Em Paris do Pará…
Tuesday, October 13th, 2009Trilha sonora do texto…
Ele entrou como um raio dentro daquela loja pequena e cheia de obejtos usados, de outras vidas. Salivava de tanta ansiedade, com a boca solta e desamarrada, falando barbaridades consigo,“Imagina, seu sacana, se eu ia ter coragem de fazer aquilo,tá maluco?”. E fingia que não falava sozinho, como se a sua metade que o perseguisse. “Sai, sai”, dizia espanando os pesamentos mais sujos…
Olhou ao redor com dois olhos de pedra e recuperou o entusiasmo incial. Atrasou um pouco o passo até chegar ao caixa. Queria acalmar as idéias. “Sai, sai”, e se livrava de mais um peso na consciência. Coçou nervoso os seus cabelos fofos como um tapete,deu um passo infantil, daquele que deixa o corpo num desequilibrio bobo, avançou determinado, um, dois, e juntou os pés, um ao lado do outro, em frente ao caixa.
Chegou até a mocinha da loja e disse emocionado: “Olha que maravilha que acabo de encontrar”. Ela, que nunca duvidou da ambição dos simples mortais, olhou pra aquele quadro e disse profunda, “ah, que raridade, hein?” Mas, logo se deu conta de que aquilo não se tratava de uma pintura, não era coisa que tivesse valor. Um desenho, um pedaço de de Paris, uma cidade que já inspirou tantos pintores, que já acolheu tantos poetas e sentimentais,tantos beijos apaixonados (se bem que ela nunca se beijou apaixonada em Paris) “e a fazem assim de papel e caneta”…
“Não é mesmo uma maravilha?”, perguntou o rapaz trazendo-a de volta ao seu mundo. “Ah, realmente, que coisa linda. Olha só, é Paris”,ela respondeu, se sentindo um pouco ameaçada pelo entusiasmo do cliente.
“Ah, Paris!”, os seus olhos duros se desmancharam, e com a boca cheia rematou: “já estive lá, sim,sim”.
Ela não disse palavra, olhava para o quadro sem sentimento algum,deslizando a mão pelo desenho como se apagasse algum sonho. E ele todo agoniado por uma resposta, com a cara no quadro como se quisesse entar dentro dele, apontou para a Torre Eiffel e perguntou :“ E o que é isso, o que é isso?”. No que ela, como pega de surpresa, só pode responder com a mão segurando a boca, pra que nada além de uma simples resposta escapasse:“É a famosa Torre Eiffel, em Paris”. E ele como se recuperasse a memória, afirmou, “claro, claro, já estive em Paris”.
“E você gostou de Paris?”, perguntou a mocinha com cautela. “Meu Deus, muito,muito mesmo. É o único lugar que eu conheço nesse mundo”, sorriu poético.
“Sei. É uma cidade linda mesmo”, foi só o que pôde pensar e dizer.
“Você é francesa?”, perguntou com a esperança de quem vai a Paris praticar o francês com um nativo.
“Não, não sou nada”, disse quase muda.
“Que pena. Ia ser bom conhecer Paris e uma francesa”, e se calou. Pediu que ela colocasse o quadro numa sacola plástica, “pra proteger Paris”, e saiu tão alto como se alcançasse o topo da Tour Eiffel”
A mocinha ficou ali parada, ela que já havia estado em outros lugares, sentiu vontade de seguir o inverso, “todo mundo quer ir pra Paris, eu quero ir pro Pará”…Ela não, queria mesmo achar um quadro de uma cidade com alma, com uma torre humana,com um carrossel de histórias, viajar no mundo dos outros.


