Archive for the ‘Little Britain’ Category

Tempo lento…

Tuesday, October 20th, 2009

Salvador Dalí

Dá para derreter o tempo...

“Certas vezes nós devíamos ser  aconselhados a não sair de casa”, foi o que ela pensou nas últimas horas do seu dia. E não pensou que fosse preciso consultar os astros, horóscopo, não. “É assunto do ministério da saúde mesmo”, pensou com a  cara fechada pra ela mesma, enquanto passava o ferrolho na porta.

Ela devia ter ouvido aquela vozinha lá dentro, “Não sai de casa, criatura. Hoje vai chover peixe”, como no livro daquele escritor japonês que ela leu há algum tempo. Mas, inventou de seguir aquele caminho de folhas mortas no chão, por onde o vento passa preguiçoso, arrastando uma sujeira peneirada..

Correu pra não chegar atrasada, como se marcasse ponto, mas onde trabalha não marca nada, só as roupas que saem, as roupas que entram…

Ela não teve nem fôlego para dizer boa tarde, estava cinzamente calada. Mas, se deu conta de que tinha chegado duas horas antes de começar o trabalho. Sempre chegava adiantada nos lugares: ela já chegou um dia antes para uma consulta com o oftalmologista, que deve ter pensado que  a pobre não enxergava bem as horas, as datas, os dias…

“Quando chove assim, eu preciso comprar um livro. É como falar com alguém”. Foi aí que ela decidiu aproveitar o tempo livre e passar numa livraria para arrumar conversa. Acabou comprando um livro de jazz, depois decidiu estender aquele papo pra um café ali perto, ai, como a “solidao rende assunto” e almoçou naquele bar que se orgulha do seu serviço cronometricamente demorado – porque foi assim que ele se tornou popular.

Se chama Café Lento, nome que não representa nada para qualquer cidadão inglês, mas para ela, defensora dos pormenores,lento é como uma tarde de sol deve ser, como uma brisa num dia abafado deve existir, como deve ser o tempo dedicado aos pequenos prazeres.

Para ela, sim, uma lentidão de café, um grão de tempo na sua vida pra que ela pudesse mudar as coisas que a incomodam nesse momento: a chuva, “ai que tema constante na história da minha vida”, os dias que agora encurtaram… “amanheceu e estava escuro”, lembrou. Olhou pela janela aquele mundo emparedado lá fora, tombou e voltou a dormir; chegou em casa às cinco e meia e já estava escuro novamente.

E chovia,claro. Ela detesta os dias de chuva porque quando chove as pessoas emudecem, ficam pálidas. E não tem quem aguente a cidade em silêncio. Nenhuma buzina, os carros passam como se fossem feitos de papel. A cidade é um cenário. “Veja aquele senhor de cara torta, com a boca toda engolida”, observou.

Mas, o que mais azucrinou a sua cabeça é que ninguém chegou pra ela e disse: minha querida, fique em casa, porque sendo assim você não terá sua bicicleta e seu celular roubados, não vai quebrar aquele vaso que você comprou, quando corria cega no meio da chuva, não vai chegar em casa e notar que tentaram entregar aquela encomenda que você tanto esperava, nem vai ter que limpar nem chorar o café derramado.

Não deu tempo, “já basta”, ela pensou enxugando a raiva. “Passou, vou tentar ler o livro de jazz”. Com que cabeça? E volta tudo outra vez. Ela no café lento, de frente pro balcão, “hello, alguém aí?”, no lento espaço, com um dono, que sempre muito etéreo, parece ter vindo de um mundo onde as pessoas se rastejam. Dessa vez ele surgiu de cima do teto, desceu a escada com um vigor fugaz e ela se assustou: “ai, nao tinha visto que você estava aí em cima”, disse com uma naturalidade de quem bate na porta de um amigo pra pedir um pouco de café.

E o dono como se não ouvisse, soltou um Good morning, may I help you?, meio decorado. Ela só queria paz para ler o livro e tomar um café. Aliás, foi atraída pelo ambiente daquele café (é assim que eles chamam aqui, vamos num café? pra tomar café) agradável, cool. Mas, fazia barulho demais, a música era brasileira, um trio mocotó, parapapá,ela achou que conhecia esse grupo quando o dono falou. Trocou o café por  algo leve,e comeu uma salada, como sempre.

O dono lhe perguntou onde havia comprado aquele livro que ela segurava com tanto prazer. Ela respondeu com entusiasmo, “ah, num sebo!”, e descobriu que uma banda de jazz ia tocar na próxima sexta, naquele café lento. Depois da conversa veio a bebida,uma coca-cola diet sem gelo, porque já basta de frio. No final das contas não deu tempo pra ler nada. Só deu pra sentir a demora com que ela passava cada página, folheando, tão lenta que se achava naquele momento, sem nada que lhe desse conforto.

Comeu sua salada sem ritmo. Será que faz mal ter tanta pressa? Faz mal é tardar pra entender as coisas da vida…Faz mal é querer fazer algo e se sentir envergonhada. Mas a lentidão também prejudica, se apressar pra chegar no fim do caminho, não ter calma pra deixar que as coisas se esclareçam por si mesmas,” mas em que cadência a minha vida se encontra?” Ela fechou o livro, se encolheu de frio e foi embora. Quase derruba o copo da mesa, “odeio esses dias em que acordo com a mão torta”, resmungou. Quase deixa o casaco na cadeira, por um segundo, e voltou para buscá-lo. Abriu a porta, levou um vento na cara, lembrou que a chuva não dá uma folga.

“O tempo só pode existir em funçao da razão, mas a loucura derrete o tempo”…foi o que ela pensou plana e adocicada. Ia chegar tarde ao trabalho, mas se sentia o coelho do mundo de Alice ao revés, sem relógio na mão e sempre dizendo, “não tenho pressa, não vou perder nada”. Nem se importou com conferir a hora, e só pôde lamentar que ainda não lhe tivessem roubado todo seu tempo….

Life moves pretty fast. If you don’t stop and take a look around once in a while, you could miss it.


O Café Lento existe, sim, lento e filsófico.

Fica na rua 21 North Ln, Headingley,

Leeds, LS6, United Kingdom.

www.cafelento.co.uk


Feeling hot?

Wednesday, July 1st, 2009
A Inglaterra nos seus dias mais quentes do ano

A Inglaterra nos seus dias mais quentes do ano

Essa é a semana mais quente no verão da Inglaterra. Já foi dado o sinal de alerta: o heatwave (onda de calor, numa tradução livre) chegou pra nos deixar finalmente livres dos quilos de roupas, cachecol, luvas, sapatos fechados.

Tão generoso (nos seus 30C), que já nos permite abrir as portas e janelas da casa sem medo do frio. Podemos passear num parque e deitar na grama, bronzear as pernas, inaugurar o vestido colorido, não resistir a um sorvete, sentar na área externa dos bares, ver as pessoas passarem com sorrisos, pernas e braços de fora…

Temos que aproveitar!Afinal o ultimo verão de verdade foi em 2006 quando as temperaturas atingiram 36.5 C.Semana que vem já não se sabe…Eu que nem sabia mais o que era calor, desejo que esses dias sejam eternos…

Fonte: foto Daily Mail online (leia mais sobre o heatwave: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1195801/Heatwave-warning-alert-raised-level-time-July-2006–downpour-brings-flooding-north-east.html)

It’s so quiet…

Tuesday, June 23rd, 2009

Estou de volta, mas vou escrever algo bem rapidinho.Cheguei semana passada de Barcelona, do casamento de uma outra grande amiga (esse é o ano dos casamentos). Adorei! Ainda tenho que escrever sobre esse dia. Além disso tenho que continuar minha viagem pela França, que ficará para o próximo post.

Hoje não tem explicação, estou sentindo o corpo se desmanchar numa preguiça meio ansiosa, meio impaciente. Sinto as idéias vibrando dentro de mim como se batessem suas asas pesadas,sinto uma  forte liberdade que me solta ao mesmo tempo que me  prende. Alguém pode me dizer como se enfrenta os dias em que o silêncio é tão pleno e profundo que pode se expressar por si mesmo?Pode-me  explicar a que veio,silêncio maduro, perverso? Eu me mudei pra esse país em setembro de 2009, mas não é a primeira vez que ignoro uma saudade tropical para assentar meus pés em terras frias.

Eu me assusto um pouco como as pessoas aqui. São bem mais fechadas: como está sendo dificil suportar não ter uma amiga pra tomar um chá, pra conversar a qualquer hora. Eu só queria descobrir essa espontaneidade nas pessoas…afinal, como as amizades nascem? De um contato, de uma conversa, de algo mais que se prolonga…E talvez seja esse o problema. Quando é preciso avançar ,os ingleses parecem ter medo. Sentem-se um poco incomodados com pessoas estranhas, que não fazem parte do grupo.Não pretendo generalizar, como sempre falo apenas através do que observo.

Eu sei que hoje esse post saiu amargo como um pedaço de uma verdade chocante que a gente não digere bem, eu sei que não existe remédio, além da paciência. Ser paciente (só assim eu suportar o ultimo adeus que Sam deixa no ar antes de fechar a porta,cada semana quando tem que viajar a trabalho. Já são três semanas seguidas). E suportar um  sentimento que  não chega a ser  solidão, mas que sabe ser tão cruel que até a esperança corrompe.

Fazendo anotações…

Friday, May 15th, 2009

   Após assitir ao filme Alta Fidelidade, na semana passada, eu me lembrei de um dia “deprê”,nos meus quinze anos, quando incentivada por uma amiga - que padecia de um entusiasmo natural pelas coisas do mundo- eu fiz a minha primeira lista com pontos positivos da minha vida, que me ajudariam a enxergar a garota  sortuda que eu era.

   Quem assitiu ao filme sabe que o personagem faz da sua vida um listado caótico de lembranças e idéias que o ajudam a entender o passado, quando ele tenta analisar o que deu errado nas suas relações anteriores, ou justifcar o presente, quando ele entrega uma fita com as suas canções preferidas a uma jornalista interessada em entrevistá-lo. Eu, assim como o personagem do filme, estou sempre criando (às vezes na cabeça mesmo) o meu top ten com as melhores canções para dançar, os melhores clássicos do cinema, ou os melhores restaurantes que já fui.

   Mas, existem ainda outros tipos de listas; as que servem para comparar, como por exemplo, a qualidade de vida de um lugar. E nesses casos, a minha cabeça trabalha com destreza para calcular os dias de felicidade vivendo num país como a Inglaterra, no qual 226 dias de chuva no ano comprometem sem piedade a entrada do sol na rotina de cada indivíduo.

   Além disso, descobri que fazer listas de compras tem uma função terapêutica, me acalma. Daí que tomada por um instinto prático (que foi previamente anotado num caderno),que não me é característico, eu comprei vários cadernos de anotação e os espalhei pela casa. Consumida ainda por esse desejo de anotar todas as idéias que me surgiam na mente,eu comprei uma mini-lousa com ímã para pregar na geladeira e poder fazer…listas!

   A minha primeira lista foi a de necessidades urgentes. O que precisamos nessa casa: amor, música,açúcar…Recentemente fiz outra lista de coisas que sempre acabam faltando durante a semana: leite, queijo cottage, salada,persistência…E a lista de hoje foi sobre coisas diferentes para fazer em algumas cidades que já visitei. Já é assunto para o próximo post.

feijao com pao rima no café da manha dos ingleses

feijão com pão rima no café da manhã dos ingleses

    Eu ainda não falei diretamente sobre a Inglaterra. Dei voltas, fui do Brasil a Espanha, escapei no cenário de fundo desse país - de um verde tão generoso que parece sugar toda as cores possíveis tornando esse lugar tão caracteristicamente cinza. Por falar nisso, aqui o clima é mais que um começo de conversa. Para os ingleses é um tema tão interessante quanto política. Afinal, quem vai preparar um churrasco sem saber como será o amanhã.

   A Inglaterra é um país curioso. Faz parte do Reino Unido, mas é como se alguma característica separasse esse país dos outros. Quando comparo com outros países da Europa, sempre digo que a Inglaterra tem o prazer de ser diferente.

   Pensando nisso, outro dia convoquei Sam para ajudar-me a criar uma lista de coisas que para mim fazem da Inglaterra um país autêntico, mas melhor ainda, faz com que ela se torne única sob os cuidados da minha percepção.Muitas vezes me peguei falando sozinha,com ar de supresa no rosto após ver algo na rua que me chamasse atenção, que me deixasse com essas quatro palavrinhas na boca: “só podia ser aqui”…

   Porém, um detalhe preocupante nessa lista, feita sob a promessa de que a publicaria neste blog, foi a improvisação. Eu pedi a Sam que fizesse a lista comigo, caso esquecesse de alguma coisa. Mas, por um descuido da consciência (só pode ser isso) não havia nenhum daqueles caderninhos na cabeceira da cama. Que detalhe! Com preguiça de me levantar para buscar um, decidimos escrever numa espécie de cartas de baralho. Nada demais e vocês podem até não entender esse comentário, mas percebi que sem ter escrito num caderinho eu não pude transcrever as idéias para o computador e foi necessário passá-las para uma folha. Mas, enfim, eis o momento de aprensentar a minha lista. E chega a hora de riscar mais um item da minha lista de tarefas do dia.

  O que é que a Inglaterra tem?

   Eles dirigem no lado esqerdo (ok, isso não é novidade)

   Eles usam outras medidas de distância, de peso, etc. Por exemplo, enquanto na Europa (como no Brasil também) uma pessoa pesa 60 kg, na Inglaterra ela pesaria 9 stones (tradução literal:pedras) e 3 lbs (pounds). Eles não usam kilômetros, mas yards. Ah, e miles (1 mile ou milha equivale a 1760 yards). Confuso?

   Eles fazem parte da União Européia, mas a moeda do país é a libra esterlina (pounds) ao invés do euro.

    A entrada das tomadas elétricas são diferentes (com tres pinos, em forma de triângulo). Eu comprei uma chapinha na Espanha, que já foi usada em vários outros países da Europa, nas minhas viagens, mas que coisa, não posso usá-la aqui!

    Eles facilitam a vida de quem tem problema em encontrar o sapato perfeito. Aqui, existe o chamado “half sizes”, e o sistema de numeração é outra. Ou seja eu não uso o número 6 (que corresponde a 39, acho), eu uso 5 e meio.

   Existe carro de três rodas, chamado Reliant Robin. E para dirigí-lo você não precisa de carteira de motorista.

para dirigir esse carro você só precisa saber dirigir...uma moto!

para dirigir esse carro você só precisa saber dirigir...uma moto!

   As casas são todas iguais,típico estilo inglês, com muro baixo, um pequeno jardim na frente. Algumas têm portas em cores bem vivas como roxo,vermelho.

    Aqui não existe o conceito de “una caña” ou de “um chopp” para cerveja. Essa bebida é vendida num copo de aproximadamente meio litro. Mas, ops, eles não usam litros, usam pint (ou seja 0.47 litros).

    Cachorro é animal sagrado. Faz parte da família, mora dentro de casa com conforto, não importa o tamanho. Portanto, se você atropelar um cachorro, tem que prestar socorro, ligar para polícia, caso contrário poderá ser multado. Mas, não se preocupe se o acidente acontecer com um gato. Você pode passar até duas vezes por cima desse animal e ir pra casa tranquilo (o pobre bicinho é uma exceção nessa lista).

    Você precisa pagar uma taxa de 145 libras por ano para poder assitir aos canais da televisão. Mas, se você usar a tv apenas para assistir a dvds, não é necessário (a pessoa responsável vem até a sua porta para cobrar essa taxa).

     No café da manhã eles comem feijão (meio doce e enlatado) com torrada, ovos, salsicha, bacon e molho de tomate.

    A bebida mais consumida é o chá. Ela é usada sem preconceito: na hora do almoço, na hora do jantar, etc.

    Prato típico do país, Fish and Chips, é a combinação de peixe empanado com batatas fritas (ah, eles comem batatas fritas com vinagre e queijo ralado). E você identifica o lugar onde se vende o famoso prato de longe, pelo cheiro, e seguindo os pratinhnhos em formato de caixas de ovo, no chão.

   Sanduíche de bacon é super popular. A receita é simples: pão e bacon!

    Tanta chuva não é suficiente! A Inglaterra corre sérios riscos de em aproximadamente 20 anos ter problemas de falta de água.

   É só esquentar um pouco (um pouquinho, porque nunca faz calor), ou ter um dia de sol, para os ingleses saírem pelas ruas como se estivessem em pleno verão, com shorts, camisetas e óculos de sol! Mas, ainda faz frio.

Dias de crise…

Friday, April 17th, 2009

   Meses atrás, na casa de uma amiga, em Barcelona, conversamos sobre a crise que se instalou na Europa, no final do ano passado e que perdura até agora. Segundo ela, a  crise não passava de especulação. “As pessoas continuam comprando como antes, se divertindo e gastando dinheiro como sempre”. O assunto nao rendeu muito; primeiro porque era véspera de ano novo -  e em dias assim só se fala em dinheiro se for pra pedir, com pé direito, um aumento na conta bancária para o próximo ano; segundo, porque por alguma deficiência no meu caráter eu normalmente nao alimento esses debates calorosos  por muito tempo.

   A conversa morreu aí, já que estávamos mais interessados em abrir a champanhe na terraça do sexto andar e nos despedir do ano velho.

   Dias depois voltei à Inglaterra e, como para qualquer pessoa normal, seria como retornar à rotina depois de uns dias de festa. Mas, desde que cheguei aqui, em setembro do ano passado, eu me pergunto: então, qual é a minha rotina? As pessoas se levantam todos os dias para trabalhar, fazem ginástica, cuidam dos filhos, preparam o jantar, assistem a um programa na tv e dormem. Mas, qual é a rotina para uma pessoa desempregada, com tempo livre, mas sem inclinação para o ócio criativo, com planos para realizar, mas sem dinheiro pra dividir a conta do gás?

   Os primeiros meses foram desesperadores. Eu cheguei no auge da crise, ou da especulação, e a  verdade é que vi grandes lojas fecharem, os preços dos alimentos duplicarem no super-mercado e muita gente como eu procurando arduamente um trabalho.

   Três meses de busca, e nenhuma esperança. Cheguei a distribuir quinze currículos nas mais diferentes lojas num único dia (uma delas, super estranha, aprensentava na vitrine um desfile horrendo de bonecas semelhantes a recém-nascidos, estáticas, como se fossem secretamente de verdade. A dona, ou a “manager”, recebeu meu currículo, me olhou de cima a baixo, e me ofereceu um sorrisinho falso, que saltou da sua boca vermelha, como se nao fizesse parte daquele rosto carregado de maquiagem). Não tive nenhuma resposta.

   Conversei com colegas das aulas de inglês. Alguns já seguiam trabalhando por algum tempo, a maioria em restaurantes, mas outros ainda estavam desempregrados.

   E o que me deixava mais apavorada é que muitos deles eram europeus – ou seja, sem nenhuma restrição pra trabalhar, a não ser a dificuldade de falar o idioma. Diferente deles, eu apresentava uma desvantagem preocupante. Imigrante (palavra mais chata), com visto de estudante e limitada a trabalhar apenas 4 horas por dia, num total de 20 horas semanais, eu via minhas chances cada vez menores…

   Outro dia conversei com uma espanhola, que mora aqui há um ano e meio – mas que mantém o coração firme em algum canto de Madri-  e batalhou como qualquer outra pessoa de nacionalidade nao européia para conseguir um emprego. Depois de quatro meses de busca, aceitou limpar quartos de um famoso business hotel, em Leeds.

   Hoje ela é supervisora, tem um salário razoável, e uma gastrite que lhe obrigou,por conselhos médicos, a desistir  do cafezinho e cigarro e do curry picante – que aqui na Inglaterra é tão popular quanto nosso feijão com arroz.

   Não preciso mencionar que o meu desespero já estava em ebulição, e eu nao via uma saída. Tentei até trabalho voluntário, como fotógrafa em uma clínica, mas recebi uma fomal resposta negativa, dizendo que no momento não havia vaga.

   Em dezembro, através de uma colega peruana, consegui um emprego numa cafeteria francesa. Finalmente, minha primeira entevista de trabalho! Aceitei a oferta na hora, apesar de que eles só necessitavam alguém para os finais de semana.

   Tinha esperança de que nos próximos meses as coisas melhorariam e eu encontraria um trabalho que ocupasse as minhas tardes livres. Que ironia. Sentada nesse sofá, eu já vi minhas tardes se esvaírem profundamente no cinza dos dias de chuva, vi minhas horas escaparem tão rapidamente quanto a luz do dia, no inverno.

   Mas,como a estação, algo também mudou na minha vida. Os meus dias não apenas são mais longos, como são mais leves e esperançosos…Agora, dou aula de português, uma vez por semana, a um casal de ingleses. Porém, as aulas terminam em junho e preciso saber o que fazer a partir daí.

   No entanto, a vida continua; sem a rotina que cada um de nós deseja. Não aquela rotina absurda a que todos temem, o tédio. Eu queria apenas a consecução dos dias seguros. Poder saber que amanha eu vou trabalhar e depois de amanha também.

   Se por algum momento eu tive dúvida dessa crise…eu tentei não acreditar no pessimismo da mídia, no ceticismo dos políticos, na análise dos especialistas…Mas, o estilo de vida mudou, sem dúvida. Hoje fazemos compras no mercado (ou na feira), não vamos jantar fora com tanta frequência, e os programas de finais de semana ficaram reduzidos a um filmezinho - mas,com direito a um vinho, pelo menos. 

Vivendo a crise…

Friday, April 17th, 2009

como dizem os ingleses:juntar para os dias de chuva...

RainyDaySavings- Hoje à tarde eu saí numa dessas buscas abstratas por algumas lojas. Percebi que acho tudo caro. Mais de dez libras numa blusa parece um capricho desnecessário. O preço do queijo parmesão ofende! E o meu dinheiro é vendaval, vendaval…

   Então, nessas caminhadas pelas lojas -que é uma espécie de tortura para qualquer mulher sem dinheiro - entre vitrines e manequins antecipando a chegada de dias mais quentes,acabei entrando numa loja de produtos baratos para casa, com a decisão sensata de comprar apenas o necessário.

   Porque numa casa sempre falta alguma coisa, claro. Precisava de um vaso ou algo parecido para colocar espagueti. Andei tranquilamente pelas seçoes (mais de dez), vaguei, falei sozinha, e nada, não encontrei o tal produto. Entre uma seção e outra, encontrei o que não buscava: porta-retratos. E lembrei que não tínhamos nenhum em casa.

   Comprei quatro. No primeiro andar encontrei também esses cofres de porquinho. E não pensei duas vezes. Se existe algo que combina com momentos de crise, é juntar dinheiro. Comprei o mais bonitinho, com a frase “holiday savings” (dinheiro para férias).

   Na hora de pagar, a funcionária me perguntou se eu queria uma bolsa de plástico, mas eu, tentando salvar o planeta disse que não, obrigada (É quase uma questão moral, aceitar ou não aceitar uma bolsa plástica. Em casa, temos as nossas próprias sacolas de compras, para justamente não utilizar as das lojas – que muitas vezes cobram alguns centavos por ela) e coloquei o porquinho na minha bolsa junto com as outras compras.

   Cheguei em casa ansiosa para fazer era o primeiro depósito (de uma libra!). Peguei o cofrinho na bolsa e por um lance de segundos, ele escapou das minhas mãos e se partiu em três pedaços.

   Sentei no sofá, respirei fundo e gritei. O que há de errado comigo? Qualquer mulher desesperada, com o período menstrual se aproximando, faria a mesma pergunta - não sei se diante de de um cofre de porquinho disfarçado de turista, despedaçado.

   Então, como acontece em sequência nesses momentos delicados de tpm, crise, etc,eu chorei. Por um minuto. Depois, decidi comprar outro, porque era injusto não ter sequer inaugurado o meu cofre!

   Retornei à loja, fui direto à seção dos cofres. Nao achei o mesmo porquinho de antes, o que me tomou alguns minutos decidindo qual outro escolher..Uma vez escolhido, fui ao caixa. A funcionária – que  em menos de vinte minutos já tinha me visto  entrar e sair da loja umas três vezes- olhou para o porquinho e para mim como se perguntasse a si mesma quanto dinheiro eu teria para juntar.

   Dessa vez, não me ofereceu uma bolsa. Agarrei meu porquinho com firmeza. E voltei correndo pra casa, mas com cuidado para não tropeçar. Imagina que se quebra?! E eis que o porquinho aqui se encontra,à mesa, olhando para mim. E eu nao tenho nem mais um centavo para depositar nele! No final do dia, chego a conclusão que pior que uma crise econômica é a crise velada de uma mulher.

Pessoas, lugares, experiências

Tuesday, April 7th, 2009

  Agora o meu novo desafio é ensinar um casal inglês a falar português.   Comecei a dar aulas hás tres semanas e estou desfrutando dessa nova experiência. Depois falo mais about it. Eu nao sabia que poderia falar sobre tantas coisas,pequenas coisas…
  Como já falei, eu moro na Inglaterra. Mais que isso eu sinto, analiso, reajo…mas, tem algo nesse país, tem algum mistério…tudo parece homogêneo: as casas, as ruas,sao iguais em toda parte, mas de repente detrás de uma rua, existe um imenso espaço verde aberto e a paisagem muda, o olhar se refresca. Inglaterra e seu countryside, sua floresta escondida, seu segredo, sua particularidade…só dá pra entender tudo isso vivendo…

countryside

O tempo…

Tuesday, April 7th, 2009

    Hoje é segunda-feira! E venta bastante…como nunca vi ventar em toda minha vida…A Inglaterra é o país com mais forte vento da Europa. Humm, interssante, nao?

  Agora voltando ao passado…Escrevi isso logo quando cheguei aqui,há seis meses, na Inglaterra. O conteúdo é familiar, mas paciência….
  Já tive varias oportunidades de iniciar um blog. Mas, sempre acabava desistindo. Afinal, o que há de tao importante no mundo que já nao tenha sido dito por outra pessoa?
  Eu costumava escrever com mais frequência. Na verdade eu achava que estava predestinada a escrever. Era isso que me faria feliz, mesmo que eu nao encontrasse mais adiante o meu caminho. Mas, eu deixei no ar algunas das últimas palavras… Parei, abandonei a escrita, viajei, mudei de vida.
  Dois anos na Espanha me afastaram completamente da profissao que escolhi aos quinze anos de idade e jurei ser a fonte de prazer e auto-satisfaçao. Suave era o sonho. Entao eu poderia viver disso, escrever, ler. Suena interesante, no? Linguagem creativa, ideias, liberdade de expressao…a gente encontra isso mesmo no jornalismo? Pois é. Logo essa ideia de felicidade foi embrulhada com o jornal do dia anterior. Há três anos eu nao cumpro a pauta do dia, eu nao formulo perguntas ao entrevistado, eu nao uso o lead.      
  Pelo contrário. Eu nao leio jornal regularmente, eu nao asisto ao noticiário na tv, eu nao escrevo um diário. Que espécie de jornalista sou eu? Ainda nao sei que dizer a respeito.
  Eu já fiz de tudo um pouco nesses últimos anos; já lavei chao, ja vendi sanduíche, já trabalhei como professora de espanhol, já tive as mais frustrantes oportunidades de emprego, como por exemplo vender um pacote com Internet e telefone de porta em porta. Mas, também já tive experiências gratificantes, como poder ensinar alguém a fazer algo tao simples como aprender a usar o mouse ou ligar o computador. Afinal, o que fazemos da vida senao tentar resgatar diariamente a sensaçao de felicidade. E porque nos sentimos feliz quando fazemos o que  gostamos, é que podemos  nos dar o luxo de buscá-la incesantente. Até que se  descubra que o buscamos mesmo é (palavra) a verdade.

 

  
  Hoje   eu moro em Leeds, na Inglaterra.
  Há um mês moro com meu namorado numa casa no mais puro estilo inglês, a cottage house. 
  Faz frio, Chove muito. O tempo na Inglaterra é quase um clichê. Todo dia alguém comenta algo sobre o tempo e eu adquiri o hábito de apreciar cada momento de um dia de sol - um “such gorgeous day” nao pode ser desperdicado, porque nao.
  Estou também  estudando inglês numa escola.Tenho em maos o objetivo de aprender perfeitamente a falar e escrever inglês em um ano. É um prazo razoável. Será? Enquanto isso concentro toda minha força intelectual para tentar entender o sotaque seco e forte da regiao do WestYorkshire, aprendo a gostar da comida, a me enriquecer culturalmente.
  Há pouco descobri que viver uma outra cultura, aprender uma nova língua, é o tipo de desafio que eu gosto de verdade. Agora é isso o que me interessa. Conhecer o mundo, conhecer as pessoas. Essa minha necessidade soa tao clichê quanto o tempo. 
   Agora parece que minha vida comeca do zero.
  Enquanto me arrumava um sábado à noite para encontrar alguns amigos, Sam registrava o nosso cotidiano. Detalles da nossa vida. Tudo parece tao novo que às vezes me assusto. Também sinto estrear mais que uma nova vida, novos sentimentos. Em menos de um ano, eu voltei para o  Brasil, depois de dois anos seguidos na Espanha, passei seis meses em casa recuperando o tempo que passei fora, e agora estou eu morando na Inglaterra.
   Todos os dias eu penso como seria minha vida se eu estivesse no Brasil, se eu nao tivesse atravessado o oceano há quase três anos. Como seria? Estou fazendo meu cabelo, Sam continua tirando fotos. Talvez ele nao saiba, mas sempre quis alguém que pudesse registrar esses pequenos momentos. Sem pedir. Sem pensar. Ele sabe que no íntimo cada gesto busca uma semelhança no passado. Para depois a gente poder contar histórias. É como se escrevêssemos um livro de imagens. Entao, se eu pudesse captar os detalles dessa nova vida, eu teria que pensar em cores e formatos. Sao detalles, sao clichês. “Coloque essa foto. É um começo. É você.”
  Que alívio. Sou eu mesma, nao preciso representar, nem camuflar. Sou assim, sempre. Essa cara meio inexpressiva, essa escrita confusa que mais vagueia que descreve. Sao como palavras que voam. É um recomeço. Nova vida, voltar a escrever, e nao precisa ser nada sério. Pela primeira vez nao preciso ser sério.
  É um bom começo, porque tenho um sorriso e alguma resposta no meu olhar. Adoro os detalles e agora penso como é bom ter uma pausa para pensar sobre isso. Mas, ainda é segunda-feira, das mais escuras que já vi.     Hoje eu fiz uma esforço enorme para me levantar da cama. Desejei ser criança para chorar e dizer: nao quero ir pra aula. Porque faz frio.
  Eu pergunto a Deus, porque tanto faz tanto frio de manha? E porque ainda está escuro às sete da manha? Nenhuma resposta do céu.Fui à aula com a minha cara de domingo. 

Isto nao é um blog

Tuesday, April 7th, 2009

  ”Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”                                                                                                          Clarice Lispector

 Essa nao é a primeira vez que eu tento criar um blog. Várias ideáis já passaram pela minha cabeça - mas que apenas me ameaçaram com movimentos ligeiros e excitantes.  

  É uma pena que as minhas melhores ideáis surjam sempre no momento inadequado; na fila do banco ou dentro do onibus a caminho de casa. Mas, eu nao tive nenhum surto criativo tao importante que me fizesse sentar e escrever, escrever como se fosse através de uma voz que dita o sentimento de cada palavra e balbucia a ultima sentenca. O fim de um texto é de uma felicidade solitária, incapaz de ser compartilhada.  

  Mas, nenhuma idéia cruzou feliz o caminho do meu pensamento. Recentemente eu substitui esse estímulo criativo por pensamentos tolos, como por exemplo o que eu faria se eu ganhasse na loteria, ou o se a mistura exótica de abacate com batata poderia resultar num delicioso purê.  

  Há  muito tempo venho subestimando a minha vida. A minha experiência. O meu tempo, que é o ritimo do próximo. E mais que tudo, subestimando a minha escrita.  

  Algum dia eu achei que eu nao pudesse fazer outra coisa na vida que escrever. Algum dia eu também achei que pudesse ser jornalista. E juntaria o amor e a profissao numa só ideia. Mas, como sempre eu vou além do que me proponho; é como se eu nao entendesse o processo de cada experiência. Agora já nao existe nenhuma idéia que subestime a minha vontade.  

  Eu queria escrever um pouco mais, mas nao posso. As palavras têm pressa.E o mundo pequeno (que estava guardado há algum tempo) precisa crescer, porque essa vontade de existir já nao cabe mais em mim, nao há mais espaço no meu pensamento. Esse mundo que existe agora é pequeno, porque só deseja aproximaçao.