Archive for the ‘Meu Mundo’ Category

Para os amigos que virão…

Wednesday, November 18th, 2009

Amizade é...se assemelhar ao outro, sem deixar de ser diferente...

Amizade é...se assemelhar ao outro, sem deixar de ser diferente...

Sábado passado eu fui a um café em Headingley, bairro jovem de Leeds, onde a maioria dos estudantes se concentra.Pedi um café, que veio com cara de chuva, aguado, sem aroma - e como um café sem graça me faz perder a esperança…Mas, o importante naquele dia era sair de casa, ver gente na rua, me sentir menos bicho…

Ao meu lado duas mulheres jovens – uma delas com um bebê no colo – conversavam de um jeito manso que as pessoas adquirem no frio.Falavam um espanhol macio, que demorei a entender pela mistura de sons, máquina de café, os passos da chuva na calçada e a música de fundo embalando a tarde daquela petite cafe-gallery.

Sentei num sofá em frente a elas, de um jeito que podia observá-las fingindo vigiar o movimento na rua.Poderiam ser irmãs ou primas,pensei, pela semelhança física: as duas tinham pele clara, cabelo escuro,sorrisos de gengivas.Talvez nem parecessem tanto,repensei, mas podiam ser exemplos desses tipos de amizade onde um se assemelha a custa da outro.

Eram duas amigas que se encontraram para aproveitar uma tarde de chuva aquecidas por um café. Existe algo mais simples que dividir uma tarde dessas com uma amiga? Para mim, que ainda não encontrei essa metade apesar de morar aqui há mais de um ano,era tão simples quanto piegas. Olhava de relance, disfarçando uma minha ligeira comoção, folheando um livro que alcancei na estante ao meu lado - não podia passar a tarde contemplando duas amigas na chuva.

Houve um momento de silêncio, interrompido em seguida pelo choro do bebê, sendo consolado não pelos braços maternos, mas pelos da amiga, dona de uma confiança exalada. A outra, com olhos de intuição, parecia saber que diante dela havia uma grande mulher, uma confidente e protetora que podia acalmar não apenas o seus choros, mas o choro da sua própria cria.

De repente,a criança parou de chorar e voltou para os braços da mãe.

É tão forte essa relação entre amor e amizade. Ter um amigo é provar uma das experiências que o amor oferece.Todos os amigos verdadeiros mereciam uma carta de amor, uma revelação sincera do que significam nas nossas vidas.

Eu sinto falta das companhias sinceras, uma falta que me faz emudecer diante de desconhecidos que andam lado a lado e se olham com gosto de não se soltarem nunca; dos que riem com a graça do mundo, que se abraçam e se misturam em carne e osso, sem medo de apertar; ou diante de um simples encontro cara a cara, um mexer devagar na xícara, adoçar o café, olhar pela janela e sentir ao lado uma testemunha da sua vida.

Confesso que com um pouco de preocupação, admirei a calma e cumplicidade entre as duas mulheres. Não queria ser uma delas, queria ser amiga das minhas amigas, as que se assemelharam a mim pela convivência.

Entre um gole e outro de café, me senti tão ingênua na minha esperança, folheando páginas de sonho, acalmada por uma idéia de falsa comunhão.Quem sabe eu até me se senti uma amiga de tantas outras que entravam e saiam donas dos seus segredos?..

Sem querer deixar o lugar antes da dupla de amigas,passava as páginas com mãos de caramujo, devagar e profunda, mas pronta para voltar à realidade.Chovia como sempre e decidi ir embora. Não queria me sentir evasiva,viver num mundo de ilusoes cansa…É mais consolador ser sentimental, mas o mundo não está pra poesia ultimamente.

Me recompus, ajeitando a realidade como se fosse uma moldura torta, e me vi sinceramente com uma nova esperança.Os amigos distantes seguem eternos e frequentes, sei que posso contar com eles. Os futuros amigos surgirão de alguma parte como se tivessem cansados de me esperar. E vai existir pelo menos um, que eu possa contar de verdade, e que acredite em mim com uma confiança uterina, como quem acha na multidão um correspondente consanguíneo.

Bono, o cachorro com alma…

Tuesday, November 3rd, 2009

Eu sempre gostei de cachorros por eles serem espontâneos, dispostos e positivos. Já com gatos  eu nunca simpatizei muito. Gato se assemelha muito à nossa raça, atua como leão dominando o seu território; é curvado, imprevisto, rodeia muito para dizer o que quer, é introvertido, anguloso e tem uma fisionomia impassível, que a gente encontra em certas pessoas, com dois olhos que não dormem.

Acho que não confio nos gatos porque eles guardam esse ar de mistério, são interesseiros e não sabem agradecer um carinho. Os cachorros, não, têm olhos de doar. Se aproximam mesmo quando não são chamados e sorriem, sorriem sempre.

Eu nunca tinha me dado conta, até o dia que uma amiga me mostrou que seu cachorro pequeno sorria. Eu olhei pra ele com o sorriso lá dentro de mim e constatei mais tarde: não é que ele sorria como quem ri pra se esconder da tristeza?

Um dia meu pai inventou de arrumar um novo cachorro para fazer companhia ao mais velho que tínhamos, Puppie. No dia que Beethoven, como assim era chamado, chegou lá em casa, eu esperava ansiosa por um dálmata, quem sabe um labrador…

Mas, que nada! Aquele cão, batizado no Campo da Vila, no interior de Sergipe,não tinha nada que lembrasse a elegância desses cachorros que passeiam com seus donos pelos parques. Ele chegou afobado, com nâuseas que o deixaram com um aspecto torpe de pessoa embriagada, com um pêlo sujo e afiado, um cachorro-espinho.

Tinha um pêlo meio grisalho,apesar de ser muito novinho, e aparência de um homem de barba mal feita entregue à sorte. Andava com suas patas cambaleantes e equilibrando o sorriso no rosto. Ele nos olhou, balançou o rabo lento, como se nos cumprimentasse por educação, parecia cansado, de um cansaço triste, pela viagem longa demais, pelo vômito, pela mudança de lar…

A gente o levou até o jardim, se me lembro bem,a contragosto.Ele parecia feio demais, magro demais, cinza demais, cachorro demais. Vinha um, vinha outro,olhava para ele com um olhar de gato e o depreciava…”ai, tadinho…feio, né?” Mas, ele como que já recuperado da sua ressaca, não se intimidava. Pelo contrário, sentou-se no chão de pedra seca, se esticou e balançou o rabo, feliz, como se ignorasse o que dizíamos. Depois fez um pouco de graça, se levantou, lambeu, chegou mais perto, parecia uma pessoa que, cansada de sofrer, decidiu transformar ofensas em carinho.

ME LEVA PRA CASA?

ME LEVA PRA CASA?

Nessa mesma noite eu o batizei Bono e ele aceitou o seu nome como se soubesse que era bom de verdade, um cachorro com alma.

Com o tempo eu passei a amar aquele vira-lata de pêlo amassado, um feroz exíguo, meio atrapalhado, que dava saltos treinados no ar, malabarista, e eu passei a chamá-lo de cachorro de circo.

Um dia eu descobri que Bono não era apenas um cachorro que ria estático, que corria atrás de quem passasse na rua, guadião da nossa casa; ou aquele que cativou nossos coraçoes. Ele era tão confiante e audaz (se atreveu a fazer xixi nas minhas costas duas vezes!) que tinha certeza daquela conquista…e devia debochar das nossas visitas ao passado:“Ah, não, eu nunca disse que ele era feio.Mas, em compensação, todo mundo disse”…

Bono tinha uma alma em segredo, que vigiava os sentimentos de quem frequentasse aquela casa. Eu tinha mania de  ficar no banco do jardim pensando na vida. Um dia eu sentei ali, mas não pensava em nada. Iluminada por uma tristeza, me sentia sozinha e chorava de dores que já nem lembro.

Foi quando Bono se aproximou e como se me perguntasse o que aconteceu, subiu no banco e ficou ao meu lado, respirando o mesmo ar triste, com seus dois olhos de consolo. Só saiu de perto quando me viu sorrir, já mais animada, e agarrar o seu pêlo, do jeito que eu fazia, como se segurasse duas bochechas macias.

E assim ele era com todo mundo. Sensível, não suportava o peso de uma lágrima no chão, parecia saber o que era dor, dono de um coração de pétalas..quantas vezes Bono se aproximou, colou seu rostinho na minha perna, se enroscando até encontrar uma posição confortável, geralmente no meu colo… Ah, quantas vezes ele consolou coraçoes decepcionados, cansados da vida, por não suportar ver uma ausência no rosto do outro.

No dia da sua morte ele parecia haver ensaiado suas últimas horas sem esquecer de nenhum detalhe: acordou feliz, brincou, deu seus últimos pulos, já a um passo das nuvens, fez sua última refeição.

Depois foi dormir, e dentro do sonho ele saiu da sua vida ileso, em silêncio, sem dor.

Eu não o via há um ano, e a notícia da sua morte  foi tão violenta que chorei desaguando uma dor nova dentro de mim, a da perda, sentada numa cadeira,murcha e amparada pelo homem que leva a sério minhas dores infinitas, pelo homem que Bono confiaria deixar no seu lugar como o mais novo companheiro das minhas lágrimas.

(E alegrias também, meu cachorro de circo)

P.S.  O cachorrinho da foto não é o Boneco ( eu também o chamava assim). Mas é fofo, né?