Feeling hot?

July 1st, 2009
A Inglaterra nos seus dias mais quentes do ano

A Inglaterra nos seus dias mais quentes do ano

Essa é a semana mais quente no verão da Inglaterra. Já foi dado o sinal de alerta: o heatwave (onda de calor, numa tradução livre) chegou pra nos deixar finalmente livres dos quilos de roupas, cachecol, luvas, sapatos fechados.

Tão generoso (nos seus 30C), que já nos permite abrir as portas e janelas da casa sem medo do frio. Podemos passear num parque e deitar na grama, bronzear as pernas, inaugurar o vestido colorido, não resistir a um sorvete, sentar na área externa dos bares, ver as pessoas passarem com sorrisos, pernas e braços de fora…

Temos que aproveitar!Afinal o ultimo verão de verdade foi em 2006 quando as temperaturas atingiram 36.5 C.Semana que vem já não se sabe…Eu que nem sabia mais o que era calor, desejo que esses dias sejam eternos…

Fonte: foto Daily Mail online (leia mais sobre o heatwave: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1195801/Heatwave-warning-alert-raised-level-time-July-2006–downpour-brings-flooding-north-east.html)

Para mulheres…

June 28th, 2009

Quando a gente passa algum tempo sozinha, alguns rituais começam a surgir espontaneamente. De repente, um dia ela já levanta da cama falando consigo mesma.

(Num tom animado de quem está preparada pra enfrentar mais um dia) “Hum..O que vou comer no meu café da manhã?

“Omelete não seria nada mal. Omelete, então”

Liga o computador. Enquanto espera que se inicie,abre a geladeira, acende o forno, abre a porta da cozinha.

“ Sem chance.Por que?”

“Ah, se você lembrasse de comprar ovos! (Agora furiosa) Claro, alguém tem que comprar ovo nessa casa”.

Anota esse imprevisto no quadro da geladeira. Recado para si mesma. E por aí vai. Sem mais saber porquê coloca uma música e começa a cantar num ritmo mais exaltado; canta com a alma, bem alto,como se fizesse um dueto com seu cantor preferido e chega a uma exaustão delirante. Acalma a voz dentro de si…E se espalha, dando voltas no ar vazio da sala, pra espantar a melancolia…

Levanta-se, vai até a janela espiar o dia, quem sabe encontrar algum vizinho no jardim. Mas acaba encontrando um gatinho peludo, fofo, e fala com ele. (Nota que o gato tem coleira) “Ai, gracinha. Onde está seu dono” Depois fecha a cortina. Vai que alguém inventa de aparecer? Uma visita indesejada com esse cabelo que mais parece ter passado por um tornado?

Quando volta carregada com as compras do supermercado,ofegante, abre a porta e avisa: “cheguei”. Mas, pra quem ela chega? E de onde vem a certeza de que os próximos dias chegarão assim…calados, secos…

O carteiro joga as cartas através da entrada própria para isso no meio da porta. As cartas se esparramam plaf! no chão e ela sempre se assusta (e como isso a incomoda, o fato das pequenas coisas assustarem mais que os verdadeiros temores da vida). Mas já deveria estar acostumada. Afinal esses ruídos familiares fazem parte da rotina.

E a rotina para ela é esse pedaço de tecido que a gente vai costurando despercebida, criando uma composição complexa, dando voltas no desenho, perfurando a tela, avançando no formato, e contornando um círculo cheio, gordo, até chegar ao ponto de encontro, fechando o compasso dos dias e das horas…

Uma rotina longa, sim, mas honesta.Nada mais poderia exigir…

Yes, they have tea!

June 25th, 2009
vai um chazinho?

vai um chazinho?

Estou com um pouco de dor de cabeça, mas preciso relaxar. Passei o dia procurando blogs pra ler, pra trocar ideias. Aderi (um pouco tarde) ‘a nova sensação do momento. O twitter! Não sei como funciona exatamente, mas estou dentro, seguindo e deixando-me seguir.

Confesso que fiquei um pouco agoniada! Estou no facebook, no orkut, nesse blog, e agora no twitter….onde isso vai parar!! Sei, essa dor de cabeca é culpa da tecnologia! E se Freud explicasse, diria que o meu desejo é suprir a necessidade física de amizades, de contatos. Ai, que confusão. Eu apenas queria relaxar, e escrever sobre uma bebida muy tradicional na Inglaterra: o chá! Eu adoro “black tea” (o chá preto) com leite. Nunca pensei que fosse gostar dessa mistura, que em princípio me pareceu insensata.

Beber chá é um ritual. Uma pesquisa divulgada no site da BBC (eu procurei, mas não encontrei o link. Li há muito tempo. Jornalista sem fonte?O que dizer  sobre diplomas) mostrou que o ritual de beber chá pela manha faz com que o dia dos ingleses comece melhor….

Eu adquiri rápido esse hábito. Assim que a primeira coisa que faço quando acordo,ainda com os olhos meio fechados, é correr pra cozinha e preparar essa bebida estimulante.Busco intuitivamente a garrafa com água filtrada (tem que usar água filtrada, porque o gosto muda com a da torneira), coloco-a no bule e espero ferver…Adiciono a bolsinha de chá no “teapot” (aqueles potinhos super tradicionais de chá) e acrescento água fervente.

Aguardo uns três minutos e o chá está pronto. Acrescento-o na xícara e o passo final é adicionar o leite. Não coloco açucar, porque acho que tira o sabor autêntico do chá negro. Hum…e o dia já se refresca. Abro os olhos, posso agora tomar o  meu café da manhã.Durante o dia, sei que haverá uma pausa suave nas horas - hora de preparar essa bebida secular…

Eu sou fã de vários chás e tento sempre provar novos sabores. O chá verde é muito bom para saude, é antioxidante, elimina as impurezas do corpo, ajuda a rejuvenescer! O chá de menta tem o poder de fazer uma digestão mágica… E o cheiro ainda acalma! Então, vai um “cuppa” ( cup of tea)? Quer tentar ser british por um dia? Eu achei esse video no youtube. Realmente a gente pode encontrar de tudo nesse mundo virtual. Ai, minha dor de cabeca. Esse video é tão patêtico que não tem como não rir. Nele, um garoto ensina a fazer the best cup of tea ever. Enjoy it!

It’s so quiet…

June 23rd, 2009

Estou de volta, mas vou escrever algo bem rapidinho.Cheguei semana passada de Barcelona, do casamento de uma outra grande amiga (esse é o ano dos casamentos). Adorei! Ainda tenho que escrever sobre esse dia. Além disso tenho que continuar minha viagem pela França, que ficará para o próximo post.

Hoje não tem explicação, estou sentindo o corpo se desmanchar numa preguiça meio ansiosa, meio impaciente. Sinto as idéias vibrando dentro de mim como se batessem suas asas pesadas,sinto uma  forte liberdade que me solta ao mesmo tempo que me  prende. Alguém pode me dizer como se enfrenta os dias em que o silêncio é tão pleno e profundo que pode se expressar por si mesmo?Pode-me  explicar a que veio,silêncio maduro, perverso? Eu me mudei pra esse país em setembro de 2009, mas não é a primeira vez que ignoro uma saudade tropical para assentar meus pés em terras frias.

Eu me assusto um pouco como as pessoas aqui. São bem mais fechadas: como está sendo dificil suportar não ter uma amiga pra tomar um chá, pra conversar a qualquer hora. Eu só queria descobrir essa espontaneidade nas pessoas…afinal, como as amizades nascem? De um contato, de uma conversa, de algo mais que se prolonga…E talvez seja esse o problema. Quando é preciso avançar ,os ingleses parecem ter medo. Sentem-se um poco incomodados com pessoas estranhas, que não fazem parte do grupo.Não pretendo generalizar, como sempre falo apenas através do que observo.

Eu sei que hoje esse post saiu amargo como um pedaço de uma verdade chocante que a gente não digere bem, eu sei que não existe remédio, além da paciência. Ser paciente (só assim eu suportar o ultimo adeus que Sam deixa no ar antes de fechar a porta,cada semana quando tem que viajar a trabalho. Já são três semanas seguidas). E suportar um  sentimento que  não chega a ser  solidão, mas que sabe ser tão cruel que até a esperança corrompe.

A França é líquida!

June 9th, 2009

(Eu estou com problemas na página desse blog, mas vou tentar resolver isso o mais rápido possível. Sorry).

Eu estou de volta! Passei duas semanas viajando por algumas regioes da França. Começamos no norte, em Champagne. Logo depois fomos descendo em direção a uma das mais importantes produtoras de vinho, Burgundy. De lá seguimos para Lyon e acabamos no topo, nos Alpes.


A disposição dos dias deveria seguir um roteiro mais ou menos estruturado, ajustado ao tempo (que sempre passa rápido quando a gente está viajando),alheio a qualquer indisposição do corpo, do clima, da mente.

Era preciso chegar ao casamento de uma grande amiga, confirmado com um ano de antecedência, em Lyon, sul da França, mais precisamente numa cidadezinha chamada San Priest, às 15 horas do dia 30 de maio, num sábado que mereceria fazer sol.

Nós tínhamos precisamente esse roteiro na cabeça. Sairíamos de Dover, na Inglaterra, em direção ao sul da França, de carro. Íriamos parar em algumas cidades, ver a paisagem mudar como se a natureza preparasse um espetáculo íntimo para nós; provaríamos os sabores das comidas típicas de cada região, eu saciaria a minha paixão por queijos ao experimentar pelo menos alguns dos milhares produzidos na França. E o objetivo maior seria explorar algumas regiões produtoras de vinho.

Mas, tinha que haver um ingrediente que tornasse essa experiência mais espontânea. Para isso, foi necessário evitar as grandes rodovias, prolongando,sim, um pouco mais a duração de cada viagem, mas com a condição de poder passar pelos lugarejos, respirar o ar campestre da França, sentir os olhos buscarem mais sentimento e sentido em cada pessoa, em cada lugar avistado;parar no meio da estrada e subir os degraus invisíveis que nos levariam a uma igreja abandonada no meio do campo, pôr os pés no solo fértil dos vinhedos, e sentir o corpo apurar o sabor de um vinho que poderia nascer dali dentro de alguns meses…

Esse circuito tornou o caminho mais longo como se seguisse um desejo de não chegar a destino algum. E nos deu a sensação de ter visto e descoberto tantas coisas! Mais ainda era uma sensação realista, uma dessas experiências que amansa o corpo desbravando novos estímulos da alma.

Flor numa garrafa de champagne deixada onde acampamos, em Epernay.

Flor numa garrafa de champagne deixada onde acampamos, em Epernay.

A primeira região que paramos (meu estômago borbulha só de pensar) foi Champagne. A região é uma prova de resistência para qualquer turista interessado em provar a bebida. Entre visitas aos maisons (os grandes produtores da bebida) ou aos vignerons (pequenos produtores e que vendem as uvas para os Maisons), uma passada em bares que oferecem centenas de opções de champagne, o turista pode passar o dia inteiro degustando essa bebida considerada artigo de luxo, feita para ocasiões especiais.

Consciente da minha pura ignorância em relação à bebida (porque se já havia provado o verdadeiro champagne em minha vida,não qualquer espumante, esse momento foi tão rápido que se apagou da minha mente), essa ocasião aconteceu em plena viagem mesmo.

A primeira parada foi em Reims, capital de Champagne. A cidade é pequena, e a primeira sensação é que ela não tem muita coisa a oferecer além das casas de champagne. Sem perder tempo,fomos direto a uma casa que oferecia uma visita guiada e três copos da bebida no final. Foi o primeiro contato nesse ambiente um pouco sofisticado e seletivo (acho que eu e Sam éramos os mais novinhos num círculo de rostos sérios e cabelos grisalhos)

No entanto, foi uma jovem espanhola quem nos apresentou aos primeiros sabores e cores da bebida. E acrescentou um pouco de informação ao nosso amadorismo. Como por exemplo, existem três tipos de uva que são responsáveis, em diferentes aspectos, pelo resultado perfeito da bebida.

Chardonnay é a única uva branca, que aporta delicadeza e suavidade. Pinot Noir é a uva vermelha, é ela que dá corpo à bebida. E por último é a pinot meunier, que é determinante para a evolução e amadurecimento do vinho, além de adiconar aromas.

Essa foi uma dasa primeiras informações que recebemos, de uma maneira tão simples, que já parecia estar incorporada no nosso repertório de desgustadores da bebida.O passo seguinte foi entender como a mistura de sabores tão precisos e delicados resultam na elaboração de um bom champagne.

Fazendo pose na minha primeira "degustation" de champagne, em Reims

Fazendo pose na minha primeira "dégustation" de champagne, em Reims

Para isso, foi preciso ir um pouco mais longe. No mesmo dia seguimos para outra cidade, chamada Epernay, a 26 km sul de Reims. A cidade, conhecida como a capitale du Champagne, parece ter mais personalidade, além de mais opções de lazer. Nessa cidade fizemos duas coisas interessantes. Primeiro, acampamos num “campsite” muito organizado,limpo,e barato. Com 12 euros por noite (para duas pessoas) montamos nossa tenda sob um sol que derretia a emoção que sentíamos no nossos primeiros dias de aventura.

Montados numa bicicleta (que se aluga no acampamento mesmo) exploramos cada ponto dessa cidadezinha como se estivêssemos à procura de um tesouro perdido. Já afastados da cidade seguimos,meio sem saber onde chegaríamos, em direção a um povoado com um nome que é pura onomatopeia, chamado “Ay”.

Seguindo um instinto de liberdade, eu desejava encontrar um desses vignerons que citei logo acima, os pequenos produtores de champagne.Primeiro porque através desses produtores, o contato perde um pouco dessa compostura séria e rígida em torno da apreciação da bebida. Você é convidado a entrar na casa, sentar-se à mesa e provar com calma, desgustando cada gole, deixando o sabor morar no palato por um tempo, sentir a bebida rolar na garganta como se o corpo pudesse experimentar a verdadeira arte da produção de champagne.

Nós encontramos essa casa em frente a um canal, rodeado de flores. Quem nos recebeu foi uma francesa sorridente, que não falava nada em inglês, mas com uma persistência generosa, sempre sorrindo, escrevia no caderno um idioma mágico que a fez entender- se e que até nos ajudou a explicar que passaríamos às dez horas do dia seguinte para comprar as garrafas de champagne que acabávamos de provar, porque seria impossível carregá-las na bicicleta.

Em Ay, para provar champagne nas casas dos pequenos produtores

Em Ay, para provar champagne nas casas dos pequenos produtores

O que eu aprendi sobre Champagne…


Diferente dos produtores locais (que não cobram a degustação, mas claro, esperam que você compre alguma garrafinha), uma visita guiada a um dos Maisons situado na sugestiva Av. Champagne,reestabelece a complexidade do simples ato de provar um copo de champagne.

Escolhemos a casa Moet & Chandon,uma das maiores produtoras de champagne do mundo.Lá você pode fazer uma visita de uma hora à cava subterrânea, onde eles guardam a bebida, e pode escolher provar até três copos – pagando por isso 21 euros por pessoa. Cada maison tem seu preço e você pode ir diretamente a recepção escolher o tipo de visita que desejar.

Nesse dia, aprendemos que o processo de produção da bebida é minucioso. É um equilíbrio delicado entre os três diferentes tipos de uva. Esse trabalho preciso requer ainda a participação de todos os sentidos. Primeiro, se faz a colheita manual. As mãos realizam um trabalho cego entre os diversos cachos de uvas, tentando localizar as uvas mais saudáveis, com pele, em perfeito estado. Dessa colheita, se faz a primeira pressão rápida, o primeiro suco (cada 4.000 kilos de uvas se produz 2.050 litros de suco). Esse primeiro “suco”se chama cuvée.Além disso, eles ainda fazem mais dois processos de pressão chamados premiéres e deuxiémes tailles.

Cava do maison Moet & Chandon

Cava do maison Moet & Chandon

Os melhores produtores de champagne utilizam apenas o cuvée e o premiéres. Os especialistas no assunto provam essa mistura em busca dos aromas, do gosto ideal.O passo seguinte é deixar a bebida repousar por duas horas (nas grandes casas ela é mantida em cubos de aço inoxidável) a um temperatura de 17ºC. A temperatura é muito importante para a conservação dos aromas, ou para diminuir a acidez, por exemplo.

A bebida passa ainda por dois processos de fermentação. Se prepara o cuvée, adicionando vinhos de diferentes vinhedos, de diferentes variedades. No começo da próxima primavera acontece a segunda fermentação (dessa vez a bebida já está na garrafa, mas sem a rolha, submetida a uma pressão de 6 atmosferas), quando se adiciona ao cuvée as levaduras e um licor açucarado. As garrafas são conservadas em cavas subterrâneas a 10ºC, de cabeça para baixo.

O nosso guia nos informou que o resultado final da bebida exige ainda o trabalho em conjunto de mãos experientes que a cada duas dias precisam girar todas as garrafas para que os sedimentos no pescoço desta se sedimentem por completo (se quiserem imaginar a matémática desse processo, levem em conta que a casa Moet & Chandon produz cerca de dois milhões de caixas de champagne por ano).

Em frente ao maison de um dos maiores produtores de champagne do mundo

Em frente ao maison de um dos maiores produtores de champagne do mundo

E o que acontece depois da fermentação? O selo que regulamenta a produção de vinhos na França, chamado Appellation d’Origine, exige que a bebida permaneça no mínimo um ano nessas cavas subterrâneas - lugar silencioso e húmido, que ainda pode abrigar um champagne por muito mais tempo, como exsitem casos de garrafas conservadas por mais de seis anos. E umas dessas preciosidades, guardadas como um mistério líquido e perfumado, pode custar até 2000 euros.

Com o final da visita, o nosso dia se fechou com um alento de esperança. Nesse mesmo dia já havíamos provado – entre cinco ou seis copos dessa bebida sedutora, enigmática, espumante. Mas, nos próximos dias o desafio seria maior : aprender a degustar vinhos.

Tirei uma foto em frente ao império Moet & Chandon, ainda sentindo o gosto do último copo de champagne.Tentando me equilibrar em Sam,eu pressenti que vinha chuva pela frente, era preciso pegar nossas bicicletas e pedalar rápido de volta ao acampamento. Nem mais um copo de champagne! Compramos uma garrafa de vinho no bar do acampamento, mas só conseguimos beber um copo. No meio da noite o céu foi tomado por violentos trovões que fizeram o meu corpo encolher num medo estremecedor. Não sei quanto tempo durou aquela chuva.Mas,o dia seguinte parecia mais fácil prever: eu só queria provar sabores inocentes.

A vitória da magreza e o triunfo do sorriso

May 20th, 2009

Enguanto não começa mais um episódio de Mulheres Desesperadas, resolvi atualizar o meu dia. E o assunto de hoje interessa a todas as mulheres desesperadas ou não, por manter uma aparência saudável, healthy.

Semanas atrás, eu li uma crítica sobre Victoria Beckman - esse modelo esquelético e ditador de moda em várias partes do mundo. Ela é a mais nova garota propaganda de roupas íntimas Armani. Se alguém se interessar em ler o artigo (em espanhol) por favor, reflita, principalmente se for mulher.

Será que não podiam ter encontrado uma imagem feminina mais realista, menos caricatural e inexpressiva que essa mulher? Será mesmo que o número da  lingerie que ela veste corresponde ao da maioria das mulheres?

Na Inglaterra (país que luta contra a obesidade) ela está sempre na lista das melhores vestidas, nas capas das revistas semanais.Mas, as inglesas estão mais para uma musa de Botticelli que para esse manequim anoréxico, que não sorri nunca. Como disse um jornalista do The Guardian, sorrir gasta caloria e Victoria necessita energia para se manter em pé (e alinhada).

posh_spice_armani

Pelo contrário, as inglesas têm o busto avantajado, têm curvas também.Algumas até seguem o protótipo de la Beckham, mas quando vejo essas mulheres, só consigo pensar que elas não desejam ser assim, que elas não descobriram ainda que a beleza tem cor, tem alegria…E não tem nada a ver com a marca da roupa que se veste ou com a capacidade de se equilibrar num salto agulha.

Como toda mulher, eu sempre acho que poderia perder uns quilinhos, “secar”, como elas dizem, mas quando eu olho ao meu redor, uma certeza me consola, eu não preciso ser julgada pela minha aparência.

E quando vejo mulheres como Victoria, eu sinto orgulho de cada parte do meu corpo, dá gosto ser eu mesma! Diferente dela,eu posso expandir um sorriso no rosto - vitaminado, saudável, natural. E esse sorriso, que leva tempo para se tornar sincero, é um triunfo para qualquer mulher dona das suas medidas.

Leia o artigo: (http://www.elmundo.es/yodona/2009/03/31/cuentahilos/1238484953.html).

Fazendo anotações…

May 15th, 2009

   Após assitir ao filme Alta Fidelidade, na semana passada, eu me lembrei de um dia “deprê”,nos meus quinze anos, quando incentivada por uma amiga - que padecia de um entusiasmo natural pelas coisas do mundo- eu fiz a minha primeira lista com pontos positivos da minha vida, que me ajudariam a enxergar a garota  sortuda que eu era.

   Quem assitiu ao filme sabe que o personagem faz da sua vida um listado caótico de lembranças e idéias que o ajudam a entender o passado, quando ele tenta analisar o que deu errado nas suas relações anteriores, ou justifcar o presente, quando ele entrega uma fita com as suas canções preferidas a uma jornalista interessada em entrevistá-lo. Eu, assim como o personagem do filme, estou sempre criando (às vezes na cabeça mesmo) o meu top ten com as melhores canções para dançar, os melhores clássicos do cinema, ou os melhores restaurantes que já fui.

   Mas, existem ainda outros tipos de listas; as que servem para comparar, como por exemplo, a qualidade de vida de um lugar. E nesses casos, a minha cabeça trabalha com destreza para calcular os dias de felicidade vivendo num país como a Inglaterra, no qual 226 dias de chuva no ano comprometem sem piedade a entrada do sol na rotina de cada indivíduo.

   Além disso, descobri que fazer listas de compras tem uma função terapêutica, me acalma. Daí que tomada por um instinto prático (que foi previamente anotado num caderno),que não me é característico, eu comprei vários cadernos de anotação e os espalhei pela casa. Consumida ainda por esse desejo de anotar todas as idéias que me surgiam na mente,eu comprei uma mini-lousa com ímã para pregar na geladeira e poder fazer…listas!

   A minha primeira lista foi a de necessidades urgentes. O que precisamos nessa casa: amor, música,açúcar…Recentemente fiz outra lista de coisas que sempre acabam faltando durante a semana: leite, queijo cottage, salada,persistência…E a lista de hoje foi sobre coisas diferentes para fazer em algumas cidades que já visitei. Já é assunto para o próximo post.

feijao com pao rima no café da manha dos ingleses

feijão com pão rima no café da manhã dos ingleses

    Eu ainda não falei diretamente sobre a Inglaterra. Dei voltas, fui do Brasil a Espanha, escapei no cenário de fundo desse país - de um verde tão generoso que parece sugar toda as cores possíveis tornando esse lugar tão caracteristicamente cinza. Por falar nisso, aqui o clima é mais que um começo de conversa. Para os ingleses é um tema tão interessante quanto política. Afinal, quem vai preparar um churrasco sem saber como será o amanhã.

   A Inglaterra é um país curioso. Faz parte do Reino Unido, mas é como se alguma característica separasse esse país dos outros. Quando comparo com outros países da Europa, sempre digo que a Inglaterra tem o prazer de ser diferente.

   Pensando nisso, outro dia convoquei Sam para ajudar-me a criar uma lista de coisas que para mim fazem da Inglaterra um país autêntico, mas melhor ainda, faz com que ela se torne única sob os cuidados da minha percepção.Muitas vezes me peguei falando sozinha,com ar de supresa no rosto após ver algo na rua que me chamasse atenção, que me deixasse com essas quatro palavrinhas na boca: “só podia ser aqui”…

   Porém, um detalhe preocupante nessa lista, feita sob a promessa de que a publicaria neste blog, foi a improvisação. Eu pedi a Sam que fizesse a lista comigo, caso esquecesse de alguma coisa. Mas, por um descuido da consciência (só pode ser isso) não havia nenhum daqueles caderninhos na cabeceira da cama. Que detalhe! Com preguiça de me levantar para buscar um, decidimos escrever numa espécie de cartas de baralho. Nada demais e vocês podem até não entender esse comentário, mas percebi que sem ter escrito num caderinho eu não pude transcrever as idéias para o computador e foi necessário passá-las para uma folha. Mas, enfim, eis o momento de aprensentar a minha lista. E chega a hora de riscar mais um item da minha lista de tarefas do dia.

  O que é que a Inglaterra tem?

   Eles dirigem no lado esqerdo (ok, isso não é novidade)

   Eles usam outras medidas de distância, de peso, etc. Por exemplo, enquanto na Europa (como no Brasil também) uma pessoa pesa 60 kg, na Inglaterra ela pesaria 9 stones (tradução literal:pedras) e 3 lbs (pounds). Eles não usam kilômetros, mas yards. Ah, e miles (1 mile ou milha equivale a 1760 yards). Confuso?

   Eles fazem parte da União Européia, mas a moeda do país é a libra esterlina (pounds) ao invés do euro.

    A entrada das tomadas elétricas são diferentes (com tres pinos, em forma de triângulo). Eu comprei uma chapinha na Espanha, que já foi usada em vários outros países da Europa, nas minhas viagens, mas que coisa, não posso usá-la aqui!

    Eles facilitam a vida de quem tem problema em encontrar o sapato perfeito. Aqui, existe o chamado “half sizes”, e o sistema de numeração é outra. Ou seja eu não uso o número 6 (que corresponde a 39, acho), eu uso 5 e meio.

   Existe carro de três rodas, chamado Reliant Robin. E para dirigí-lo você não precisa de carteira de motorista.

para dirigir esse carro você só precisa saber dirigir...uma moto!

para dirigir esse carro você só precisa saber dirigir...uma moto!

   As casas são todas iguais,típico estilo inglês, com muro baixo, um pequeno jardim na frente. Algumas têm portas em cores bem vivas como roxo,vermelho.

    Aqui não existe o conceito de “una caña” ou de “um chopp” para cerveja. Essa bebida é vendida num copo de aproximadamente meio litro. Mas, ops, eles não usam litros, usam pint (ou seja 0.47 litros).

    Cachorro é animal sagrado. Faz parte da família, mora dentro de casa com conforto, não importa o tamanho. Portanto, se você atropelar um cachorro, tem que prestar socorro, ligar para polícia, caso contrário poderá ser multado. Mas, não se preocupe se o acidente acontecer com um gato. Você pode passar até duas vezes por cima desse animal e ir pra casa tranquilo (o pobre bicinho é uma exceção nessa lista).

    Você precisa pagar uma taxa de 145 libras por ano para poder assitir aos canais da televisão. Mas, se você usar a tv apenas para assistir a dvds, não é necessário (a pessoa responsável vem até a sua porta para cobrar essa taxa).

     No café da manhã eles comem feijão (meio doce e enlatado) com torrada, ovos, salsicha, bacon e molho de tomate.

    A bebida mais consumida é o chá. Ela é usada sem preconceito: na hora do almoço, na hora do jantar, etc.

    Prato típico do país, Fish and Chips, é a combinação de peixe empanado com batatas fritas (ah, eles comem batatas fritas com vinagre e queijo ralado). E você identifica o lugar onde se vende o famoso prato de longe, pelo cheiro, e seguindo os pratinhnhos em formato de caixas de ovo, no chão.

   Sanduíche de bacon é super popular. A receita é simples: pão e bacon!

    Tanta chuva não é suficiente! A Inglaterra corre sérios riscos de em aproximadamente 20 anos ter problemas de falta de água.

   É só esquentar um pouco (um pouquinho, porque nunca faz calor), ou ter um dia de sol, para os ingleses saírem pelas ruas como se estivessem em pleno verão, com shorts, camisetas e óculos de sol! Mas, ainda faz frio.

Percepção requer envolvimento

May 6th, 2009

   O aprendizado de uma língua também segue um ritmo peculiar e diário. É preciso estar disposto e se entregar a essa aventura, mergulhar nas palavras, mas não apressar o entendimento. Então pode acontecer algo ainda mais positivo, quando a língua passa a ser um instrumento que muda a nossa vida.

   Se eu não falasse espanhol hoje talvez não pudesse manter uma conversação mais profunda com colegas colombianos do meu curso de inglês, por exemplo;ou com uma itialiana que se viu obrigada a falar espanhol em razão das dificuldades que o inglês lhe oferecia. E, como a literatura e o jornalismo me brindaram com outras formas de comunicação,o uso de uma língua estrangeira também permite esses momentos abstratos, mas que parecem fazer sentido no no-sense das relações humanas.

   Essa semana eu vivi a minha segunda  experiência como babysitter.Durante uma tarde eu tomei conta de duas crianças maravilhosas, filhas do baker, lá da cafeteria.  Como os pais falam francês(e outro dialeto também) e por serem muito novinhos (a garota tem dois anos e o rapazinho tem três e meio)  eles não aprenderam ainda a falar inglês; o garoto entende,talvez melhor que eu, mas apenas balbucia algumas palavras…

   Contente e encantada com a primeira visita infantil a essa casa, eu espalhei os lápis de cores na mesa, joguei as almofadas no chão, desenhei para a garotinha, que parecia ver algum talento detrás dos meus desenhos tortos.

   Tentei decifrar o segredo detrás das palavras do pequeno garoto, mas mesmo sem entendê-lo existia uma cumplicidade gratuita no olhar e nos gestos daquela criança…

   Senti uma satisfação preencher um vazio no meu rosto, naquela tarde, quando tentei apresentá-lo algumas novas palavras.Eu desenhei uma árvore (this is the tree!), e enstusiasmado com as cores ele repetia comigo: tree; e como se experimentasse o aprendizado mais rápido do que o corpo pudesse suportar, correu excitado até o jardim para mostrar-me que ali havia uma árvore. E não parou de repetir até que passamos para o próximo desenho, (the flowers) e vi no seu rosto dois olhinhos nadarem em desespero ao encontro das pequenas flores que nasceram espontaneamente no jardim de casa. E mais uma vez, como se provasse o sabor das novas palavras, não parava de mostrar e repetir: flowers

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    Então eu pensei como a língua também proporciona esses intervalos, nos quais a gente pode até recomeçar uma nova vida. Sempre repito que entender um outro idioma é ponta-pé para aceitar uma nova cultura. Somente assim posso entender o sentido de estar aqui e o sentido pelo qual muitas pessoas abandonam seus lares (seus países) para buscar o que ali não puderam encontrar…mas,por outro lado, posso entender que a linguagem também segue um ritimo inverso;quando já sabe tão profundamente a que se destina que não deseja ser executada…

   O siêncio dos outros-  Existe um senhor, já com seus setenta anos, que é um dos clientes devotos, da Croissant Dor (agora meu antigo trabalho). Todos os finais de semana, às oito da manhã,ele entra em silêncio,com seu jornal diário, senta-se e ali permanece até que um ou dois funcionários se dão conta, se entreolham e trabalham em harmonia: enquanto um prepara o seu large cappuccino, o outro pega um prato, prepara os talheres,leva um croissant de queijo e presunto ao forno, e o servem quando pronto.

   Ele não precisa pedir. Sua presença já estabelece a petição E isso ninguém me ensinou. Aprendi observando outras colegas prepararem esse pedido oculto durante repetidos finais de semana. Demorei um pouco mais para aprender que ele não tolera que retirem a xícara da mesa, mesmo que reste apenas uma fina espuma de leite, a não ser que seja para substituí-la por outra com o velho cappuccino de sempre.

   Uma vez tentei recolher a xícara e ele a segurou com um grosso dedo indicador -perdido dentro do vazio da xícara. Sem sentir o peso negativo daquela resposta, eu tentei trazê-la novamente para mim. Dessa vez ele foi mais incisivo.Colocando mais força num único dedo, ele prendeu a xícara,me olhou firme e balançou a cabeça. Tive apenas tempo de corar e dizer um murcho  ”I am sorry”.

   Ele tinha uma barba grossa e cheia, o rosto sempre sério, e olhos furiosos, mas que se olhassêmos com mais calma podíamos encontrar neles doçura.Ele nunca deu uma palavra, nunca conversou com outro cliente ao lado,mas um dia percebi que fazia sempre anotações no seu caderno, sempre mantendo a xícara de cappuccino ao lado, como inspiração.

   E a razão do silêncio era essa,pensei. Tinha certeza que ali naquele café ele se comunicava melhor que qualquer outra pessoa. E que podia voltar pra casa mais pleno e seguro de si,como se mantivesse conversações secretas com o sagrado.

 

   

Do you speak ou hablas?

April 27th, 2009

   Nesse período eu descobri o prazer de aprender uma nova língua. Eu já havia estudado aquele inglês insoso que se ensina no colégio, e queria um novo desafio.

   Escolhi aprender espanhol, e não errei. Nas primeiras aulas eu senti a frescura da descoberta das novas palavras, o sentido das novas expressões, a língua fazer malabarismo dentro da boca para dar vida a novos sons que nunca foram verbalizados.

   E depois veio o estudo da gramática, até chegar ao ponto onde já dominamos um pouco o idioma e o interesse se estabelece; até chegar o dia em que podemos pôr em prática o idioma no país onde ele é falado e sentir as primeiras palavras sairem pedregosas como se escapassem da boca de um robô interno programado para falar.

   A minha primeira tentativa de falar espanhol foi tão constrangedora quanto a situação que me encontrava. Ao passar pelo controle de imigração,recém-chegada à Madrid,eu não podia aguentar as minhas pernas de tanto nervoso, muito menos o pavor de uma paixão desrregulada que eu sentia no peito.

   As portas do desembarque se fecharam atrás de mim e não havia ninguém a minha espera, como eu imaginava. Pensei que, tomada por aquela agonia do reencontro,eu podia ter ficado cega ou até mesmo invisível. Mas, não, eu tinha os olhos tão castigados pelas horas sem dormir,e pelo abuso das lentes de contato, que podia ver através do olhar de qualquer outra pessoa que passasse a minha frente.

   Resultado que depois de vinte, trinta, cinquenta minutos, eu já havia me contaminado pela falsa  ( paciente) raiva dos seres “enamorados”. Me levantei da cadeira,precisava reagir. Demorou um pouco para que tomasse uma atitude.

   Apoiada  na vantagem  que o idioma oferece às pessoas que como eu falam português, eu me localizei facilmente e fui direto ao balcão de “Informaciones”.

   Sem desejar cair no famoso portunhol, eu respirei fundo como se precisasse falar algo sério, e diante daquele rosto estranho eu apenas consegui dizer: “teléfono público”…No que a moça me respondeu forte, desse jeito franco como os espanhóis se expressam (que mais adiante eu diria desse jeito bruto mesmo) : sigue todo recto, ya verás a la derecha.

   Falar um idioma é um desafio. Até o português mesmo às vezes soa tão selvagem e diferente que parece não ser minha língua materna.

   O que mais me interessa no aprendizado de um idioma é que o próprio também se modifica e interage com outras culturas.Os sotaques, para mim, são como personalidades vibrantes que quebram a monotonia da língua.

travel

   Há tanta diferença entre o inglês dos cursinhos do Brasil e o inglês que escuto diariamente na província de Yorkshire. Não sei como descrever o sotaque daqui, mas se assim pudesse diria que soa como um alemão adocicado.

   Eu melhorei bastante o meu inglês, não há dúvida, mas ainda sinto uma dificuldade de me expressar tão grande que  é preciso convocar todas as partes do corpo - numa orquestra de mãos, braços, cabeça-  para ajudar-me a através de gestos e sons.

   Com um sotaque tão difícil e com a necessidade urgente de entendê-lo,por razões de trabalho, etc, desenvolvi a técnica (não recomendada) da resposta imediata, sim ou não.  Mas, o que acontece é que essa resposta rápida às vezes me deixa em situações complicadas.

   Uma delas aconteceu no meu mais recente trabalho, na cafeteria. Um casal veio em minha direção fazer o pedido; apontou para uns pãezinhos franceses dispostos numa cesta,na prateleira,  e me perguntou algo que decifrei como: é possível “to bake these breads”.

                   (Pausa para pensar) To bake: cozinhar, assar…

   É possível assar esses pães? Sem pensar respondi que sim, sure. Corri pra cozinha, pálida, desejando não ter entendido o que acabava de escutar, desejando também estar numa praia deserta onde alguém pudesse entender quando gritasse por socorro.

   Sem ter pra onde fugir perguntei ao “baker”(o padeiro), ele então o responsável pelos desejados pãezinhos;com anos de experiência poderia entender esse desvairado pedido. Era ele quem podia me salvar, o baker, que fala francês e tem um desejo involuntário de aprender espanhol -  nas poucas aulas que lhe dei, me escreveu algumas mensagens num espanhol simples, mas tão sincero, que parecia tentar me enganar quando dizia que nunca tinha estudado o idioma.

    Pois sim, ele, o “padeiro”, não sabia o que dizer;como fazer um pão que já está feito? Eles querem “to bake those breads” ?Sim, os mesmos pãezinhos que temos outside. Seria eu tão estúpida para não entender esse pedido, pensei, ou talvez se tratasse de clientes muito especiais, em busca de uma nova experiência, não tão profunda quanto a que eu experimento com a linguagem; queriam um meta-pão, o pão dentro do outro…A confusão estava feita.

   Se por um lado eu tenho esse desapego de falar um idioma estanho como se fosse meu,por outro, eu tenho a timidez -  que é a raíz que vai de encontro a minha origem - que me impede de falar com mais desenvoltura.

   Sem outra saída, eu retornei mais uma vez à mesa do casal e lhes perguntei pela segunda vez, já sem a mesma valentia de antes, se eles desejariam, por exemplo, geléia de damasco ou morango para passar nos benditos pães (que naquele momento mal sabiam que destino iam tomar).

   Eles me olharam assustados, como se eu falasse num outro dialeto, e me disseram que apenas haviam pedido pão e bacon. E que bacon e geléia não combinam.E riram, fingindo ser complacentes.

   Meus ouvidos reagiram ao som de uma palavra que nao haviam detectado antes: era bacon, ba-con! Esse fatia de gordura que os ingleses, assim como os americanos, comem no café da manhã, acompanhado de molho de tomate, feijão (doce e enlatado) e  ovos!

   Entre um sim e um não,já aconteceu de no mesmo ambiente de trabalho me perguntarem se havia algum banheiro e eu sem pensar disse não (como se meu cérebro demorasse a decifrar), mas segundos depois disse sim.

   Ou quando um conhecido cliente me perguntou se tínhamos um banquinho, mas por ter entendido que queria um“canudo”, eu disse não. Em seguida, percebi que a filha dele continuava em pé (e ao meu redor todas as cadeiras estavam ocupadas)  e deduzi que o que precisavam mesmo era de um assento: Yes, we´ve got it! 

   Entre um sim e não eu vou colecionando histórias. Um americano instalado em Barcelona e lutando para entender o espanhol apressado que ali se fala, é um claro exemplo de que mais importante que entender uma língua é mostrar simpatia por ela. Não no sentido exato da frase. Mas, como dizia ele, quando conversar com alguém, sorria sempre. Especialmente quando não tiver nenhuma pista sobre o que a pessoa  está falando…

Eu, palavra…

April 24th, 2009

   Quando eu estudava comunicação e lia com afinidade os meus autores preferidos, eu tinha quase certeza de que o meu interesse pelas letras era uma espécie de gostar por determinação do espírito, não por vontade própria.

   Já existia ali o meu interesse em buscar uma forma de esclarecimento através das palavras quando, aos 15 anos, abri um desses guias de profissões e levei meu dedo até a palavra jornalismo, deixando escapar uma forte emoção ao ler a minha escolha em voz alta.

   Mas, existia algo mais profundo que o interesse em retratar o cotidiano ou expressar minhas opiniões. Eu tinha que ser sincera comigo mesma. Não seria então a escolha de uma carreira, mas de uma forma de narrar a minha própria história. E porque não a dos outros também.

   O jornalismo amadurece diariamente, com o cotidiano, com o fluxo dos acontecimentos, e para existir, necessita  de um ritmo de produção constante. Mas, como jornalista (diga-se diplomada,já que corremos o risco de nos tornar espécies em extinção) porém sem trabalho, as coisas se invertem.

   Os dias não parecem os mesmos. O mundo continua produzindo notícias diárias, a economia muda, as pessoas morrem.Mas, a sensação que eu tenho é que “tomar conta desse mundo” carece de uma energia (e entusiasmo) que a maioria dos jornalistas não possue hoje em dia. 

   Mas,eu talvez não seja a pessoa mais adequada para falar sobre isso. No entanto, ao fazer jornalismo eu abraçava outra propriedade da profissão: a linguagem. E sendo jornalista eu talvez pudesse ser escritora. Cheguei a tentar cursar letras, mas no final acabei fazendo uma pós-graduação em literatura.

escrevendo

   Quando toquei na parte árida da linguística eu senti que talvez sendo escritora eu pudesse entender o que boa parte do mundo parece não entender: como comunicar-se, de que forma,etc. Parece estranho, mas quando escrevo é quando mais me aproximo dos outros, de mim mesma.

   E a essa altura da minha vida só encontrei uma prova de comunhão perfeita de palavras com uma amiga muito querida, que já dividiu comigo todo esse poder da linguagem – pensamento, através de poemas que construímos juntas, ou da invenção de uma peça de teatro,onde a loucura ganhou forma e nos mateve lúcidas para enfrentar o cotidiano de pré-vestibulandas; ou de um jornal que nasceu, nada mais que dizer, da indignação tão pura e sincera (que ainda hoje tento buscá-la dentro de mim, em certos momentos), pelo fim de uma revista que não precisava de um outro nome, se chamava Palavra.

   Logo mais eu desenvolvi o hábito de não querer me comunicar sem esse requisito,“envolvimento”. E talvez nessa época eu tenha deixado muitas pessoas confusas, querendo me ajudar ou entender o que eu sentia. Mas não tinha jeito, era mais forte que essas paixões que nos atacam desprevenidos.    

   Não tinha sossego no meu coração, eu não podia ser tão óbvia e não havia quem pudesse arrancar de mim um esclarecimento. Eu não falava, escrevia, mas diziam que aquelas palavras não tinha sentido, que eram (muy) formal, que era uma decisão de não- se-comunicar, apenas.

   Eu não me surpreendo agora depois de abrir o livro da minha memória, e rever esse passado silencioso, essa pedra na palavra. Mas, como deve acontecer com toda a pessoa que escreve (ou tenta, no meu caso), eu só busco exorcizar o demônio de um tema e curar minhas obsessões em torno do próprio exercício da palavra. 

(obs: preciso aprender a escrever menos nesse blog…por minha vontade, o texto não acabaria aqui,mas haja paciência para ler tanta coisa…amanhã segue mais)