Dias de crise…
April 17th, 2009Meses atrás, na casa de uma amiga, em Barcelona, conversamos sobre a crise que se instalou na Europa, no final do ano passado e que perdura até agora. Segundo ela, a crise não passava de especulação. “As pessoas continuam comprando como antes, se divertindo e gastando dinheiro como sempre”. O assunto nao rendeu muito; primeiro porque era véspera de ano novo - e em dias assim só se fala em dinheiro se for pra pedir, com pé direito, um aumento na conta bancária para o próximo ano; segundo, porque por alguma deficiência no meu caráter eu normalmente nao alimento esses debates calorosos por muito tempo.
A conversa morreu aí, já que estávamos mais interessados em abrir a champanhe na terraça do sexto andar e nos despedir do ano velho.
Dias depois voltei à Inglaterra e, como para qualquer pessoa normal, seria como retornar à rotina depois de uns dias de festa. Mas, desde que cheguei aqui, em setembro do ano passado, eu me pergunto: então, qual é a minha rotina? As pessoas se levantam todos os dias para trabalhar, fazem ginástica, cuidam dos filhos, preparam o jantar, assistem a um programa na tv e dormem. Mas, qual é a rotina para uma pessoa desempregada, com tempo livre, mas sem inclinação para o ócio criativo, com planos para realizar, mas sem dinheiro pra dividir a conta do gás?
Os primeiros meses foram desesperadores. Eu cheguei no auge da crise, ou da especulação, e a verdade é que vi grandes lojas fecharem, os preços dos alimentos duplicarem no super-mercado e muita gente como eu procurando arduamente um trabalho.
Três meses de busca, e nenhuma esperança. Cheguei a distribuir quinze currículos nas mais diferentes lojas num único dia (uma delas, super estranha, aprensentava na vitrine um desfile horrendo de bonecas semelhantes a recém-nascidos, estáticas, como se fossem secretamente de verdade. A dona, ou a “manager”, recebeu meu currículo, me olhou de cima a baixo, e me ofereceu um sorrisinho falso, que saltou da sua boca vermelha, como se nao fizesse parte daquele rosto carregado de maquiagem). Não tive nenhuma resposta.
Conversei com colegas das aulas de inglês. Alguns já seguiam trabalhando por algum tempo, a maioria em restaurantes, mas outros ainda estavam desempregrados.
E o que me deixava mais apavorada é que muitos deles eram europeus – ou seja, sem nenhuma restrição pra trabalhar, a não ser a dificuldade de falar o idioma. Diferente deles, eu apresentava uma desvantagem preocupante. Imigrante (palavra mais chata), com visto de estudante e limitada a trabalhar apenas 4 horas por dia, num total de 20 horas semanais, eu via minhas chances cada vez menores…
Outro dia conversei com uma espanhola, que mora aqui há um ano e meio – mas que mantém o coração firme em algum canto de Madri- e batalhou como qualquer outra pessoa de nacionalidade nao européia para conseguir um emprego. Depois de quatro meses de busca, aceitou limpar quartos de um famoso business hotel, em Leeds.
Hoje ela é supervisora, tem um salário razoável, e uma gastrite que lhe obrigou,por conselhos médicos, a desistir do cafezinho e cigarro e do curry picante – que aqui na Inglaterra é tão popular quanto nosso feijão com arroz.
Não preciso mencionar que o meu desespero já estava em ebulição, e eu nao via uma saída. Tentei até trabalho voluntário, como fotógrafa em uma clínica, mas recebi uma fomal resposta negativa, dizendo que no momento não havia vaga.
Em dezembro, através de uma colega peruana, consegui um emprego numa cafeteria francesa. Finalmente, minha primeira entevista de trabalho! Aceitei a oferta na hora, apesar de que eles só necessitavam alguém para os finais de semana.
Tinha esperança de que nos próximos meses as coisas melhorariam e eu encontraria um trabalho que ocupasse as minhas tardes livres. Que ironia. Sentada nesse sofá, eu já vi minhas tardes se esvaírem profundamente no cinza dos dias de chuva, vi minhas horas escaparem tão rapidamente quanto a luz do dia, no inverno.
Mas,como a estação, algo também mudou na minha vida. Os meus dias não apenas são mais longos, como são mais leves e esperançosos…Agora, dou aula de português, uma vez por semana, a um casal de ingleses. Porém, as aulas terminam em junho e preciso saber o que fazer a partir daí.
No entanto, a vida continua; sem a rotina que cada um de nós deseja. Não aquela rotina absurda a que todos temem, o tédio. Eu queria apenas a consecução dos dias seguros. Poder saber que amanha eu vou trabalhar e depois de amanha também.
Se por algum momento eu tive dúvida dessa crise…eu tentei não acreditar no pessimismo da mídia, no ceticismo dos políticos, na análise dos especialistas…Mas, o estilo de vida mudou, sem dúvida. Hoje fazemos compras no mercado (ou na feira), não vamos jantar fora com tanta frequência, e os programas de finais de semana ficaram reduzidos a um filmezinho - mas,com direito a um vinho, pelo menos.





