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Nossso destino é a Muralha da China

Wednesday, November 11th, 2009

No dia que eles se conheceram ela estava decidida a viver uma história de amor. Ele nem parecia o tipo de homem que ela buscava, tinha cara de aventureiro, sem predisposição para amar, tinha cara de quem nunca se apaixonou. Mas, no dia que se conheceram ela havia decidido viver a sua história.

Dois anos se passaram, entre brigas, promessas de vingança, voltas turbulentas. Ela não sabe o que aconteceu. Mas que espécie de relação era aquela? Nunca se sentia confortável consigo mesma, nem pra dizer o que pensava, ou como se sentia.

Separaram-se no dia que ela descobriu que ele tinha outra, “mas logo ele que não tem aptidão pro amor”, agora surgia entregue a uma outra paixão, e o que mais doía, parecia haver descoberto o amor.

“Quantas vezes implorei pro sacana me escrever uma carta de amor”, jogou sua decepção pra fora. Ele sempre respondia com uma palavras amassadas, sem nem pronunciá-las direito, que não precisava declarar seu amor, nem escrever carta nenhuma, seu coração era um livro aberto.

“Uma mulher pode ser romântica, mas um homem, nossa, consegue ser de um jeito tão brega”, esbravejou.

Rasgou aquela carta, que ela encontrou foçando nos papéis dele. Uma carta de amor feita por ele, com sua própria letra, com seu próprio sentimento.

Não demorou para que caísse uma chuva de gritos no telefone.

“Você não podia ter feito isso, mexer nas minhas coisas”.

“É uma carta de amor. E não deve ser para mim porque eu não tenho um sorriso doce.Quem usa aparelho tem um sorriso acre, de grampo mesmo”,disse irônica.

“Sei. Seu sorriso é diferente mesmo”, ele rebateu num tom de deboche.

“É, acabou-se o tempo dos sorrisos poéticos entre nós dois”, falou sem medo de ser ridícula. E completou: “Mas, sabe o que me deixou mesmo intrigada?”.

“O quê?”

“Fiquei preocupada com você. Onde você conheceu essa garota.Olha, pelo nome dela, Aretuza, se eu fosse você dava uma conferida antes de se envolver…isso é nome de pu”…

Ele desligou o telefone. Ela ela saiu correndo da casa dele, se desmanchando na multidão, sentindo uma dor plácida crescer dentro dela até se transformar num sofrimento tão febril que lhe desbotava a cara.

Se sentia tão violenta,dona do seu sofrimento, não tinha sossego. Entrou no ônibus e passou a encarar todas as pessoas,ao seu redor, com um olho grosso de raiva, mostrando seu abandono. Olhava para as pessoas com tanto desprezo, como se no meio delas tivesse encontrado a responsável pela seu dissabor.

Picasso

“Ele fez uma carta de amor”, rangeu os dentes, se tremendo toda. E seguiu:“quem diria depois de dois anos o que eu ia receber? Uma carta de amor!”, riu desgarrada no meio de tantos rostos cansados.

Desceu do ônibus complacente, já dona do seu próprio desconsolo.Caminhou com seu corpo desossado, molengo, se arrastando pelas paredes, levando um pouco do mundo consigo, pra não chegar em casa tão vazia…

Parou um momento no meio da rua e falou sozinha, enrolando os fios de cabelo demoradamente, com dois olhos perdidos na calçada, como já num estado avançado de aflição, desbotou-se e chorou derramada na própria agonia.

Como é que se cura uma dor dessas? Porque dói tanto?, pensava.

“Filho de todas as mães, por isso que ele estava assim todo estranho…”, pensou azeda. “Bem que minha mãe dizia, quando um homem anda meio calado, pensativo…se não quiser se magoar, não faça nenhuma pergunta”, repetiu com o tom de voz de alguém mais velho.

Mas, ela fez. E ele disse que não a queria mais. Não me quer? E ela murchou, como uma flor tirada no asfalto. Mas uma flor sem poesia. Ele não queria mais se envolver. Por que?

“Porque você é muito simples, quer casar, ter filhos. Como você existem muitos por aí. E você vai encontrar outra pessoa logo,logo, porque você é tão docemente fácil”, ele falou sem piedade.

“E você?”, ela perguntou sofrida.

“Eu quero outra vida. E recebi uma proposta. Viajo no próximo mês”.

“Pra onde? Com quem?”, perguntou já sem medo de se magoar.

“Viajo pra China, sozinho,e vou passar um ano”.

Foi aí que ela se apagou de vez, o que restava de mulher diante dele se desvaneceu. Sua voz foi afinando até se atracar com um nó na garganta, que ele segurou até que chegar em casa…

Chorou tanto, um choro ardido, que  seu rosto brilhava. Ligou várias vezes, para o celular, para casa, mas ele não atendeu.

Até que horas depois bateu na porta dele, com uma voz rouca, e uma pele manchada de choro, com placas vermelhas…

Naquela noite discutiram mais uma vez, e sem ter encontrado ainda nenhuma carta, fez a pergunta que todas as mulheres fazem nessa hora: “é outra?”. E ele como se já esperasse negou, como um homem de verdade negaria, e mudou de assunto.

Ele teve que sair para trabalhar. Deixou– a dormir na sua casa aquela noite, sem problemas.

Já era tarde, ele tinha que cumprir o turno da noite e não tinha pena. Que ela dormisse seu sono infeliz, com tanto que não ficasse no outro dia pro café da manhã.

Nessa noite ela encontrou a carta e voltamos ao começo. Além disso, encontrou a foto da dona da carta. Uma mulher mais nova, loira, “sem graça, de cabelo lambido”. Na foto os dois estavam abraçados, e o mais triste foi constatar que eles pareciam donos de uma felicidade que ela nunca experimentou ao lado dele. Era uma abraço de quem esqueceu da solidão.

Ela leu a carta, e achou a letra dele infantil,de quem nunca se aventurou muito no amor. Mas,não era uma simples carta de amor, era uma declaração a si mesmo, como se agora sim,ele houvesse constatado, que o amor, o verdadeiro amor, existia.

Ela ligou pra ele em seguida. Depois de discutirem durante uns quinze minutos, ele a expulsou de casa.

Quem disse que ela saiu? Passou a noite como um bicho estranho, se rastejando pelos cantos da casa. No dia seguinte, cedinho, se levantou como embriagada pela noite de excesso que passara e saiu como se tivesse invadido aquele apartamento, sem deixar rastro. Não deixou recado na geladeira, nem cama desfeita.

Ajeitou a cozinha, o sofá, trocou a toalha suja do banheiro, exercendo sua última função de companheira daquele homem, um pouco de mãe,dona do lar, mamífera, mulher.

Quando saiu à rua, disparou uma revolta grande, corpulenta. Saiu atirando tudo que via pela frente, chutando lata, garrafa, parecia um furacão humano, perturbando as primeiras horas do dia. Eram quase seis e meia da manhã e ela teve que enfrentar um ônibus lotado.

“Ah, eu mereço descobrir uma traição e ver tanta gente de uma vez só!”, gritou como que esfomeada. Tinha fome de que a notassem.

E foi sem pudor que disse a si mesma, “não quero saber de amar ninguém, homem gosta de vagabunda mesmo!”

Entrou no ônibus chutando o ar. Teve raiva de ver o cobrador contando dinheiro, “aí, todo sentado, tranquilo”, da velhinha que se equilibrava nas curvas, “aí, essa toda desequilibrada”, gritava como se quisesse arrumar confusão.

Talvez ela até tenha recebido uma carta de amor alguma vez, mas não lembra de ter sido amada. Amada do jeito que ela queria ser, como uma maneira de se aceitar. “Ninguém nunca me amou, nunca”, falou com uma criança ao seu lado.

Estava de um jeito que era mais fácil consolar uma pedra. Muda de raiva, não podia lembrar daquela foto, das palavras de açúcar, da paixão de cachorra louca que sentia por ele.

“Quero matar aquele safado!”, rosnou com um bafo de fera.

O ônibus parecia mais apertado e ela se encolhia de dor. Mas de repente, se deu conta que a dor  mais aguda era recordar que ele ia pra China, com amor, com carta– era a ida à China e todas as esperanças estavam mortas.

Minutos depois, uma idéia pareceu iluminar seu rosto. “Quando os amigos perguntarem eu vou dizer que a gente acabou por uma carta de amor”,pensou.

“Uma carta de amor? Mas eu pensei que toda mulher gostasse de receber uma”, perguntou uma amiga, intrigada.

“Pois é.As mulheres estão cada vez mais exigentes, né? O cara chega citando  Camoes, e a gente não tolera mais, né?”, disse irônica e um pouco louca, depois da quarta taça de vinho.

Ela sabia que alguns relacionamentos vão se acabando aos poucos, tão lentamente como se cada um construísse pedra por pedra esse fim.

E é que existem finais que parecem mais extensos que todo o caminho que um casal percorre junto, “alguns finais não têm atalho, são longos…e o destino do nosso fim, cá entre nós, era uma Muralha da China”, disse com sua voz ébria, com essa mania que tinha de falar quando já ninguém mais a escutava…

** Pintura : o beijo,Picasso.

Encontros e contratos

Tuesday, October 27th, 2009

Sempre imaginei como seria um encontro com um escritor famoso. Não me refiro a um encontro formal, por detrás de páginas de livros autografados, ou de frases soltas roubadas numa entrevista. Mas, um encontro de ombros lado a lado, com pausas na caminhada, com pétalas e páginas, numa tarde de outono vendo as folhas que caem do céu e voam como pássaros quebrantados.

Já tive o sonho de conhecer Clarice Lispector, de abraçar Drummond,ou de recitar um poema com Manuel Bandeira, “Parságada, meu caro, é para lá que todos irão”. Já desejei,de verdade,tomar uma dose de haikai com Paulo Leminski, entrar na cabeça de Lewis Carroll, dar um passeio no submundo de Dostoyevsky, ler bem alto Um amigo de Kafka,de Isaac Singer, e recuperar a esperança na vida, com as páginas de uma nova história ondulando na palma da minha mão, como um corpo avançando o mar, desafiando as ondas, sua força insípida.

Ah, sim, todo leitor tem um sonho de salvação, um desejo de encontrar a verdade. Todo leitor se arrepia com a intimidade que se estabelece, às vezes promiscuamente, com o seu escritor favorito. Que leitor não leu Nelson Rodrigues e se olhou no espelho, com aquele olhar sem pudor que prevê uma fatalidade? Que leitor nunca criou uma ligação infinita com o seu escritor preferido,já se sentiu entendido, enfeitiçado por uma verdade que às vezes só existe na imaginação do próprio criador? Quem nunca se envolveu e se deixou seduzir por uma história? Eu mesma chorei de raiva quando o escritor misterioso do A noite do oráculo, de Paul Auster, decide trair sua mulher.

A ilusão é o contrato entre leitor e escritor; no momento em que o leitor abre o livro, lê a primeira página, ele se entrelaça no mistério da vida, é como dar as mãos a um estranho que parece nos conhecer tão a fundo, daquela maneira de se conhecer alguém escancarando as portas.

Eu já aceitei esse convite tantas vezes. E até já ouvi histórias de leitores que deram mais que um pedaço de carne, venderam a alma. O meu primeiro encontro violento aconteceu há muito tempo, com Clarice Lispector. Quando eu a lia, eu tinha vontade de chorar, amarrada que estava à sua essência, violada pelo desejo de ser Clarice.

Mas, haviam muitas Clarices espalhadas. Aos poucos, eu entendi que existia um sentimento de Clarice em muitas mulheres, muitas  a sentiam na pele, e eu achei que fosse apenas mais uma leitora - mas uma leitora de olhos desconsolados e tímidos.E com uma felicidade de ombros encolhidos. Amo Clarice,mas quando leio (ou releio) os seus textos, eu sou a mesma, ela só me empresta os seus olhos. E depois saio livre e cega pra minha realidade.

Lygia Fagundes Telles

Mas, existem os encontros inocentes (ou não). Um dia meu irmão trouxe da biblioteca o livro As meninas, de Lygia Fagundes Telles, e eu soube  que ali estava a minha salvação.Não tinha idéia do que me salvava, se do tédio dos meus 17 anos, ou da ansiedade de crescer e avançar para o mundo. Desde a primeira página eu sabia que aquela leitura era especial, uma certeza borbulhava dentro de mim.

Durante alguns dias eu fui uma das meninas de Lygia, eu contei com elas, eu escrevi do jeito que elas falavam, a gente se entendia muito bem…Até que eu terminei o livro, mas foi um término contente…Eu continuava a menina dentro das meninas…Depois, o meu desejo foi ler mais dessa escritora, que conta uma história de uma maneira tão especial que a gente se belisca para sair da pele do personagem.

Eu nunca pensei em conhecer Lygia Fagundes Telles, pra mim já me bastava a força com que atava minhas mãos às dela. E tinha sempre uma efipania de um conto seu, que pra mim era um conto verde, de purpurina, de uma alegria desesperada que só existe no carnaval…

Eis que um dia esse encontro chegou e eu nunca soube como escrevê-lo e talvez até tente outros rascunhos. Foi na primeira edição da feira literária de Paraty, no Rio de Janeiro, a hoje conhecida Flip. Na época eu era estagíaria de jornalismo, ansiosa e insegura. Pedi pra trabalhar na Flip na cara de pau  e eles aceitaram, me deram crachá, acesso à sala dos jornalistas, computador, etc. Me facilitaram entrevistas com alguns escritores, como Marcelino Freire, coletiva com Paul Auster, etc…Mas, eu queria entrevistar Lygia, ela sim.

Numa tarde fresca em Paraty, eu saí em busca da autora de Ciranda de Pedra. Levava debaixo do braço o seu livro mais recente de contos, que eu queria ver autografado. Uma mulher me levou até o hotel onde ela estava hospedada. Numa das ruas de pedras de Paraty, de frente para um portão de madeira,eu a esperava, debaixo de uma chuva fina, com meu coração grosso, quente e palpitante.

Depois de uns minutos, Lygia apareceu acompanhada do seu acessor, muito elegante, como se saísse de um lugar onde o tempo não existisse. Surgiu como a responsável dos meus dias serenos de leitura, de felicidade embevecida; como dona da minha  lucidez àquela idade, surgiu a escritora.

Lygia me cumprimentou muito simpática, suas palavras tinham perfume. Disse num tom familiar que Paloma era o nome da namorada do seu filho, Paloma Rocha, e me senti gêmea dessa outra, um pouco sua nora também.

Ela tinha um objetivo àquela tarde: encontrar um cachorro (vi muitos perambulando pela cidade) para dar –lhe um bombom embalado em papel celofane verde. Lygia me deu sua mão e saímos de braços colados, caminhando em busca do destino esverdeado. Ela não queria dar entrevistas. Queria uma companhia sincera. No meio do caminho uma bandinha atropelou nossa caminhada e Lygia aplaudiu aquele mini carnaval. Andávamos sem pressa.

Lygia autografou meu livro, escreveu uma mensagem linda. Tive a impressão de que entramos num laberinto, que era um sonho, tão absurda e feliz que me sentia. “Eu preciso registrar isso, tirar uma foto, senão vou achar que é sonho”, pensei o caminho todo. E olhava de relance para ela, presa ao meu lado com suas mãos de laço.

Nas noites da minha infância quando eu dormia com minha mãe, só conseguia pegar no sono se segurasse bem forte as mãos dela, para que ela não me escapasse. Mas, eu sempre amanhecia solta, sem minha mãe ao lado. Quando eu dei mão e braço à Lygia, eu senti o mesmo medo infantil de acordar no dia seguinte para um mundo sem proteção.