado, chegou lá em casa, eu esperava ansiosa por um dálmata, quem sabe um labrador…

Mas, que nada! Aquele cão, batizado no Campo da Vila, no interior de Sergipe,não tinha nada que lembrasse a elegância desses cachorros que passeiam com seus donos pelos parques. Ele chegou afobado, com nâuseas que o deixaram com um aspecto torpe de pessoa embriagada, com um pêlo sujo e afiado, um cachorro-espinho.

Tinha um pêlo meio grisalho,apesar de ser muito novinho, e aparência de um homem de barba mal feita entregue à sorte. Andava com suas patas cambaleantes e equilibrando o sorriso no rosto. Ele nos olhou, balançou o rabo lento, como se nos cumprimentasse por educação, parecia cansado, de um cansaço triste, pela viagem longa demais, pelo vômito, pela mudança de lar…

A gente o levou até o jardim, se me lembro bem,a contragosto.Ele parecia feio demais, magro demais, cinza demais, cachorro demais. Vinha um, vinha outro,olhava para ele com um olhar de gato e o depreciava…”ai, tadinho…feio, né?” Mas, ele como que já recuperado da sua ressaca, não se intimidava. Pelo contrário, sentou-se no chão de pedra seca, se esticou e balançou o rabo, feliz, como se ignorasse o que dizíamos. Depois fez um pouco de graça, se levantou, lambeu, chegou mais perto, parecia uma pessoa que, cansada de sofrer, decidiu transformar ofensas em carinho.

ME LEVA PRA CASA?

ME LEVA PRA CASA?

Nessa mesma noite eu o batizei Bono e ele aceitou o seu nome como se soubesse que era bom de verdade, um cachorro com alma.

Com o tempo eu passei a amar aquele vira-lata de pêlo amassado, um feroz exíguo, meio atrapalhado, que dava saltos treinados no ar, malabarista, e eu passei a chamá-lo de cachorro de circo.

Um dia eu descobri que Bono não era apenas um cachorro que ria estático, que corria atrás de quem passasse na rua, guadião da nossa casa; ou aquele que cativou nossos coraçoes. Ele era tão confiante e audaz (se atreveu a fazer xixi nas minhas costas duas vezes!) que tinha certeza daquela conquista…e devia debochar das nossas visitas ao passado:“Ah, não, eu nunca disse que ele era feio.Mas, em compensação, todo mundo disse”…

Bono tinha uma alma em segredo, que vigiava os sentimentos de quem frequentasse aquela casa. Eu tinha mania de  ficar no banco do jardim pensando na vida. Um dia eu sentei ali, mas não pensava em nada. Iluminada por uma tristeza, me sentia sozinha e chorava de dores que já nem lembro.

Foi quando Bono se aproximou e como se me perguntasse o que aconteceu, subiu no banco e ficou ao meu lado, respirando o mesmo ar triste, com seus dois olhos de consolo. Só saiu de perto quando me viu sorrir, já mais animada, e agarrar o seu pêlo, do jeito que eu fazia, como se segurasse duas bochechas macias.

E assim ele era com todo mundo. Sensível, não suportava o peso de uma lágrima no chão, parecia saber o que era dor, dono de um coração de pétalas..quantas vezes Bono se aproximou, colou seu rostinho na minha perna, se enroscando até encontrar uma posição confortável, geralmente no meu colo… Ah, quantas vezes ele consolou coraçoes decepcionados, cansados da vida, por não suportar ver uma ausência no rosto do outro.

No dia da sua morte ele parecia haver ensaiado suas últimas horas sem esquecer de nenhum detalhe: acordou feliz, brincou, deu seus últimos pulos, já a um passo das nuvens, fez sua última refeição.

Depois foi dormir, e dentro do sonho ele saiu da sua vida ileso, em silêncio, sem dor.

Eu não o via há um ano, e a notícia da sua morte  foi tão violenta que chorei desaguando uma dor nova dentro de mim, a da perda, sentada numa cadeira,murcha e amparada pelo homem que leva a sério minhas dores infinitas, pelo homem que Bono confiaria deixar no seu lugar como o mais novo companheiro das minhas lágrimas.

(E alegrias também, meu cachorro de circo)

P.S.  O cachorrinho da foto não é o Boneco ( eu também o chamava assim). Mas é fofo, né?

4 Responses to “Bono, o cachorro com alma…”

  1. RITA Says:

    Pazita,que coisa linda!!!Liguei pro celular de Maria e li pra ela.Chorou o tempo todo !Minha filha, vc está se tornando cd dia mais escritora,melhor, melhor…Fico tão feliz de ver como caminha pelas letras com a intimidade que eu sempre busquei ter com elas ,mas a vida , a profissão não me permitiram….Mas amo todos os que conseguem passar pra nós as coisas lindas da alma, como amei o meu pai querido , o primeiro poeta que conheci de perto e que me fez ver quão bela é a vida qdo a vemos com poesia …até as nossas dores tornam-se menores e mais belas,não é mesmo ? Maria mandou dizer que vc tem “uma mente extraordinária e admirável”. Ah, Pá, que lindo vc falou sobre SAM ” o homem que leva a sério as minhas dores infinitas”…Ai, valeu!!!!!Que bom saber, isto é, ouvir de vc (eu já o sabia) …isso é lindo, é tudo na vida !!!!!!

  2. RITA Says:

    “o mais novo companheiro das minhas lágrimas” sim ,mas o companheiro de muitas e muitas alegrias,um homem bono que Deus lhe trouxe , como sempre pedi a ELE, UM PRESENTE ! GOD bless you and your “Bonito” , como eu gostava de chamar meu Boninho . bjs

  3. sonia pedrosa Says:

    Liiindo!!!!! Lindo texto, lindo cahorro, lindas lembranças e lindo futuro!!!!! Maravilhoso!
    Mais um! Mais ym! Mais um!
    Beijossssssssssssssssss
    sonia

  4. sonia pedrosa Says:

    Nao resisti, mais uma vez, e coloquei no meu blog!
    Pode acreditar: estou tão orgulhosa quanto Rita!

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