Quando chove os doidos saem da toca…
Tuesday, October 6th, 2009Hoje já vou avisando: estou sem muita paciência! Sonhei a noite toda que lia livros e mais livros. Sonhei com uma mão, que mão foi essa que você colocou no meu sonho, hein? Então, essa mão dura ia mudando os textos, um atrás do outro,enquanto meu cérebro absorvia cada palavra, linha por linha, e a mão me dava mais histórias em cápsulas, pra eu continuar criando, sonhando,sem perder o meu rumo…o que é que você está fazendo comigo?,sem deixar escapar nenhum pedaço de mim no papel…mas,que criatura é essa que desaparece e me deixa aqui solta, personagem abandonada?
Estou ensopada de letras! Não consigo parar de ler, de escrever, é uma convulsão criativa, será? E quando acaba? O que está acontecendo, me explica!!!!Mas onde começou mesmo? Isso tudo que estou sentindo pertence a quem mesmo? Ah, me sinto uma cópia. Onde foi parar esse maldito escritor?
Eu só falei que era bom ter alguém que pensasse em mim com carinho, alguém que estudasse, com calma, as minhas emoçoes, que me construísse como se constrói um filho, que me fizesse viver histórias incríveis, dessas que nos fazem querer mudar de vida na mesma hora. Ah, eu confesso agora: Eu quero nascer de um esboço, sim, de um suspiro de imaginação, quero sentir o prazer do meu criador a cada página que avança, quero passar páginas, ser borrada, recriada, “essa frase não combina mesmo com ela”,ouvi ele dizer, ocupar os pensamentos do meu escritor, deixar que ele me veja completamente nua, não ter vergonha de ser o que sou, de errar ou de falar alguma bobagem.
Ele nunca me julgaria, porque seus olhos de criador são livres de julgamento,não existe nem o bem, nem o mal, ele sabe disso, que a minha força está na palavra e através dela me defende.Ninguém vai me dizer o que fazer. Ele sabe onde quer me levar. Ele não pode me ver, mas quando ele me escreve, ele me desenha de um jeito tão certo que me assusta - me conhece tão bem, ufilhdmãe,vai saber de que idéia ele me tirou.
E hoje ele me botou numa história curta, porque hoje eu tive um dia corrido e pedi que, pelamordeus, “me poupe de ir pra lá e pra cá e pensar tanto”. A geladeira quebrou, a cozinha ficou alagada, lá fora chovia tanto que dava pra lavar alma, pensamento…O rapaz levou a geladeira velha, trouxe a geladeira nova, deixou minha sala um lixo, com pés de chuva no tapete, no chão, e a geladeira chovendo dentro dela, velha, saiu lavando o chão empoeirado.
E ai já viu, lama, água e poeira. Não deu tempo de almoçar, saí correndo pro trabalho e aí meu criador me entendeu e sussurrou no meu ouvido: “Certo.Hoje está que não cabe mais chuva. Vou poupar você,então. Hoje você não faz nada, só vai observar e só vai falar quando eu mandar”.
Aceitei na hora. Foi aí que ele me veio com essa história de que quando chove os doidos saem do casulo.Quando chove quem sai do buraco é barata, eu falei. “Psiu, já avisei que você não ia precisar falar nada, guarde seus comentários”. Está bem, disse me engolindo inteira. Certo.
Chove doido na loja de caridade, ou melhor,charity shop (em inglês é mais chique, né? “Não pedi sua opiniao ainda”. Tá beeem). Hoje na loja da fundação RSPCA, onde Paloma trabalha,choveu doido atrás de casaco, de abrigo, de agasalho. Começou com um homem amarelado, de cabelo preto, magro como cabo de vassoura. Entrou, vasculhou umas roupas, passou o tempo conversando com seus (cabides) botoes, rindo, algo ali buscava… uma resposta? Paloma olhou intrigada: “Será que ele tá buscando roupa pra namorada?” (Vem cá, quando eu penso, eu penso em inglês ou em português? “Paloma, não tenho tempo pra respostas. Seguimos a história?” Odeio quando você me coloca dentro de um parêntesis.E quando você me coloca com essas letras deitadas, então, e essas frescuras todas, parece que penso pequeno ou diferente. “Paloma, seguimos a história, se alguém chegar a esse ponto da história, não vai ter nem vontade de chegar até o final”. Que chato).
O homem esquelético de cabelo preto lambido decidiu provar o casaco (três vezes menor que o número dele, né? “ Vai continuar interrompedo, my dear?” DESCULPA). Vestia uma camisa leopardo minúscula, que acentuava seu corpo de criança desnutrida. Provou um casaco verde que ficou acima da sua cintura…Pediu opinião aos outros clientes que passeavam pela loja, a maioria idosos ou estudantes em busca de uma barganha.
“Está ótimo”, disse um dos clientes e piscando o olho pra Paloma como se acabasse de enganar uma criança. O homem magro gritou pra todo mundo ouvir: “gostei! mas acho que está um pouco pequeno”. Paloma, então, resolveu ajudar,disse que as roupas masculinas eram do outr… (não adiantou nada, né? Ele nem me deixou falar, já foi dizendo que gostou daquele casaco e pronto… “È, eu sei melhor do que você o que ele acha”. Que grosso você! Viu o quê hoje? Chuva, né, só pode!)
O homem seguia no seu monólogo real, mantendo a atenção dos clientes que fingiam que não estavam atentos (pessoas acostumadas com a loucura é outra coisa. Na minha cidade todo mundo já estaria rindo…). “É sempre assim: quando a gente gosta da cor, o tamanho é errado. Quando fica bem no corpo, a gente não gosta da cor. Vou levar”, e o homem magricela deu um ponto final na história

Meu nome é Godofredo, fredo,fredo,mas eu não fedo, não...
Uma senhora passou por Paloma e disse disfarçadamente: “To be or not to be. That´s the question”. Paloma riu. Vender ou não vender um casaco de mulher para um corpo disfarçado de homem, era a toda a questão do dia”. Em seguida, surgiu o oposto do cliente anterior: esse era forte, com uma barba que batia no peito e uma cabeça que quase não passava na porta (ah, mas semelhante na loucura).
Ele foi direto ao ponto. Queria um colete preto. Provou, perguntou a ela como estava e ela disse “perfect”, sempre simpática. Vendeu ao senhor barbudo,que pagou com dinheiro guardado numa lata amassada, que levava no bolso do paletó junto com uma bolsa enrolada de plástico, “onde está, onde está, minha bolsa. Ah, sim, aqui” e enrolou um pouco mais e guardou-a no bolso interno do sobretudo e, sobretudo, disse goodbye apressado, mas depois de descobrir que a dona da loja era italiana disse ciao, e falou maravilhas da Itália, exaltado, “Ahh, Itália!Quantos veroes passei ali”…
“ E você é italiana também?”, perguntou a Paloma.
“Não”.
“Espanhola?”
“Nao”.
“ Hum…Portuguesa?”
“ Nao”.
“Que charity shop mais internacional!”, disse a barba exclamativa.
E Paloma ensinou ele a dar “adeus” em português. No final ele saiu com colete de menos de três libras e um adeus de graça, “Adeus, ha-ha”, repetiu.
“Esse é desses doidos que não sabem falar, só se comunicam rindo”, pensou Paloma, olhando –se no espelho, espelho meu, existe alguém mais doida…E em seguida entrou o mesmo antigo cliente (de sempre, minha manager itialiana sempre manda tomar cuidado com ele. “Eu sei disso, Paloma.”) com seus dentes separados; ele vasculha e nunca compra nada; depois entrou um senhor gordo e molhado e comprou um cd que não se vendia mas, se doava, e ele doou uns centavos para algum cachorrinho ou gato da vida;
chovia, chovia, e uma das atendentes da loja se sentiu chuvosa e um pouco deprimida, foi embora mais cedo, “Que será que ela tem?”, se perguntou Paloma.
“Deve ser porque chove mais dentro dela que em qualquer outra parte do mundo agora”,pensou, abafada. Olhou para o relógio, o tempo passa rápido ali (“Olha você se metendo no texto! Agora sou eu quem está dentro dos parêntesis, com letra inclinada..como você fez isso. Acabe com essa brincadeira de mau gosto!”)
Não sei!
Ah, retomandoo meu texto…O tempo passa, tanta gente passa também…Paloma se sente útil, ajudando mais cachorro que gato, pelo menos assim ela pensa, porque prefere cachorro a gato, mas não importa.
Ela quase se esqueceu que entrou um homem volumoso, com cara de arqueólogo ou de professor de ciências e comprou um quadrinho com uma coruja dentro e logo comprou um outro idêntico, com outra coruja triste… “que barato, fenomenal!cinquenta pennies por um quadrinho desses”, e saiu maravilhado, como se acabasse de achar um fóssil.
“Va benne”, disse Paloma, se liberando. Em italiano, porque o inglês não é uma língua pra desabafar, o italiano sim, é idioma anti-stress. (Já chega, não? Ainda tenho que limpar a casa, fazer um jantar legal, ler meus livros…dá pra parar por aqui? Cansei já…Hum…Ok, me ignora que eu gosto…).
“Vá benne”, Paloma diiiisse, então, e chegou a hora de ir pra casa e terminar esse texto; sem doido, mas com chuva, sem cheiro de barata (eu falei mesmo que algumas pessoas cheiram a barata em dias de chuva. Não sei o que há de errado nisso, é uma frase legal. “Está bem,Paloma. Estou feliz porque você voltou pra dentro dos parêntesis. Quem sabe eu encaixo sua `ótima frase` numa próxima história”. Aff…).
E sem cheiro, mas perfumada de idéias, Paloma voltou pra casa. Nem pensou que aquelas pessoas existiam de verdade (pensei sim,juro) como a sujeira na sua cozinha, como a fome que ela sentiu por nao ter almoçado. Nem pensou que todo lugar tem seu doido, que todo mundo guarda uma loucura mansa, domesticada, que ela tem vontade de ser doida também, de comprar roupa de homem, de criança e pedir opinião a alguém no meio da rua. Ela também tem vontade usar guarda-chuva nos dias sem chuva, soltar um grito dentro do cinema, dançar pelada dentro de casa, sei lá, vai saber a cabeça de cada um (você não sabe que me sabe?)… Juro que nem eu mesmo conheço você cem por cento, Paloma. Não posso saber tudo o que você pensa. Não tenho certeza de nada (achei que sim…).Nem saberia dizer se o que acabo de inventar faz menos sentido que citar Shakespeare numa loja onde as pessoas pagam pra ser doido.
RSPCA é uma fundação que ajuda os animaizinhos desse mundo todo.
“The RSPC as charity will, by all lawful means, prevent cruelty, promote kindness to and alleviate suffering of animals”
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