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A França é líquida!

Tuesday, June 9th, 2009

(Eu estou com problemas na página desse blog, mas vou tentar resolver isso o mais rápido possível. Sorry).

Eu estou de volta! Passei duas semanas viajando por algumas regioes da França. Começamos no norte, em Champagne. Logo depois fomos descendo em direção a uma das mais importantes produtoras de vinho, Burgundy. De lá seguimos para Lyon e acabamos no topo, nos Alpes.


A disposição dos dias deveria seguir um roteiro mais ou menos estruturado, ajustado ao tempo (que sempre passa rápido quando a gente está viajando),alheio a qualquer indisposição do corpo, do clima, da mente.

Era preciso chegar ao casamento de uma grande amiga, confirmado com um ano de antecedência, em Lyon, sul da França, mais precisamente numa cidadezinha chamada San Priest, às 15 horas do dia 30 de maio, num sábado que mereceria fazer sol.

Nós tínhamos precisamente esse roteiro na cabeça. Sairíamos de Dover, na Inglaterra, em direção ao sul da França, de carro. Íriamos parar em algumas cidades, ver a paisagem mudar como se a natureza preparasse um espetáculo íntimo para nós; provaríamos os sabores das comidas típicas de cada região, eu saciaria a minha paixão por queijos ao experimentar pelo menos alguns dos milhares produzidos na França. E o objetivo maior seria explorar algumas regiões produtoras de vinho.

Mas, tinha que haver um ingrediente que tornasse essa experiência mais espontânea. Para isso, foi necessário evitar as grandes rodovias, prolongando,sim, um pouco mais a duração de cada viagem, mas com a condição de poder passar pelos lugarejos, respirar o ar campestre da França, sentir os olhos buscarem mais sentimento e sentido em cada pessoa, em cada lugar avistado;parar no meio da estrada e subir os degraus invisíveis que nos levariam a uma igreja abandonada no meio do campo, pôr os pés no solo fértil dos vinhedos, e sentir o corpo apurar o sabor de um vinho que poderia nascer dali dentro de alguns meses…

Esse circuito tornou o caminho mais longo como se seguisse um desejo de não chegar a destino algum. E nos deu a sensação de ter visto e descoberto tantas coisas! Mais ainda era uma sensação realista, uma dessas experiências que amansa o corpo desbravando novos estímulos da alma.

Flor numa garrafa de champagne deixada onde acampamos, em Epernay.

Flor numa garrafa de champagne deixada onde acampamos, em Epernay.

A primeira região que paramos (meu estômago borbulha só de pensar) foi Champagne. A região é uma prova de resistência para qualquer turista interessado em provar a bebida. Entre visitas aos maisons (os grandes produtores da bebida) ou aos vignerons (pequenos produtores e que vendem as uvas para os Maisons), uma passada em bares que oferecem centenas de opções de champagne, o turista pode passar o dia inteiro degustando essa bebida considerada artigo de luxo, feita para ocasiões especiais.

Consciente da minha pura ignorância em relação à bebida (porque se já havia provado o verdadeiro champagne em minha vida,não qualquer espumante, esse momento foi tão rápido que se apagou da minha mente), essa ocasião aconteceu em plena viagem mesmo.

A primeira parada foi em Reims, capital de Champagne. A cidade é pequena, e a primeira sensação é que ela não tem muita coisa a oferecer além das casas de champagne. Sem perder tempo,fomos direto a uma casa que oferecia uma visita guiada e três copos da bebida no final. Foi o primeiro contato nesse ambiente um pouco sofisticado e seletivo (acho que eu e Sam éramos os mais novinhos num círculo de rostos sérios e cabelos grisalhos)

No entanto, foi uma jovem espanhola quem nos apresentou aos primeiros sabores e cores da bebida. E acrescentou um pouco de informação ao nosso amadorismo. Como por exemplo, existem três tipos de uva que são responsáveis, em diferentes aspectos, pelo resultado perfeito da bebida.

Chardonnay é a única uva branca, que aporta delicadeza e suavidade. Pinot Noir é a uva vermelha, é ela que dá corpo à bebida. E por último é a pinot meunier, que é determinante para a evolução e amadurecimento do vinho, além de adiconar aromas.

Essa foi uma dasa primeiras informações que recebemos, de uma maneira tão simples, que já parecia estar incorporada no nosso repertório de desgustadores da bebida.O passo seguinte foi entender como a mistura de sabores tão precisos e delicados resultam na elaboração de um bom champagne.

Fazendo pose na minha primeira "degustation" de champagne, em Reims

Fazendo pose na minha primeira "dégustation" de champagne, em Reims

Para isso, foi preciso ir um pouco mais longe. No mesmo dia seguimos para outra cidade, chamada Epernay, a 26 km sul de Reims. A cidade, conhecida como a capitale du Champagne, parece ter mais personalidade, além de mais opções de lazer. Nessa cidade fizemos duas coisas interessantes. Primeiro, acampamos num “campsite” muito organizado,limpo,e barato. Com 12 euros por noite (para duas pessoas) montamos nossa tenda sob um sol que derretia a emoção que sentíamos no nossos primeiros dias de aventura.

Montados numa bicicleta (que se aluga no acampamento mesmo) exploramos cada ponto dessa cidadezinha como se estivêssemos à procura de um tesouro perdido. Já afastados da cidade seguimos,meio sem saber onde chegaríamos, em direção a um povoado com um nome que é pura onomatopeia, chamado “Ay”.

Seguindo um instinto de liberdade, eu desejava encontrar um desses vignerons que citei logo acima, os pequenos produtores de champagne.Primeiro porque através desses produtores, o contato perde um pouco dessa compostura séria e rígida em torno da apreciação da bebida. Você é convidado a entrar na casa, sentar-se à mesa e provar com calma, desgustando cada gole, deixando o sabor morar no palato por um tempo, sentir a bebida rolar na garganta como se o corpo pudesse experimentar a verdadeira arte da produção de champagne.

Nós encontramos essa casa em frente a um canal, rodeado de flores. Quem nos recebeu foi uma francesa sorridente, que não falava nada em inglês, mas com uma persistência generosa, sempre sorrindo, escrevia no caderno um idioma mágico que a fez entender- se e que até nos ajudou a explicar que passaríamos às dez horas do dia seguinte para comprar as garrafas de champagne que acabávamos de provar, porque seria impossível carregá-las na bicicleta.

Em Ay, para provar champagne nas casas dos pequenos produtores

Em Ay, para provar champagne nas casas dos pequenos produtores

O que eu aprendi sobre Champagne…


Diferente dos produtores locais (que não cobram a degustação, mas claro, esperam que você compre alguma garrafinha), uma visita guiada a um dos Maisons situado na sugestiva Av. Champagne,reestabelece a complexidade do simples ato de provar um copo de champagne.

Escolhemos a casa Moet & Chandon,uma das maiores produtoras de champagne do mundo.Lá você pode fazer uma visita de uma hora à cava subterrânea, onde eles guardam a bebida, e pode escolher provar até três copos – pagando por isso 21 euros por pessoa. Cada maison tem seu preço e você pode ir diretamente a recepção escolher o tipo de visita que desejar.

Nesse dia, aprendemos que o processo de produção da bebida é minucioso. É um equilíbrio delicado entre os três diferentes tipos de uva. Esse trabalho preciso requer ainda a participação de todos os sentidos. Primeiro, se faz a colheita manual. As mãos realizam um trabalho cego entre os diversos cachos de uvas, tentando localizar as uvas mais saudáveis, com pele, em perfeito estado. Dessa colheita, se faz a primeira pressão rápida, o primeiro suco (cada 4.000 kilos de uvas se produz 2.050 litros de suco). Esse primeiro “suco”se chama cuvée.Além disso, eles ainda fazem mais dois processos de pressão chamados premiéres e deuxiémes tailles.

Cava do maison Moet & Chandon

Cava do maison Moet & Chandon

Os melhores produtores de champagne utilizam apenas o cuvée e o premiéres. Os especialistas no assunto provam essa mistura em busca dos aromas, do gosto ideal.O passo seguinte é deixar a bebida repousar por duas horas (nas grandes casas ela é mantida em cubos de aço inoxidável) a um temperatura de 17ºC. A temperatura é muito importante para a conservação dos aromas, ou para diminuir a acidez, por exemplo.

A bebida passa ainda por dois processos de fermentação. Se prepara o cuvée, adicionando vinhos de diferentes vinhedos, de diferentes variedades. No começo da próxima primavera acontece a segunda fermentação (dessa vez a bebida já está na garrafa, mas sem a rolha, submetida a uma pressão de 6 atmosferas), quando se adiciona ao cuvée as levaduras e um licor açucarado. As garrafas são conservadas em cavas subterrâneas a 10ºC, de cabeça para baixo.

O nosso guia nos informou que o resultado final da bebida exige ainda o trabalho em conjunto de mãos experientes que a cada duas dias precisam girar todas as garrafas para que os sedimentos no pescoço desta se sedimentem por completo (se quiserem imaginar a matémática desse processo, levem em conta que a casa Moet & Chandon produz cerca de dois milhões de caixas de champagne por ano).

Em frente ao maison de um dos maiores produtores de champagne do mundo

Em frente ao maison de um dos maiores produtores de champagne do mundo

E o que acontece depois da fermentação? O selo que regulamenta a produção de vinhos na França, chamado Appellation d’Origine, exige que a bebida permaneça no mínimo um ano nessas cavas subterrâneas - lugar silencioso e húmido, que ainda pode abrigar um champagne por muito mais tempo, como exsitem casos de garrafas conservadas por mais de seis anos. E umas dessas preciosidades, guardadas como um mistério líquido e perfumado, pode custar até 2000 euros.

Com o final da visita, o nosso dia se fechou com um alento de esperança. Nesse mesmo dia já havíamos provado – entre cinco ou seis copos dessa bebida sedutora, enigmática, espumante. Mas, nos próximos dias o desafio seria maior : aprender a degustar vinhos.

Tirei uma foto em frente ao império Moet & Chandon, ainda sentindo o gosto do último copo de champagne.Tentando me equilibrar em Sam,eu pressenti que vinha chuva pela frente, era preciso pegar nossas bicicletas e pedalar rápido de volta ao acampamento. Nem mais um copo de champagne! Compramos uma garrafa de vinho no bar do acampamento, mas só conseguimos beber um copo. No meio da noite o céu foi tomado por violentos trovões que fizeram o meu corpo encolher num medo estremecedor. Não sei quanto tempo durou aquela chuva.Mas,o dia seguinte parecia mais fácil prever: eu só queria provar sabores inocentes.

O que faltou…

Friday, April 10th, 2009

   Pois é. Sempre me encantou viajar, no pensamento, nas histórias, nos livros, na vida das outras pessoas. Estou sempre preparando a minha bagagem, seja para sonhar, seja apenas para pegar o próximo trem.

   Eu me arrependo do tempo que morei na Espanha e nao escrevi nenhuma linha sobre essa experiência e agora fico tentando lembrar de tudo. Porque nao permiti que esse devaneio se concretizasse.

   Mas, por sorte, meu coraçao é sensível às fortes emoçoes e nao resiste à nostalgia; tenho forte na memória alguns momentos da minha vida, como logo quando cheguei em Barcelona, em 2006. E como se cantasse “é que quando cheguei por aqui eu nada entendi”, eu começo a entender muito do que sou agora…Mas, nesse relato nao quero estar restrita ao tempo. O passado ficou perdido nas ruas de Barcelona, de Madrid…e nesses lugares - os rincoes, as esquinas, os cheiros – pertencem a mim, de certa forma…

   Uma coisa era certa, eu fui à Barcelona, com destino a Madri. Como no filme de Almodóvar, Todo sobre mi madre, eu vivi um vai-e-vem cansativo e pleno de emoçoes, entre Barcelona – Madrid, até que, após um ano, me mudei definitivamente para a capital espanhola.

   Existe um sentimento obscuro quando me refiro e penso sobre a minha vida em Barcelona. Sendo sincera, eu sinto um pouco de tristeza. Porque as coisas nao deram certo, porque tive que aprender tudo na marra, porque chorei tanto, porque levei tanto tapa na cara pra aprender coisas tao simples…

   Por isso, Barcelona é esse sentimento confuso, é um passado indeciso e carente de explicaçao. Eu apenas vivi, esse é o problema. Quando sofro, nao quero entender. Apenas vivo. Mas, enfim, dando um passo largo nessa etapa da minha vida, eu tive a oportunidade de viver em Madri,cidade que amo, cidade que me acolheu, que me deu oportunidade de ter um trabalho decente, de fazer boas amizades, de conhecer uma pessoa maravilhosa que acompanhou o ritmo dos meus sonhos e agora compartilha comigo uma vida…

capucino1

   Foi num instante atrás quando olhei uma foto no nosso mural, que resolvi escrever sobre isso. A foto é das mais simples e clichês, talvez. Um capuccino, deliciosamente cremoso e vibrante; em cima do creme,o desenho de uma nota musical polvilhado com chocalate.Ao lado, uma torta de chocolate que me faz ter vontade de correr pra doceria mais próxima. Essa foto foi de uma viagem que fiz a Barcelona, já morando em Madrid, com Sam.

   Foi a primeira vez que fomos a cidade catalana juntos. Eu tive medo do que poderia sentir, tinha sentimentos recentes  rondando minha alma, mas isso nao é assunto para agora…Mas,enfim, essa foto me fez lembrar de coisas tao simples e gostosas que fazemos quando viajamos.

   Eu por exemplo, adoro acordar numa manha ensolarada, caminhar em busca de um lugar onde se possa tomar um bom café, grande, com leite.E depois tomar um café da manha que dê energia pra seguir caminhando nas próximas cinco horas…

   Outra coisa boa, é provar a comida…todos os sabores, todas os produtos…Eu também gosto de caminhar muito, às vezes excessivamente…e sem parar…como se participasse de uma maratona turística…

   Todo mundo gosta de viajar, pelo menos é o que todo mundo diz. Cada pessoa tem uma maneira de perceber o lugar e de visitar. O lugar também faz o turista. Mas, nao é só isso. Eu gosto de seguir o meu ritimo. Odeio grupos de viagens, odeio excursoes. Eu prefiro caminhar, encontrar os detalhes, ver como as pessoas se vestem, que comem, etc…meu turismo, é um turismo sem pressa…claro que como acontece muitas vezes, nao dá tempo de ver tudo o que quero…Mas, enfim, sempre deixo cada lugar com a esperança de voltar mais vezes, talvez sozinha, talvez com pessoas queridas…

   Agora mesmo, o meu sonho é poder ter minha família aqui e poder viajar com eles…mostrar um pouco de tudo que já vi e venho guardando para contar…

 

Entre tantos mares eu encontrei um perfeito, em San Sebastian, Espanha.

Entre tantos mares eu encontrei um perfeito, em San Sebastian, Espanha.

   Nada entao mais emblemático hoje que esse capuccino. Eu sei exatamente o lugar onde o tomamos. Foi ao lado da praia. Era um dia de sol, de temperatura agradabilíssima e eu me sentia livre do medo de viver Barcelona.

   Ainda estávamos nos conhecendo, mas compartilhar um hobby com alguém é uma forma de se aproximar…Entao eu decidi que fôssemos compartilhar uma vista única: o mar; que em Barcelona tem um ar meio artificial. Mas, a verdade é que nao se pode violar a veracidade de um azul estonteante.

   O que torna especial esse ato de contemplar é o fato de que na praia de Barcelona, alguém com esse mesmo sentimento, teve a ideia de construir cadeiras inclinadas, em direçao ao mar, como um desejo explícito de contemplaçao.

   A primeira vez que vi, pensei, encantada. “Entao, sao cadeiras especiais, porque ali ninguém se senta para tomar sol”. Talvez porque uma vez ali, o apelo do mar consome toda a energia do corpo.

   Por isso,observei que as pessoas sempre permanecem em silêncio, mesmo quando acompanhadas. Nunca lendo ou fazendo outra coisa que observar. E assim fizemos. Nos sentamos, dispostos a essa doaçao.

  Tirei uma foto de Sam, com um olho fechado, e a fisionomia um pouco endurecida, sentindo o sol tapear o seu rosto de leve. Minhas pernas estavam apoiadas na sua cadeira, deixando-me assim numa posiçao mais confortável.

   Nos conhecíamos mais. Pouco a pouco aprofundando, eu podia ver nos seus olhos. E nao é que o mar me desinteressasse, mas, naquele dia, era como se eu voltasse a nadar no mesmo mar dos meus sonhos, fundo, para encontrar esse amor. 

 

Viajando eu aprendi (parte 1)

Wednesday, April 8th, 2009

Viajar é um das  coisas que mais gosto de fazer na vida. Nao importa para onde, pode ser para a cidade mais próxima ou apenas para visitar alguém distante.Minha mae já aprendeu a reconhecer esse sintoma de felicidade através da minha voz. Quando nos falamos pelo telefone, ela já sente. ” Está feliz porque vai viajar, nao é?” Sim,sim, sim! Nunca tinha parado pra pensar, mas é verdade. Das lembranças mais marcantes que tenho da minha infância, as poucas viagens que fizemos em familia refletem uma forte nostalgia que causa um reboliço no meu mundo interno.

Lembro-me das férias na fazenda, em Matapua. Todos os primos iam juntos na pampa vermelha da tia Lygia e tio Clélio, disputando em pé o melhor espaço, o qual nos permitia ver a paisagem dar uma volta de 360 graus a nossa frente.

Posso sentir o cheiro de leite fresco, retirado da vaca, o aroma do cuscuz quentinho e a mistura de sabores, cores, e palavras à mesa. Todos os primos reunidos, crianças, cumprindo a obrigaçao de serem felizes.

Eu já dava os primeiros sinais de minha personalidade sonhadora e desantenta. Sempre derrubava o leite,o  açúcar nunca ia direto para xícara… “desastrada, desastrada! Todos gritavam. E eu nao me incomodava, ou talvez fingia nao me incomodar, mas ria. E rio até hoje. Porque de uma certa maneira é isso o que me caracteriza. E foi tropeçando, às vezes, literalmente, que cheguei onde estou. Ainda lembro vivamente dos passeios a cavalo, das noites jogando “burro”, cheiro de mato, do tempo que nao acabava nunca. E como era bom nao entender a ficçao dos adultos…

           pulo-mar1

 

   Outra coisa que me vem à cabeça  sao os dias de praia, de sol latejando na memória, dos dias longos, dias de férias, de um lugar onde era possível correr pela areia, jogar o corpo no mar, entregar o sorriso ao céu e mergulhar num mar que nao acabava,nao acabava nunca.

   Lembro-me claramente, apesar de que tinha cinco anos mais ou menos, das madrugadas que íamos a Pirambu. Ainda dormindo, era carregada no colo até o carro. E quando chegávamos, o dia já tinha amanhecido e era como sentir essa predisposiçao para ser feliz.

   Por falar em praia, para mim nao há melhor terapia que vigiar o mar, com aquele olhar profundo, de agradecimento. Sempre gostei da paz que existe no olhar de cada observador, na praia. Quem observa o mar parece entender um pouco mais de si mesmo. É um silêncio inspirador.

  Nos meus meses de solidao morando sozinha num apartamento em Salvador, era na praia onde encontrava meu refúgio. Costumava passar um bom tempo sentada, a um certa distância, comtemplando, sentindo os meus olhos salgados, sabor de percepçao.

  Depois,  como se saísse de uma sessao de relaxamento, eu voltava para casa mais renovada que se tivesse dado um mergulho no mar. Tao prazeroso me parece esse exercício que até terapia já fiz na praia, com um colega do curso de pos-graduaçao em letras, psiquiatra e ser humano compulsivo.

  Sentados e sentindo o frescor dos minutos, ele me fez nadar, nadar, o mais profundo que pudesse e o mais distante possível, até que encontrasse os meus medos, e pudesse afogar o meu instinto auto-depressivo. Agora deu vontade de rir. Mas, naquele momento foi tao importante que eu me desconheci.  

  Depois que nos despedimos,eu cruzei a avenida correndo, ofegante, e fui direto para o meu apartamento, no terceiro andar, na praia de Ondina. E nesse dia escrevi uma carta, a um sortudo destinatário, porque eu era a remetente dos sentimentos mais puros e dignos. Eu sentia em cada poro essa determinaçao a la amelie poulain, de espalhar alegria e comungar bons sentimentos. “Os meus olhos prometem felicidade”, eu repetia…e desde entao, o sentido de promessa nunca mais foi o mesmo.