Percepção requer envolvimento
Wednesday, May 6th, 2009O aprendizado de uma língua também segue um ritmo peculiar e diário. É preciso estar disposto e se entregar a essa aventura, mergulhar nas palavras, mas não apressar o entendimento. Então pode acontecer algo ainda mais positivo, quando a língua passa a ser um instrumento que muda a nossa vida.
Se eu não falasse espanhol hoje talvez não pudesse manter uma conversação mais profunda com colegas colombianos do meu curso de inglês, por exemplo;ou com uma itialiana que se viu obrigada a falar espanhol em razão das dificuldades que o inglês lhe oferecia. E, como a literatura e o jornalismo me brindaram com outras formas de comunicação,o uso de uma língua estrangeira também permite esses momentos abstratos, mas que parecem fazer sentido no no-sense das relações humanas.
Essa semana eu vivi a minha segunda experiência como babysitter.Durante uma tarde eu tomei conta de duas crianças maravilhosas, filhas do baker, lá da cafeteria. Como os pais falam francês(e outro dialeto também) e por serem muito novinhos (a garota tem dois anos e o rapazinho tem três e meio) eles não aprenderam ainda a falar inglês; o garoto entende,talvez melhor que eu, mas apenas balbucia algumas palavras…
Contente e encantada com a primeira visita infantil a essa casa, eu espalhei os lápis de cores na mesa, joguei as almofadas no chão, desenhei para a garotinha, que parecia ver algum talento detrás dos meus desenhos tortos.
Tentei decifrar o segredo detrás das palavras do pequeno garoto, mas mesmo sem entendê-lo existia uma cumplicidade gratuita no olhar e nos gestos daquela criança…
Senti uma satisfação preencher um vazio no meu rosto, naquela tarde, quando tentei apresentá-lo algumas novas palavras.Eu desenhei uma árvore (this is the tree!), e enstusiasmado com as cores ele repetia comigo: tree; e como se experimentasse o aprendizado mais rápido do que o corpo pudesse suportar, correu excitado até o jardim para mostrar-me que ali havia uma árvore. E não parou de repetir até que passamos para o próximo desenho, (the flowers) e vi no seu rosto dois olhinhos nadarem em desespero ao encontro das pequenas flores que nasceram espontaneamente no jardim de casa. E mais uma vez, como se provasse o sabor das novas palavras, não parava de mostrar e repetir: flowers…

Então eu pensei como a língua também proporciona esses intervalos, nos quais a gente pode até recomeçar uma nova vida. Sempre repito que entender um outro idioma é ponta-pé para aceitar uma nova cultura. Somente assim posso entender o sentido de estar aqui e o sentido pelo qual muitas pessoas abandonam seus lares (seus países) para buscar o que ali não puderam encontrar…mas,por outro lado, posso entender que a linguagem também segue um ritimo inverso;quando já sabe tão profundamente a que se destina que não deseja ser executada…
O siêncio dos outros- Existe um senhor, já com seus setenta anos, que é um dos clientes devotos, da Croissant Dor (agora meu antigo trabalho). Todos os finais de semana, às oito da manhã,ele entra em silêncio,com seu jornal diário, senta-se e ali permanece até que um ou dois funcionários se dão conta, se entreolham e trabalham em harmonia: enquanto um prepara o seu large cappuccino, o outro pega um prato, prepara os talheres,leva um croissant de queijo e presunto ao forno, e o servem quando pronto.
Ele não precisa pedir. Sua presença já estabelece a petição E isso ninguém me ensinou. Aprendi observando outras colegas prepararem esse pedido oculto durante repetidos finais de semana. Demorei um pouco mais para aprender que ele não tolera que retirem a xícara da mesa, mesmo que reste apenas uma fina espuma de leite, a não ser que seja para substituí-la por outra com o velho cappuccino de sempre.
Uma vez tentei recolher a xícara e ele a segurou com um grosso dedo indicador -perdido dentro do vazio da xícara. Sem sentir o peso negativo daquela resposta, eu tentei trazê-la novamente para mim. Dessa vez ele foi mais incisivo.Colocando mais força num único dedo, ele prendeu a xícara,me olhou firme e balançou a cabeça. Tive apenas tempo de corar e dizer um murcho ”I am sorry”.
Ele tinha uma barba grossa e cheia, o rosto sempre sério, e olhos furiosos, mas que se olhassêmos com mais calma podíamos encontrar neles doçura.Ele nunca deu uma palavra, nunca conversou com outro cliente ao lado,mas um dia percebi que fazia sempre anotações no seu caderno, sempre mantendo a xícara de cappuccino ao lado, como inspiração.
E a razão do silêncio era essa,pensei. Tinha certeza que ali naquele café ele se comunicava melhor que qualquer outra pessoa. E que podia voltar pra casa mais pleno e seguro de si,como se mantivesse conversações secretas com o sagrado.


